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Nos porões da dor

Letieres Leite e Jorge Marciano encontraram melodias, acordes e ritmos para transformar a dor dos escravos trazidos ao Brasil em arte e resistência

Roger Marzochi, do entresons – imagem de destaque é a reprodução do quadro de Johann Moritz Rugendas

Há discos que são eternos, especialmente porque conseguem encontrar poesia onde há uma imensa dor. Letieres Leite, na Bahia, e Jorge Marciano, em São Paulo, são dois artistas mestres nesse campo. Ex-saxofonista e maestro de Ivete Sangalo, Leite criou a Orkestra Rumpilezz, que em 2009 lançou um inesquecível disco unindo o universo percussivo e religioso da Bahia à música instrumental brasileira e ao jazz americano. Em 2010, a Rumpilezz foi reconhecida no Prêmio da Música Brasileira como o Melhor Grupo de Música Instrumental. E, na edição de 2017 do mesmo concurso, a Rumpilezz foi novamente eternizada em razão do CD “A Saga da Travessia”, lançado no ano passado. O CD foi escolhido como Melhor Álbum, o grupo como Melhor Banda e Letieres Leite como Arranjador.

Orkestra Rumpilezz vence novamente no Prêmio da Música Brasileira - Foto de Raul Lorenzeti

Orkestra Rumpilezz vence novamente no Prêmio da Música Brasileira – Foto de Raul Lorenzeti

Esse segundo disco consolida o estilo inconfundível do grupo, dando ênfase à terrível travessia dos negros da África pelo Atlântico até chegar ao Brasil. Essa sensação ganha força especial nas três primeiras músicas do CD: Banzo Parte 1, Parte 2 e Parte 3. O trabalho também faz uma homenagem à Gilberto Gil, em “Professor Luminoso”, e indiretamente ao saxofonista americano John Coltrane, em “Dasarábias”. No solo desta música, o sax soprano faz uma rápida menção ao disco “A Love Supreme”, que Coltrane lançou em 1965, uma de suas maiores obras-primas na qual expressou toda a sua busca espiritual, muito mais que religiosa, um agradecimento ao mistério de Deus. E a música não deixa de ser um de seus mistérios. “Quando digo que a música é religião também quero dizer que a música, enquanto energia, age no tecido do universo”, disse-me Leite, em entrevista em 2011, para a Agência Estado.

 

 

Outra verdadeira obra-prima vem dos mares do percussionista e compositor Jorge Marciano, que em 2001 lançou – em parceria com o mestre Dinho – “Navio Negreiro”. Com arranjos de Alailton Assunpção, Celso Marques e Moises Alves, o trabalho continua vivo e atual, com uma série de shows sendo realizada entre o ano passado e 2017, com músicas também do repertório de “Avó”, CD lançado em 2003 por Marciano, com outros sons incríveis. Ambos os trabalhos foram indicados ao Grammy. Em “Navio Negreiro” é interessante notar a suavidade das melodias. Como pode os porões da dor daqueles malditos navios negreiros serem retratados com tamanha poesia? “Tem muito a ver com o candomblé”, explica Marciano. “A batida tem um frenesi mais forte, mas o canto vem por cima de tudo isso, com uma melodia mais tranquila.”

O percussionista Jorge Marciano faz homenagem a todos os negros e líderes que lutam pela paz em "Navio Negreiro"

O percussionista Jorge Marciano faz homenagem a todos os negros e líderes que lutam pela paz em “Navio Negreiro”

De acordo com o compositor e percussionista, a força do “Navio Negreiro” reside na conversa dentro de uma senzala, de um quilombo, de uma família africana que vive no deserto. “É uma conversa muito interna, isso é o que dá densidade ao trabalho.” Assim como o jazz da Rumpilezz, o jazz de Marciano é universal, garantido por músicos com influências que viajam do Oriente ao Ocidente como Mario Aphonso III, Celso Marques, Moises Alves, Marcelo Rocha, Dinho Gonçalves e Ivy Mantuani. Com homenagens a todos os negros, da África, Caribe e Brasil, o disco também presta louvor a todos que lutaram pela paz, como Nelson Mandela, Madre Tereza e Mahatma Gandhi.

“Mariama, Mãe querida, problema de negro acaba se ligando com todos os grandes problemas humanos. Com todos os absurdos contra a humanidade, com todas as injustiças e opressões”, já rezava Dom Helder Camara, na famosa “Missa dos Quilombos”, de Milton Nascimento e companhia, de 1981. “Nada de escravo de hoje ser senhor de escravo de amanhã. Basta de escravos! Um mundo sem senhor e sem escravos. Um mundo de irmãos.” Artistas como Letieres e Marciano, e todos os músicos que os acompanham, têm no coração esse mantra que não cansa em repetir o amor, num mundo dolorido com o sofrimento da guerra, do drama dos imigrantes e da injustiça social.

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