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Sentir e viver a música

Quando se escreve um poema, um livro, uma letra de música, uma peça de teatro os símbolos deixam de habitar a cabeça do criador para povoar os corações e mentes do público. Não importa a história de quem criou a obra. Talvez, em algum momento, essa informação possa fazer um sentido maior sobre a personalidade do criador e seus reflexos na sua criação. Mas a força da sua mensagem está nessa capacidade incrível de transcender a realidade, de falar para além de seu tempo. Renato Russo foi capaz de ser um poeta eterno, explorando, com as dissonâncias do rock, os abismos da injustiça social, da humana desumanidade, da solidão e da alegria das coisas simples do cotidiano. Alheio à sua história, à própria história do rock nacional, que floresceu na década de 1980, o que realmente me importava ouvindo Legião Urbana era reconhecer em suas letras um protesto contundente contra os enlatados americanos; o trabalho sem identidade de “Música de Trabalho”; a poluição da fábrica e a coisificação do homem em “Fábrica”; que o prá sempre, sempre acaba (“Por enquanto”).

Sua voz acolhedora, sua voz grave, projetada sobre uma base com acordes simples, mas muito bem trabalhada, acompanha-me todos os dias da minha vida. Há dez anos, uma amiga havia me criticado por gostar tanto de Legião Urbana até aquele momento, pois para ela seria como se a minha adolescência não houvesse terminado. Nem todo mundo consegue se desvencilhar da relação dos sons com experiências passadas. É comum uma música fazer lembrar de determinada namorada, de um determinado período de sua vida. A questão é que amo tanto Legião Urbana que, além de ter essa memória de tempos passados, suas canções ganham novos significados à medida que o tempo passa. Demorou muito tempo, aliás, para entender o que é sentir um som do John Coltrane da música “Leila” e saber “enfrentar a beleza dessa vida”.

Durante o serviço militar, Legião era também um dos meus hinos. Toda vez que tinha que cantar o Hino Nacional, bater continência para a bandeira, escutar toda a mentira sobre o Golpe de 1964, eu tinha a letra de “Perfeição”, sabendo que há sempre uma outra história a ser contada. Indiretamente, a Legião já me ajudou muito. Em 1995, quando eu e o meu amigo Zero viajamos para o Uruguai batalhar umas entrevistas com os Sobreviventes dos Andes, os jogadores de um time de rúgbi uruguaio cujo avião caiu na Cordilheira dos Andes em 1972, foi uma música da banda que me ajudou a conseguir a primeira entrevista, em Montevidéu. Após várias tentativas de entrevistas por meio do telefone, todas negadas, fomos para um “boliche”, um bar com música ao vivo, em companhia dos amigos que fizemos no Albergue da Juventude, na Rua Canelones. Eu me empolguei e toquei no bar uma música do Legião no violão, que não me lembro qual, mas deveria ter sido “Tempo Perdido”. Um senhor de barba, gorducho, pediu para se sentar na mesa para conversar com o pessoal logo depois, com todo aquele agito. E aquele senhor, sabendo do motivo da nossa viagem, abriu todas as portas. Ele era amigo de Carlos Páez Villaró, artista que construiu o magnífico hotel Casa Pueblo, em Punta Del Este, e cujo filho Carlitos Páez era um dos sobreviventes daquela tragédia. Direta ou indiretamente, a Legião deu um impulso para que fosse possível conquistar a simpatia daquele senhor, que nos ajudou o resto de toda a nossa viagem. E ainda me ajuda muito, toda vez que acho que tudo está perdido, escuto na minha mente “A Via Láctea” ou “Quando o sol bater na janela do seu quarto”.

Em 11 de outubro de 1996, eu havia acabado de almoçar e entrei no meu quarto. À época, trabalha num jornal de Americana, meu primeiro emprego em redação de jornal diário. Minha mãe abriu a porta do quarto e disse que tinha uma notícia terrível, que era para eu me preparar. Ela ouvira no Jornal Hoje sobre a morte de Renato Russo. Senti uma tristeza, mas não cheguei a chorar. No exagero,  cheguei a me sentir meio como o personagem de “O Estrangeiro”, de Camus, que não teve qualquer emoção ao saber da morte da mãe. Não cheguei a tanto. Não sabia nada sobre a vida dele, nunca tive essa curiosidade. Sentia, como ainda sinto, o que representa a sua música na minha vida, recebendo o julgamento de quem dá de costas para um artista só porque vendeu milhões de discos ou porque não faz parte do restrito grupo do mundo de algum gênero, como o do jazz. Uma vez foi tocar com um amigo vestindo uma camiseta do disco “Dois” e ele comentou: “tem gente que não vai gostar de ver você usando essa camiseta.” Há sempre gente de todo e qualquer jeito e pensamento. E eu respeito. O fato é que a Legião toca até hoje o meu coração. E, como diz a música “Esperando por mim”, “meus verdadeiros amigos sempre esperaram por mim”. Renato Russo é um poeta eterno, uma grande fonte de inspiração e carinho que ajudou muito a ensinar a sentir e a viver a música.

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