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Caolho fica quem tenta entender Vinícius Chagas

Música é para sentir, não para entender, dizem os mestres. Um deles é o multi-instrumentista Itiberê Zwarg, com quem o saxofonista Vinícius Chagas, 25 anos, realizou um curso em 2015 com grande profundidade. O jovem instrumentista lançou recentemente o CD “Moment Storm”, cuja primeira música “Lalá” me traz a sensação do mesmo workshop. Tentei entrevistar o músico, mas nossas agendas não bateram. Como aqui é um blog, e o chefe sou eu mesmo, deixo de lado o jornalismo e a curiosidade e compartilho sensações. Até porque, essa curiosidade me fez lembrar da história dos caolhos do livro “Mil e uma Noites”. E como meu psiquiatra talvez leia o blog, ele pode avaliar se um dia terei alta. É testar para ver se a musicoterapia está funcionando.

“Lalá” é uma música que me causa muita alegria, traz um gosto de liberdade e poesia, de um verdadeiro jazz brasileiro. Eu só escuto a música no Deezer, mas pesquisando no Youtube dá para ver que o arranjo é de Paulio Celé, um guitarrista incrível, que também participou do curso do Itiberê no ano passado. Nessa música estão ainda os membros do Vinícius Chagas Sexteto: Salomão Soares (piano elétrico), Paulio Celé (guitarra), Rubem Farias (Baixo elétrico), Diogo Duarte (Trompete e Flugelhorn), Rodrigo Digão Braz (Bateria) e o próprio Vinicius Chagas (Saxofone Tenor e Flauta).

“Moment Storm” é uma música que tem um som esgarçante, diríamos, mas que é um verdadeiro tema que gruda na cabeça. O que ele grita nessa música é admirável. Que tempestade é essa? “Não falamos mais nisso”, diz alguém ao fim da música, dentro do estúdio. A partir dessa música, que é muito boa, nota-se, que Chagas tem um domínio técnico invejável. Essa capacidade de tocar rápido, de alcançar notas tão díspares em pouco tempo, pode, no entanto carregar por demais a música. Em “Dama de Branco” ele mostra um lado romântico, com tema que igualmente gruda na cabeça. Mas o menino ganhou um dia um disco do Charlie Parker e decidiu que era tudo que ele gostaria de ser um dia. É importante deixar o novo nascer e aprender com mestres brasileiros. Técnica absurda tinha o Paulo Moura, que desaguava tudo em plena emoção. Vinícius Chagas não precisa provar o quanto é bom. E isso vem já de coração, com os temas seguintes como “Cruviana”. Esqueça o Charlie Parker, seja cada vez mais você. Nesse tema, aliás, o mago Paulo Celé assina também o arranjo e toca sua guitarra flutuante.

O disco é muito bom, importante demais para o jazz brasileiro em tempos sombrios. Tem coisas preciosas como “Chão Vermelho”, com improvisações todas muito inspiradoras. E tentar entender esses sons, sem dúvida, me faz voltar milênios no tempo, para além das aulas de Zwarg para dentro de livros de história, dessas que são contadas de pai para filho. Um sujeito estava perdido e faminto numa montanha. De repente, encontra uma fila de monges que, a cada passo, autoflagelavam-se. Os monges ajudaram o sujeito que, uma vez no mosteiro, percebeu que todos aqueles homens que se batiam e resmungavam tinham o olho direito furado. A curiosidade do sujeito cresceu ao ponto de perguntar aos monges o motivo daqueles ferimentos, o motivo de tanto autoflagelo. O líder disse que não poderia contar, o sujeito teria que passar pela mesma experiência. Seria a experiência que diria se ele sairia ou não ileso. O homem topou. No dia seguinte, vestiram-no com peles de carneiro. A fantasia logo atraiu a atenção de Roc, ave mitológica persa, que com suas garras afiadas poderia levantar até elefantes. Roc agarrou o sujeito, que já cuidou de proteger os olhos. Mas ainda era muito cedo para temer.

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Capa de “Moment Storm”, o primeiro CD do saxofonista Vinícius Chagas

Quando o pássaro percebeu que aquilo não era um carneiro, jogou o monte de pelo próximo a um rochedo. Quando se levantou, o sujeito vislumbrou um castelo magnífico, habitado por 360 princesas de vários reinos. Ele poderia ficar lá o tempo que quisesse, sob a condição de namorar uma princesa por noite. Quando chegou ao 360º dia, ficou sabendo que ficaria sozinho no castelo por cinco míseros dias. E, nesse tempo, era proibido visitar uma ala do castelo. No primeiro dia ele passeou pelo lugar, pensou na vida incrível que tinha. No segundo dia, já estava entediado. Até que no quinto dia, não resistiu. Foi até a ala secreta do castelo. Lá havia um cavalo de mármore muito bonito, mas quando chegou próximo da estatua, um cheiro forte de advertência o fez desmaiar. Ao acordar, não teve medo, foi até a estátua e montou no cavalo. De repente, o cavalo ganhou vida e abriu asas. Era Pegasus, que acordara do seu sono. O animal prendeu as pernas do sujeito e saiu voando, levando-o direto para o mosteiro. Quando aterrissou, deu um salto que fez o sujeito cair e, nesse movimento, ele feriu o olho direito na ponta da asa de Pegasus. As asas do cérebro de Chagas, que está na arte do CD, podem muito bem furar os olhos daqueles que não se contentarem em ver algo de belo em meio a tanta técnica.

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