Eristhal Luz

Purgatório aromático

O guitarrista, cantor e compositor Eristhal Luz se prepara para lançar seu primeiro trabalho autoral

Roger Marzochi, do entresons

Era como se do teto descessem estalactites, por onde escorria um ácido, que queimava o corpo dos viventes. Foi essa sensação que tive, em 2010, ao ouvir a música “Purgatório” ao vivo, dentro de uma das salas de ensaio do Estúdio Z7, do guitarrista, humorista e filósofo bissexto Tadeu Martinez. A Boom Project Band, que à época era formada por Chico Leibholz (bateria), Miro Dantas (baixo e sintetizadores) e Eristhal Luz (guitarra), acabara de ser criada. A banda ensaiava com frequência nesse estúdio da Vila Madalena naquela época, fazendo um rock instrumental psicodélico, uma mistura de surf music com funk. Seguiram-se muitos shows, o lançamento do CD da banda em 2011, e também, algumas despedidas, que geraram ainda mais arte.

O também artista plástico Miro Dantas resolveu se dedicar exclusivamente à pintura e ao estúdio de tatuagens, realizando um trabalho incrível. É dele, por exemplo, o projeto “Uma tatuagem por uma vida melhor”, no qual ajudou a recuperar a autoestima de mulheres que sofreram com o câncer de mama. Chico Leibholz está prestes a lançar um novo projeto, que se chamará Fluhe. “É instrumental trip noise”, define o baterista. E o guitarrista Eristhal Luz colocará na praça, nos próximos dias, “Aromáticas”, o seu primeiro trabalho autoral, que ficará disponível em plataformas de streaming de música. Sim, o discípulo do mexicano Carlos Santana é mais um adepto do lançamento de trabalhos apenas no mundo virtual, assim como a pianista, cantora e compositora Delia Fischer. Do “Purgatório” até a realização de seu primeiro trabalho autoral, o rock e o uso de sintetizadores continuam como marca registrada, mas desta vez, Luz ascende com a sua voz, em músicas que prometem irreverência, bom humor e provocação.

A primeira canção foi lançada há uns 15 dias: “Aromáticas” estreou com clipe no YouTube, já estremecendo com as regras de conduta do Facebook. Luz foi promover o clipe na plataforma de Mark Zuckerberg usando um giff provocativo, que fez com que a rede social o impedisse de dissipar as suas boas novas em decorrência da “quantidade excessiva de pele ou conteúdo sugestivo”. As cenas do clipe, com direção de Itaoã Lara e fotografia de Michel Will, foram gravadas em festa no bar Caos, que hoje foi assumido pelo Bar do Netão, na Rua Augusta, em São Paulo. Tatá Aeroplano e Luiza Lian, entre muitos outros artistas e boêmios,  participaram do clipe de muita ironia, amor e pegação, com beijos explícitos.

A música, cuja autoria Luz soma com Felipe Abdala, surgiu de uma cena hipotética: terminar a noite na casa de uma moça descolada na Vila Madalena, que adora velas aromáticas, num apartamento supermorderno, mas ao mesmo tempo, exotérico. Não está na letra, mas a cena hipotética (garante Luz, que é pai de família), termina com a visita da mãe da moça no apartamento, logo pela manhã. “A gente foi pirando nessa história hipotética e saiu essa música em alto astral”, explica Luz.

O lançamento do seu primeiro trabalho autoral tem grande significado. Nascido em Piraju, no interior do Estado de São Paulo, perto de Avaré, Luz chegou a capital em 2002, com o violão embaixo do braço. Entre a solidão e o cinza urbano da cidade, compôs uma série de canções que agora estarão no primeiro trabalho autoral, que contará com dez músicas. Com seis anos de idade, encontrou um violão embaixo da cama do pai e começou a brincar com o instrumento, despertando alegria no velho, que o levou a aprender música no dia seguinte. E os mestres ele nunca esquece. Fala com orgulho e alegria de ter estudado com Odeack Borges e Carlinhos Cassanho.

Uma vez em São Paulo, Luz caminhava a esmo pelas ruas, tentando buscar lugares para tocar. “Eu pegava e descia a Consolação até o fim, de bar em bar, pedindo para tocar. E ninguém trabalhava com música ao vivo mais”, lembra. Até que um dia, ele cutucou um rapaz na rua, pedindo ajuda para encontrar espaço para fazer um som. Essa boa alma o ajudou a encontrar o Bar do Netão, na Rua Augusta, criando o grupo “Os Augustos”. O bar do Netão representou para o músico muito do que havia experimentado no Clara Lua Bar, em Piraju, onde Luz aprendeu com os artistas Mael Marnho e Paulo Viggu a compor. O espaço cultural Puxadinho da Praça, na Vila Madalena, impulsionou Eristhal Luz ainda mais. Foi lá que ele conheceu o músico e compositor Rafael Castro e Guilherme D’Almeida, baixista do Terno e integrante da Grand Bazaar.

“Quando acabava a balada no Puxadinho, a gente ficava tocando um som no violão. E disseram que eu precisava gravar um disco, porque minhas músicas eram excelentes. Me colocaram num carro e fomos para Lençóis Paulista, cidade do Rafael. E começamos a produzir o disco junto com o Guilherme.” Quatro anos se passaram e finalmente o mundo, esse imenso purgatório, será agora um pouco mais aromático.

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