O Grito

Somos todos ouvidos

Roger Marzochi / Imagem do quadro O Grito, de Edvard Munch

Apesar do grande reboliço causado pelo site WikiLeaks, que na terça-feira (07/03) revelou que a CIA invade qualquer dispositivo conectado à internet para espionar quem quer que seja, as próprias empresas de tecnologia já invadem deliberadamente a privacidade de seus usuários com a desculpa de evoluir os seus sistemas de tecnologia. E não é mais apenas o que pesquisamos na internet. Conversas no ambiente familiar estão sendo captadas em milhões de residências nos Estados Unidos em equipamentos de inteligência artificial que usam comando de voz. Amazon, Google e Samsung são exemplos de companhias que querem saber até mesmo o que você anda cantando no banheiro.

A Alexa, o sistema de inteligência artificial desenvolvido pela varejista americana Amazon para equipar os alto-falantes Echo, é um exemplo. O sistema é usado para automatizar funções em residências como controlar interruptores de luz, som ambiente, compra de passagens aéreas e receitas de culinária. Além de ser mais desenvolvida que o Google Home, assistente residencial do Google recém lançado, a Alexa equipará de carros a, até, geladeiras no futuro.

O equipamento, cujas vendas já alcançaram 5 milhões de unidades nos Estados Unidos desde 2014, está captando todo o áudio ambiente de uma residência, sob o pretexto de desenvolver ainda mais a suas capacidades técnicas e cognitivas. Com a brutal quantidade de dados que a Amazon já recebeu em seus servidores, foi possível, por exemplo, tornar a Alexa capaz de identificar padrões de vozes para responder corretamente quando consultada, em meio a diversas pessoas que estão em um bate-papo.

“Há milhões destes equipamentos nas residências, e eles não estão coletando poeira”, disse Nikko Strom, especialista em reconhecimento de voz que trabalha na equipe da Amazon, que desenvolveu a Alexa e o Echo. No início do ano, em janeiro, durante uma conferência em Santa Clara, na Califórnia, ele revelou que a empresa de Jeff Bezos escuta tudo o que seus clientes dizem em casa. “Nós obtemos uma quantidade insana de dados”, disse ele, de acordo com o relato publicado na revista Technology Review, do Massachusetts Institute of Technology (MIT).

A Samsung também está captando grande quantidade de conversas em casa a partir de suas novas televisões inteligentes, que recebem comandos de voz para troca de canais, denunciou o site The Daily Beast, em 2015. Um aviso da política de privacidade da Samsung confirma a coleta de dados. “Por favor, esteja ciente de que as palavras utilizadas nos comandos, mesmo que sejam informações pessoais ou confidenciais, serão gravadas e transmitidas a terceiros.” À época da denúncia, a companhia divulgou comunicado afirmando que se preocupa com a privacidade do usuário e que as mensagens são encriptadas. A captação de palavras começou a preocupar com o surgimento da Siri, a assistente pessoal que equipa os iPhones da Apple.

O problema, portanto, não é novo. Mas apesar de as companhias de tecnologia afirmarem que respeitam a privacidade dos usuários, esse tipo de prática é tão absurda quanto uma espionagem propriamente dita de um governo como o americano, deixando os usuários totalmente desprotegidos diante da invasão dos momentos mais íntimos. É preciso urgente de uma regulação que impeça essa deliberada quebra de privacidade cometido por empresas privadas, além de educar os usuários para que percam também a ingenuidade de acreditar que a tecnologia resolverá todos os seus problemas.

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