1Salomão Soares por Luan Cardoso

Um São João na Suíça

Paraibano é o único brasileiro e latino-americano a disputar competição de piano no Montreux Jazz Festival

Roger Marzochi, entresons / Foto de Luan Cardoso

Aos 27 anos, o pianista, arranjador e compositor Salomão Soares é o único brasileiro e latino-americano entre os dez semifinalistas do Montreux Jazz Piano Solo Competition 2017, disputa que ocorrerá entre os dias 2 e 3 de julho na Suíça, que faz parte do renomado festival Montreux Jazz Festival, o segundo mais importante festival de jazz do mundo. O festival, que é realizado entre os dias 30 de junho a 15 de julho, nasceu em 1967 e se tornou uma das mais importantes vitrines da música popular brasileira, com apresentações histórias de Hermeto Pascoal, Tom Jobim, Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Soares nasceu em Guarabira (PB) e foi criado em Cruz do Espírito Santo, também na Paraíba. Desde muito cedo teve a sua musicalidade despertada por influência do pai José – percussionista –  e da mãe Maria José – violonista que brindava com música todas as festas da família. O músico cresceu num pedaço de Nordeste musicalmente privilegiado. Ao mesmo tempo em que começou a estudar teclado, entrou para a banda marcial tocando saxofone, batendo triângulo, zabumba e pandeiro, embalado pelas festas de São João. “Com certeza o forró do São João foi o mais importante na minha formação musical. Era a época em que a gente mais trabalhava. Foi uma das minhas maiores escolas”, diz Soares, em entrevista ao entresons. “Vai ser um São João na Suíça”, brinca o músico.

Com a influência das festas populares, a musicalidade do pianista se fundiu à música instrumental brasileira, especialmente à chamada Música Universal, gênero criado pelo mago Hermeto Pascoal. Não é à toa que Soares, quando se mudou para São Paulo, em 2011, seguiu para estudar no Conservatório Dramático e Musical de Tatuí, orientado pelo pianista André Marques, que integra o grupo de Hermeto. Apadrinhado pelo multi-instrumentista Itiberê Zwarg, também um outro expoente do grupo do bruxo albino, Soares domina diversas linguagens da música popular, o que lhe permite uma versatilidade em seus trabalhos. Suas performances são notáveis e já foram realizadas ao lado de alguns nomes marcantes como Hermeto Pascoal, Filó Machado, Nenê, Gabriel Grossi, Itiberê Zwarg, Vinicius Dorin, Fábio Leal, Arismar do Espírito Santo, Altay Veloso e Lilian Carmona.

Essa sua musicalidade brasileiríssima chamou a atenção dos organizadores da competição, na Suíça. Soares enviou para a organização, além de seu currículo, duas músicas: “Loro”, de Egberto Gismonti; e “Boizinho Universal”, composição de sua autoria inspirada no Bumba meu Boi. Essa composição fará parte da disputa, além de músicas como “Billie’s Bounce”, de Charlie Parker; “Só danço Samba”, de Antônio Carlos Jobim; e uma composição inédita de Soares, que ainda não tem nome. “Fiquei muito feliz. Vou tocar uma música que acredito, a Música Universal. Sou grato por representar a escola da qual eu vim. Não precisei me moldar pra nada. É muito legal por parte do festival abrir o leque: não é só jazz, mas música instrumental brasileira.”

O vencedor do concurso leva 10 mil francos suíços, aproximadamente R$ 34 mil, além de ter o direito de gravar um CD com todos os custos pagos pelo festival. A passagem para a Suíça, que custou R$ 4.500, Soares teve que tirar de suas economias, recursos que conseguiu reunir no período em que tocava em navios de cruzeiro pela costa da América Latina. O músico tentou obter ajuda dos Estados de São Paulo e da Paraíba, mas não conseguiu apoio, apesar de representar o País num dos mais importantes eventos da música internacional.

“Sou o único cara da América Latina nessa competição, estarei representando a música brasileira. É quase que uma obrigação do governo de apoiar essa situação”, afirma Soares, que ao menos conseguiu hospedagem gratuita na casa de um amigo. Dentre os semifinalistas, estão pianistas da França, Ucrânia, Estados Unidos, Rússia, Itália e Áustria. Mas, se caso vencer a disputa, ele já está estudando a formação da banda que gravará seu primeiro CD. Repertório autoral para isso, afirma ele, já há de sobra.

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