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“Nós S/A” é uma defesa contundente da cultura

Roger Marzochi / Fotos Fábio Brazil

Não é fácil representar uma classe social, imagine então, toda uma sociedade. Mas foi bem isso o que conseguiu fazer “Nós S/A”, performance que o grupo de dança contemporânea do Instituto Caleidos, em São Paulo, apresentou entre os dias 10 a 19 de março. Em um momento em que vários grupos artísticos da cidade protestam contra o contingenciamento de 43,5% da verba da Secretaria de Educação de São Paulo, que inviabiliza espetáculos de teatro, dança e música, a diretora Isabel Marques, uma artista-educadora, levou o público a uma reflexão profunda não apenas do absurdo da administração João Dória (PSDB), mas a configuração de toda a sociedade, fundamentada no lucro exacerbado de poucos. “Nós S/A explora, por meio da dança, o universo da apropriação do espaço urbano pela lógica do mundo corporativo”, explica o folheto, entregue logo na entrada do espaço, criado em um antigo galpão na Lapa, zona oeste da capital. “O mundo dos negócios atuando sobre o espaço e sobre os corpos do mundo.”

Sob o início de uma garoa à beira do Outono, o público busca se proteger no pequeno hall, enquanto, do alto da cabine de comando, é liberado uma fumaça no salão de espetáculo. Abre-se uma porta, pela qual sai o poeta Fábio Brazil, responsável pela codireção e dramaturgia da peça, cinco minutos antes do início da apresentação, no sábado (18/03). “De repente, surge alguém e diz que sua vida não vale nada, e a joga no lixo”, diz Brazil. É uma referência ao corte no orçamento para a cultura, justamente em uma peça que foi selecionada, no ano passado, pelo Edital do Programa de Fomento à dança da Prefeitura. “Como fazer um trabalho de pesquisa de linguagens agora? A ideia é restar apenas o entretenimento, e nada mais?”, questiona. “Ah, a peça não é gratuita! Você a pagou quando pagou os seus impostos”, complementa, em tom espirituoso.

Sem tirar os sapatos desta vez, o que é praticamente uma regra nas apresentações da companhia, cerca de 30 pessoas entram no palco, acompanhadas à frente por um dançarino. No centro, há uma mesa de aproximadamente três metros, com umas 50 casas de papelão dobrável sobre a mesa, forrada de inúmeras propagandas de lançamento de apartamentos. Há ainda um pouco de fumaça, e a trilha sonora é a obra Réquiem, de Wolfgang Amadeus Mozart. Vestidos como homens de negócio, num terno estilizado em roupa de dança, com os pés pretos simbolizando sapatos (ou patas), os dançarinos criadores Nigel Anderson, Renata Baima, Kátia Oyama e Ágata Cérgole se posicionam sobre a ampla mesa, iniciando, pelos olhares contundentes, uma coreografia que revela o poder que possuem sobre a vida de todos os que habitam essas casas de papelão, metáfora da cidade. Participaram ainda do espetáculo os colaboradores Jailson Rodriguez, Bruna Milani, Felipe Lwe e Rodrigo Costrov.

À medida que a música avança, casas são derrubadas da mesa, num frenesi constante, em disputas de jogos de dama, tacadas de golfe e sinuca. Quando tudo está limpo, o público é convidado a adquirir um dos imóveis anunciados, que são ornamentados com carrinhos de brinquedo, bonecas e, também, panelas. Uma dançarina incentiva o público a bater panelas de brinquedo o que, com o clima fantasmagórico, vigoroso e poético da música que levou o compositor austríaco a se encontrar com a própria morte, a referência com o panelaço de Dilma Rousseff reforça ainda mais a sua perspectiva sombria. Por quem as panelas ‘dobram’? Não se escuta o mesmo com um governo corrupto como o de Michel Temer.

