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Comentários a respeito de John e Jarvis

“O tempo. Andou mexendo com a gente sim.” É o que diz a canção de Belchior em “Comentários a respeito de John”, que, assim como o ex-beatle, continua extremamente atual. O tempo vem dilacerando as esperanças. Entre 1969 e 2016, há um fosso gigantesco de 47 anos, em cujas extremidades podemos encontrar movimentos pacifistas e libertários, cujas forças criativas foram impulsionadas planetariamente por John Lennon. E, de outro lado, uma tecnologia que ameaça as liberdades individuais, personificada em Jarvis, a inteligência artificial criada pelo CEO e fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, há uma semana antes do Natal de 2016. Jarvis transforma a sua casa em um ser vivo – e altamente perigoso.

Dois pontos do universo exemplificam a discrepância em que vivemos. Em março de 1969, John e Yoko decidiram se casar. E chamaram a imprensa para uma sugestiva coletiva num quarto do Hilton Hotel de Amsterdã: “Venha para a Lua de Mel de John e Yoko: uma sessão de cama, Hotel Amsterdã”. O que parecia apenas uma esquisitice do casal, que sugeria que os roqueiros fariam amor diante das lentes dos fotógrafos, foi uma ação planejada para alertar o mundo sobre a necessidade de se viver em paz. Ambos estavam vestidos de branco, dos pés à cabeça. A cena foi repetida no Hotel Rainha Elizabeth, em Montreal, no Canadá, país no qual conseguiram ainda mais mídia que na Europa. Foi nesse quarto de hotel que John e Yoko gravaram, de forma improvisada, o hino pacifista “Give a Peace a Chance” (Dê uma chance para a Paz), com a participação de 50 fãs. O casal ainda enviou sementes de carvalho para 50 líderes mundiais, para que pudessem se preocupar mais com a vida do que qualquer possível guerra. Em 1970, há dez dias do Natal, o casal espalhou por 11 cidades do mundo outdoor e cartazes com a frase: “A guerra acabou! Se você quiser. Feliz Natal John e Yoko.” Pela sua atuação pacifista e sua amizade com agitadores políticos e culturais, John teve o telefone grampeado pelo FBI, era constantemente seguido por agentes e sofreu grande pressão para deixar os Estados Unidos quando o seu visto vencera.

War Is Over

Em 1970, John e Yoko distribuem outdoors e cartazes pacifistas em 11 cidades do mundo

Enquanto ecoa pelo universo a música “Give a Peace a Chance”, com a memória do casal vestido de branco, deitado na cama, o mundo mudou radicalmente, praticamente esvaziando a lista de utopias, reduzidas ao desejo de sair de férias em uma praia que tenha WIFI. Um corte abrupto no tempo e no espaço revela uma cena dantesca. Há seis dias do Natal de 2016, a revista americana Fast Company publicou uma reportagem com o CEO do Facebook, a patética figura de Mark Zuckerberg. Sua promessa de Ano Novo era construir um assistente residencial idêntico ao mordomo Jarvis, do filme “O Homem de Ferro”. Veja quão inspirador! E ele conseguiu. Publicou a façanha em sua conta na rede social, com um vídeo, para o deleite dos nerds. Jarvis saúda o seu amo ao acordar, diz a temperatura, dá aulas de mandarim para a filha do casal, prepara o café da manhã e escolhe a música a ser tocada no ambiente a partir do gosto musical do proprietário. No vídeo, a voz da inteligência artificial é a do ator Morgan Freeman, que já interpretou Deus em “O Todo Poderoso” e na série “A história de Deus”.  Por meio de uma câmera instalada na porta, “Deus” consegue fazer reconhecimento facial de quem nela para, dando comando para abrir ou mantê-la trancada. A ironia de Zuckerberg nesse vídeo é aterrorizante. Nem parece que há seis anos uma guerra sangrenta está destruindo a Síria, já matou mais de 300 mil pessoas. Esquecemos que a invasão do Iraque foi decidida a partir de uma mentira, nem parece que os Estados Unidos acabaram de eleger um dos piores e mais ameaçadores presidentes de sua história. Paz? Para Zuckerberg, o mundo precisa de Jarvis. Ah, sim, também de obras de caridade…

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Mark Zuckerberg e a ilustração de Jarvis, o mordomo de O Homem de Ferro

Facebook e Google já conseguiram acabar com a privacidade do cidadão no mundo virtual. Uma empresa brasileira, a pernambucana In Loco Midia, já usa sinais emitidos do seu celular para obter mapas internos de residências, shoppings e indústrias. E isso sem mesmo precisar de GPS. Eles são capazes de segui-lo da sua casa até uma concessionária de veículos, por exemplo. Imagine o que uma tecnologia como Jarvis pode conseguir vigiando 24h a sua residência, conhecendo seus hábitos, fazendo lista das pessoas que te visitam. Empresas como o Google e a Amazon já possuem assistentes residenciais utilizando inteligência artificial. São caixas de alto-falantes que recebem e emitem sons, capazes de ditar uma receita de culinária encontrada em algum site na internet, comprar passagens aéreas e tocar música. No Natal, o Echo, da Amazon, foi um dos produtos mais desejados pelos norte-americanos. Estima-se que foram vendidos cinco milhões desses alto-falantes até o Natal. E, em 2017, empresas como Microsoft, Samsung e Apple devem lançar suas próprias parafernálias.

Enquanto as empresas sonham em levar esses produtos até a casa dos consumidores, buscando novas formas de se vender outros produtos a partir dos hábitos de consumo, governos ficam ansiosos para utilizar essa tecnologia para espionagem. Donald Trump quer usar as companhias de tecnologia de seu país para rastrear pessoas tendo como base a sua religião. Em 13 de dezembro, funcionários do Google e do Twitter assinaram uma carta se posicionando contra projetos como esse. Imagine o poder que uma nação consegue analisando grandes quantidades de informação sobre as tendências políticas, culturais e religiosas de sua população. O problema não está apenas em governos autoritários, como China e Coreia do Norte. É difícil de acreditar que essas empresas ficarão imunes às investidas de Donald Trump. Enquanto isso, o Facebook vai catalogando as pessoas, uma a uma, num primeiro nível, para depois chegar até a casa delas com seu próprio mordomo eletrônico. Artistas brasileiros, por exemplo, têm sido bloqueados na rede social por utilizarem os seus nomes artísticos. Será que John Lennon teria que assinar seu nome completo no Facebook: John Winston Lennon? E, assim, estar marcado por defender posições políticas em defesa da paz? “John, eu não esqueço (oh no, oh no), a felicidade é uma arma quente. Queeeeeente, queeeeente…”

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