dirceu-leite

O samba instrumental de Dirceu Leite

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br

Todo samba é uma forma de oração. Não poderia ser diferente com o multi-instrumentista gaúcho, radicado no Rio de Janeiro, Dirceu Leite, que vive dias agitados. Participou como jurado nas últimas três edições do Prêmio da Música Brasileira – inclusive dos 50 anos de carreira de Maria Bethania -, da gravação do songbook de Jorge Aragão, dona Ivone Lara, João Nogueira e de uma roda de samba que foi tema da abertura dos jogos Paralímpicos do Rio. O músico, que já tocou ou ainda toca com mestres como Ney Matogrosso, Chico Buarque, Zeca Pagodinho, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Beth Carvalho, prepara agora a gravação de dois novos CDs, com expectativa de serem lançados em 2017. Está entre os seus projetos a gravação do “Cacique Instrumental 2″, cuja primeira versão completa neste ano dez anos.

Em “Cacique Instrumental”, Leite fez uma homenagem ao bloco de carnaval Cacique de Ramos, do Rio de Janeiro, celeiro de grandes compositores. Fundado em 1961, no subúrbio carioca de Ramos, zona da Leopoldina, tendo como padroeiro São Sebastião, o Cacique promove rodas de samba históricas para mantê-lo vivo e pulsante, berço de artistas como Beth Carvalho, Fundo de Quintal, Almir Guineto, Arlindo Cruz, Sombrinha, entre muitos outros. “É uma reverência aos músicos do Cacique, mas tive a ideia de gravar esse CD quando estava tocando com a Beth Carvalho, fazendo isso há muitos anos. E imaginava as melodias daquelas músicas no formato instrumental. É, por tanto, uma homenagem aos amantes do samba”, explica o músico, que além dos fãs, é cobrado por Arlindo Cruz e Jorge Aragão a fazer uma nova versão do trabalho, que de tão cult, é possível encontrá-lo no Mercado Livre sendo vendido a R$ 83,90.

“Nos ensaios, o Aragão sempre olhava prá mim e dizia: ‘essa aqui é uma música que precisa estar no Cacique Instrumental 2’. O Arlindo, então, me cobrou por não ter gravado a ‘Oitava Cor’, música de Sombra, Sombrinha e Luiz Carlos Davi. Essa é uma das que, com certeza, estará no próximo disco. A melodia dá um tremendo instrumental”, afirma Leite, que quer manter a mesma sonoridade do primeiro trabalho. “É o grande charme, que é do pagode de mesa, uma sonoridade que existe dentro dos redutos do samba tradicional. Não vou colocar bateria nem teclado, que são bons, sãos bons instrumentos e com ótimos músicos. Mas não são adequados para se fazer um disco com a cara do Cacique Instrumental, sem desmerecer esses instrumentos e seus músicos.”

dirceu-leite2“Cacique Instrumental” é uma obra prima, que começa com a música “Lucidez” (Cleber Augusto/Jorge Aragão), que abre caminho para outras canções de uma beleza indescritível, como a “Além da Razão” (Luiz Carlos da Vila/ Sombra/ Sombrinha) e “Lama nas Ruas” (Zeca Pagodinho/ Almir Guineto). Sax, clarinetes e flautas dão prova que há um jazz no samba brasileiro, no coração do batuque dos escravos. O CD tem a participação de Hamilton de Holanda, Carlos Malta, Hildo Hora, Vittor Santos, Ovídio Brito, Chico Chagas, Arlindo Cruz, Sombrinha, Ubiracy e Luiz Carlos da Vila. Mas, antes de gravar “Cacique Instrumental 2”, Dirceu Leite entrará em estúdio no final de outubro para gravar seu segundo CD autoral, sob a batuta dos arranjos de maestros como Gilson Peranzetta, Cristovão Bastos e Gilson Santos.

O CD terá 13 músicas, número místico para Leite, numeral que o acompanha desde o primeiro CD “Leite de Coco” (1995), e o mesmo número de músicas que há em “Cacique Instrumental”. “Eu não vou tocar só minhas músicas, mas algumas feitas por compositores como o Peranzzetta, que fez prá mim uma música quando ele era meu aluno de clarineta. E vou gravar uma do trompetista e maestro Gilson Santos, uma música com Carlinhos Sete Cordas, e vou gravar o ‘Rio à Toa’, uma música minha com o Jorge Simas, vencedora do primeiro Festival de Choro do Rio, em 1996, ainda inédita em gravação. A idéia é lançar o disco em 2017, depois do Carnaval.”

Deixe um comentário

Social



Licença de uso

Licença Creative Commons
Os textos do Entresons são publicados com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.
Você pode reproduzir, retransmitir e distribuir o conteúdo, desde que com crédito (ao site e ao autor do texto), para uso não-comercial e com uma licença similar.

Próximos shows

Assinar: RSS iCal