Paulio Celé Jazz nos Fundos

O tempo é agora

Multi-instrumentista criado no Tocantins prepara seu primeiro CD de Música Universal

Roger Marzochi, do entresons

“E se meu tempo não fosse agora” será o nome do primeiro CD do guitarrista, arranjador e compositor Paulio Celé. O trabalho, que deve ficar pronto entre agosto e setembro de 2017, vai enriquecer ainda mais a cena da música instrumental brasileira, mais especificamente, a da chamada Música Universal. A expressão, criada pelo multi-instrumentista Hermeto Pascoal, refere-se a um jeito de tocar que ressoa influências musicais planetárias, sem ser possível a definição de um gênero específico. Em fevereiro do ano passado, o guitarrista Alex Lameira também mergulhou nessa fonte, apresentando o seu primeiro CD, que está pleno desse espírito. O disco era para se chamar “Saudades do Sol”, mas com início das gravações em estúdio novas sensações apontaram para outros caminhos.

Celé prefere não associar seu som à Música Universal, por acreditar que apenas o mestre Hermeto Pascoal seja capaz de fazê-lo. Uma modéstia facilmente descoberta ao se ouvir “Partindo para o interior”, canção já disponível no Youtube e que fará parte de seu primeiro álbum.  “Violêra”, outra canção que estará no disco, pode ser conferida em um trecho de ensaio que o músico postou em seu perfil no Facebook. Aos 31 anos, o paulistano criado entre o Tocantins e o Maranhão, já fez arranjos para o quinteto do baterista Eduardo Sueitt e o sexteto do jovem saxofonista Vinícius Chagas, que lançou no ano passado o seu primeiro álbum, “Moment Storm”. O CD, aliás, traz uma música composta e arranjada por Celé: “Cruviana”.

Para o seu trabalho autoral, o guitarrista compôs dez músicas, que carregam toda a sua experiência de vida, calcada em festas populares como Folia de Reis, maracatus e Bumba meu Boi, expressões culturais muito vividas por sua família em Miracema, no Tocantins, e em Carolina do Maranhão, no Maranhão. Há dez anos em São Paulo, após deixar a cidade aos três meses de idade, Celé hoje é professor do Conservatório Souza Lima.

Ele se formou no Conservatório de Tatuí. E, em suas andanças por Palmas e Goiânia, o músico traz ainda mais forte em sua bagagem influências de Hermeto Pascoal, Itiberê Zwarg, Heraldo do Monte, George Benson e Milton Nascimento.  “São Paulo é a minha mãe biológica”, brinca o músico. “Mas eu tenho coisas do Tocantins que são tão fortes em mim que me considero tocantinense. Acredito que as fases da infância e da adolescência são cruciais para a construção da nossa personalidade.”

Ao sair de São Paulo, a família se mudou para Aparecida do Rio Negro, uma cidade muito pequena, sem banco ou posto de gasolina à época. Até os seis anos de idade, Celé foi criado solto no mato. “Eu tenho lembranças muito boas disso. Esse primeiro momento foi muito rico e construiu a minha forma de desenvolver a música.” Depois, ao se mudar para Miracema, Celé começou a ter aulas de teclado. Nas férias, viajava para casa da avó em Carolina do Maranhão, onde tinha vivência mais pura da Folia de Reis. “Sempre nas férias rolava Folia de Reis na casa dela. Chegava o povo de madrugada cantando, era uma coisa linda. E minha avó passava cantando. Festa lá em casa era todo mundo cheio de instrumento musical.”

Com nove anos, a professora de teclado, a dona Eunice, disse que já havia ensinado ao menino tudo que sabia. Celé começou a fazer aulas em Paraíso, uma hora de viagem de ônibus, para onde o músico pingava toda semana. Até que, com 11 anos, ele se interessou mais pelos dedilhados de seu pai ao violão. “O ouvido dele é muito impressionante, de descobrir acordes sem não saber nada de teoria”, diz Celé.  Seu pai chegara a gravar um disco de músicas católicas quando morou em São Paulo. Aos 14 anos, Paulio Celé foi morar em Palmas para completar o segundo grau e fez aulas de violão, uma vez que não havia um professor de piano naquela escola. Morou um ano em Goiânia, estudando num conservatório e, em 2005, mudou-se para São Paulo, estudando no Conservatório Carlos Gomes e no Conservatório de Tatuí. Só aos 19 anos a guitarra entrou em sua vida, tanto que o músico se considera mais um violonista.

O multi-instrumentista ainda canta, e faz o som flutuar ainda mais com vocalizes inspiradíssimos. “Tive a sorte de estudar com Fábio Leal, um dos melhores guitarristas do mundo, que entende muito a música brasileira. E fui descobrindo o som do Heraldo do Monte, do Hélio Delmiro, Egberto Gismonti. Pesquiso muito a música brasileira, essa coisa da guitarra brasileira, o folclore, o boi, o maracatu, o frevo… transpor esses ritmos para dentro da composição, que é a coisa que o Hermeto faz. Traspor a melodia de uma lavadeira e colocar num contexto de harmonia arrojada e de polirritmia.” Na companhia de músicos tão sensíveis quanto Celé, o novo disco está sendo gravado com grande empolgação e alegria, buscando vencer os obstáculos que todo músico brasileiro enfrenta. “Todo mundo que vai participar do disco tem a mesma energia, que é a da música brasileira. Não é jazz, não é funk, não é linguagem de jazz americano. É musica instrumental brasileira com muitas referências.”

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