Nos_SA_-_Caleidos_Cia_de_Danca_Fabio BrazilCom a atuação de outros dois dançarinos, uma mesa de jantar repleta de comida é montada, com o centro preenchido pelo pato da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). ”#Chega de pagar o pato.” Com esse artefato inflável, toda comida é reunida em sua volta, simbolizando a concentração de renda. De homens de negócio, os dançarinos passam por uma profunda metamorfose após o banquete, que os leva a seres monstruosos, doentios, próximos a urubus gigantescos. Ao fim, são confinados em um espaço apertadíssimo, no qual vivem a saudável vida fitness. Entre as ações, muito movimento e controle sobre o corpo. Ao fim do espetáculo, Isabel Marques diz, de cima da cabine de som, que este foi claramente um evento em protesto ao corte do Orçamento de Cultura e em defesa de uma sociedade democrática. A apresentação foi muito além das cercanias de São Paulo, divisando à sua frente o imenso tsunami conservador que ameaça arrasar com todo o planeta.

Democracia sonora - No mesmo sábado, ocorreu o segundo encontro do movimento Música Instrumental Pela Democracia, no Jazz nos Fundos, com a proposta de realizar uma jam session de protesto contra o corte de verbas para a cultura. No mundo do jazz brasileiro, o autoritarismo de João Dória também se faz presente, prejudicando novas pesquisas sonoras. No ano passado, por exemplo, o grupo de jazz À Deriva lançou o CD “O muro rever o rumo”, fruto da associação da banda com o grupo de teatro Les Commedies Tropicales, mais especificamente, da última encenação “Guerra sem batalha ou Agora e por um tempo muito longo não haverá mais vencedores neste mundo, apenas vencidos”. O projeto só foi possível devido à ajuda da Lei de Fomento ao Teatro da cidade de São Paulo.

“A prefeitura não está no vermelho, o Fernando Haddad deixou o governo com dinheiro em caixa. Usa-se argumentos burocráticos, os quais não acreditamos, por que isso é um plano maior. As orquestras estão sendo eliminadas em todo lugar, em São Paulo, também teve o fim da Orquestra de São José dos Campos, teve isso em Curitiba, em Belém… Estamos vendo um ataque à cultura não só no Brasil, mas no mundo todo”, afirma Carlos Ezequiel, baterista e professor do Conservatório Souza Lima. Ezequiel conta que, nos Estados Unidos, muitos músicos estrangeiros, que possuem autorização para morar no país, temem sair em turnês com suas bandas sob o risco de serem barrados na volta pelas leis de imigração de Donald Trump.

O músico, um dos criadores do movimento, diz que o objetivo é debater com a sociedade e realizar shows de protesto em outros bares e cidades. Não é possível, na opinião do músico, que se continue a criminalizar mecanismo importantes de financiamento público da cultura, como a Lei Rouanet. “Está na Constituição: a cultura é um dever do Estado”, afirma o músico. O show de sábado foi transmitido ao vivo pela página do movimento no Facebook e, segundo o músico, cerca de 7 mil pessoas acompanharam a apresentação, seguida de uma mesa redonda. “A ideia é não se restringir ao pessoal da música instrumental. Nós queremos estimular as pessoas a saírem da bolha e a criarem argumentos para defender a área em que vivemos e trabalhamos”, diz o músico, que explica que o palco é livre para qualquer músico que deseja se expressar. O movimento, no entanto, não tentará dialogar com o poder público.  “Que expectativa temos do Dória e do Geraldo Alckmin? Não acreditamos em diálogo com esse pessoal. Não é à toa que o Michel Temer, em uma de suas primeiras medidas, foi acabar com o Ministério da Cultura.” Toda expressão cultural já é, necessariamente, uma expressão política, mesmo que se afirme o contrário. Seja na imersão catártica de uma apresentação como a de “Nós S/A”, seja no prazer de uma bossa nova e jazz, a ordem é protestar contra a onda conservadora.

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