Hermeto Pascoal Show 11032017 Foto de Divulgação

Hermeto e Heraldo provam sua juventude

Roger Marzochi / Foto de divulgação

“Querer saber sem sentir é o mesmo que querer ter fé sem ter esperança.” Essa foi uma das diversas frases poéticas ditas por Hermeto Pascoal no sábado (11/03), durante show com o guitarrista Heraldo do Monte, no Sesc Pinheiros, em São Paulo. Esta frase, especialmente, revela importantes características deste show e, também, da essência do que o músico batizou de “Música Universal”. “Música Universal é a música que está mais perto do céu, é a música que vai unir o mundo”, afirmou Hermeto.

Os dois companheiros de longa data realizaram um show sem qualquer ensaio e, nem mesmo, repertório, como Heraldo havia explicado, na semana passada, ao entresons. A ideia da apresentação, que foi também celebrada no domingo, foi a de tocar a música que surgisse no palco, no momento. Uma hora, Hermeto desafiava Heraldo, começando no piano uma canção; depois, era a vez de Heraldo apresentar um tema. Em um tom muito bem-humorado e sem qualquer arranjo pré-definido, esses músicos incríveis, que já passaram dos 80 anos, deram uma pequena amostra do fascinante universo da explosão de constelações sonoras.

O público, que lotou o Teatro Paulo Autran no sábado, pode ouvir músicas como Feitiço da Vila, Wave, De volta pro Aconchego, Fly Me To The Moon, Noites Cariocas e Bebe, uma composição maravilhosa de Hermeto, que durante o show intercalava o uso da escaleta e do piano. Apesar de serem temas antigos, nada nessas músicas era datado e previsível. “O que estamos fazendo aqui é para mostrar que a música é como a alma: não envelhece. Quem envelhece são as ideias”, disse Hermeto, que brincou com a ideia de que hoje tudo são números, até mesmo o momento de ir ao banheiro. Em cada música, havia algo diverso, uma pitada diferente, que vem da chamada “Música Universal”. Não é um gênero, é uma sensação: a de que não há fronteiras para a música, que pode trazer elementos de várias culturas.

A cada música Hermeto contava um pouco da sua história e de suas impressões sobre algumas composições, lembranças e reminiscências. O músico lamentou a falta de divulgação do show nos meios de comunicação de massa, mas agradeceu a presença do público. O instrumentista, por exemplo, disse que já havia dado diversas entrevistas contando a história sobre como conheceu Heraldo, mas ninguém publicou uma linha. “Sempre falo em minhas entrevistas, mas o pessoal não põe as coisas que eu falo sobre como conheci o Heraldo.” Pôs-se, então, a contar.  O alagoano Hermeto tocava sanfona em Recife, na Rádio Jornal do Comércio. Poucos minutos antes de entrar no ar, Hermeto ficou sabendo que Heraldo queria conhecê-lo. “Para minha surpresa, ele queria que eu fosse tocar piano na boate”, lembrou Hermeto, que nunca havia tocado esse instrumento. Heraldo, no entanto, argumentou que ao ouvir o que Hermeto fazia com a sanfona tiraria o desafio de letra. E era para estar na boate naquela noite mesmo.

“Mas o que eu faço com a mão esquerda?”, questionou o bruxo. Heraldo tranquilizou o amigo: o seu Blusa, apelido do dono do bordel, não conhecia nada de música. Era só Heraldo encobrir a vista do Seu Blusa com a guitarra para não notar que Hermeto tocava só com a mão direita. A história rendeu muitas gargalhadas na plateia. “O Heraldo é um gênio, é um ser humano maravilhoso”, dizia Hermeto ao amigo de poucas palavras, mas muitas notas musicais. Em um ápice de êxtase, ao improvisar ao lado do filho Luiz do Monte, Heraldo tascou o microfone para perto de si e começou a solfejar as notas que tocava na guitarra. Fabio Pascoal, filho de Hermeto, também participou do show em alguns momentos criando ritmos eletrizantes no pandeiro.

Hermeto ainda comemorou o aniversário de Luiz Bueno, do Duofel, que estava na plateia. E os dois fizeram no palco um som ‘swingadaço’ em improvisações de Parabéns a Você. Com 1 hora e 56 minutos de música, o público pedia mais, quando Heraldo tocou uma canção de ninar, era o sinal de que o show daquela noite estava no fim. No domingo, novos desafios esperavam a dupla. “Lotar por 2 dias seguidos a maior sala de concertos de todos os SESCs com pessoas de ouvido musical e bom gosto é muito bom! Voltou gente das bilheterias por falta de lugares! Quando fomos agradecer foi que eu olhei para aquela multidão e acreditei! Cuidado quando você fala de música instrumental no Brasil. Às vezes, o pessimismo é que é a ilusão”, disse Heraldo, em uma rede social.

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