João Taubkin Foto Crédito de Antonio Brasiliano

Um xamã fusion

João Taubkin prepara o lançamento de vídeos nas redes sociais em setembro e estuda projeto de música e dança

Roger Marzochi, do entresons; crédito da foto de Antonio Brasiliano

“Olha embaixo da sua cama!” João Taubkin, então com 14 anos, correu para o quarto, esperando encontrar um pedal de guitarra overdrive, que havia pedido de presente para o pai, o pianista Benjamim Taubkin, que viajara para um show nos Estados Unidos. Mas, para sua decepção, o que lá estava era um baixolão, um contrabaixo acústico, parecido com um violão. “Não foi amor à primeira vista”, diz o músico. Presentes inesperados como esse mudaram a vida do garoto para sempre. Hoje, compositor e baixista consagrado, João aprendeu a surpreender seu público, que poderá ver em setembro vídeos inéditos do artista nas redes sociais. O CD, enquanto objetivo máximo de um músico, já é coisa do passado na era digital. A produção de seus próprios projetos e a realização de shows, com muitos parceiros, transformou a vida do baixista em uma aventura frenética, com projetos sobre a confluência entre a música e a dança e a retomada de um som hipnótico que fizera em trio, e que agora terá nova formação em quarteto.

O centro gravitacional do músico é a consciência da existência de uma energia que interliga a todos. Ele acredita numa inteligência superior, mas seu Deus não tem a barba pintada por Michelangelo. “Minha religião, de certa forma, é a música. Mas não gosto daquele papinho – sabe o que quero dizer- em excesso. Não aguento. Eu acredito no mistério. Tem muita coisa que não vemos e está rolando.” Segundo ele, a música é como uma espada de luz em tempos sombrios. Não é à toa que o CD “Tribo”, lançado em 2013, tenha criado uma nova linguagem. João, Bruno Tessele (bateria) e Zeca Loureiro (guitarra) mergulharam na fusão de rock, jazz e música africana em nove composições do contrabaixista, que diz ter trilhado o caminho da música após ter ouvido dois discos: “Houses of the Holy” (1973), de Led Zeppelin, e “Milton” (1970), de Milton Nascimento. João faz vocalizes que mais se assemelham a um vocabulário estrangeiro. E chega a cantar em tupi-guarani em “Belo Monte”, numa letra na qual o índio diz ao homem branco para respeitar a sua terra. Tudo isso traz ao trabalho o tom que ele considera “xamânico”. “Toco, canto, com uma intenção profunda. Como um monge, um xamã”, diz.

De acordo com Gilbert Rouget, no livro “Music And Trance: A theory of the Relations between Music and Possession” (1985), a palavra xamã foi emprestada do povo Tungus, da Sibéria, em escritos etnográficos durante o século XVII. A expressão se referente a práticas religiosas variadas, com características comuns que englobam não apenas regiões do Sudeste da Ásia e Melanésia, mas toda a América. “O transe do xamã é considerado como uma viagem na companhia dos espíritos que ele incorpora. A alma do xamã deixa o seu corpo e viaja para regiões invisíveis com o objetivo de encontrar os mortos ou espíritos, e sua viagem faz tanto uma ‘ascensão aos céus’ ou ‘descendente ao inferno’,” escreve Rouget. O xamã é aquele que toca e canta, por isso essa viagem está relacionada aos toques de tambor e cânticos. Em toda a cultura relacionada ao xamã a palavra “viagem” é extremamente usada. Não seria João um xamã urbano? De novos ritos, o rito da música contemporânea? “Eu levo a sério (a música). Quero ser músico que passe coisas para as pessoas realmente, tem esse desejo. Não é só tocar. Quando estou tocando, vai ver que sou muito fechado. Estou muito naquele lugar, não me disperso. Sinto-me muito concentrado, como um padre meditando. É a mesma coisa. Eu entro naquela nave.”

“Tribo” também traz curiosidades sobre a forma de composição de João, que diz não precisar de inspiração. “2012”, a música que abre “Tribo”, foi composta praticamente de forma simultânea com a última, “Camelot”. “Eu estava na sala fazendo uma, e fui para o quarto fazer a outra. Uma não tem nada a ver com a outra. É uma viagem!” Mais uma pista sobre o “xamã fusion”: a viagem! É com essa atmosfera que o compositor voltará a trabalhar, agora na companhia dos músicos Sérgio Reze (bateria), Rodrigo Bragança (guitarra) e Zé Godoy (piano). Em setembro, vídeos dessa parceria devem ser lançados. Mas, no início do mês, João lançará uma gravação solo de “Pai Grande”, de Milton Nascimento, e uma outra música autoral cujo nome ele prefere não revelar. “Pai Grande” é para o compositor um divisor de águas: é a primeira vez que ele grava uma música cantando, sem vocalizes. E o resultado foi sentido muito forte pelo músico e sua família. “Pai Grande” ainda estava no disco “Milton”, que João ouviu numa viagem em uma fazenda em Minas Gerais, aos 12 ou 13 anos, que o incentivou a ser músico.

Milton Nascimento Crédito Foto de VanessaCarvalho

João Taubkin lançará em setembro um vídeo cantando “Pai Grande”, de Milton Nascimento, uma grande inspiração para o contrabaixista e compositor (Crédito da foto: Vanessa Carvalho)

Esses dois vídeos foram gravados na Red Bull Station, no centro de São Paulo, e contou com o engenheiro de som Rodrigo Funai, sobrinho de Elis Regina. “É muito forte cantar ‘Pai Grande’. Milton compôs todas as músicas para a Elis. E, de repente, o sobrinho dela está do lado, mixando”, conta o músico, que já tocou com Bituca e com grandes mestres, de Gigante Brazil a Paulo Moura. O ano de 2017, aliás, já havia começado em ritmo frenético. O músico participou, com Theo de Barros e Renato Braz, do trabalho “Tatanaguê” e lançou, ao lado do pai e do percussionista israelense Itamar Doari, o CD “O pequeno milagre de cada dia”. Sem contar, ainda, o duo que formou com a cantora moçambicana Lenna Bahule e sua participação no grupo Clareira, que tem entre seus membros o cantor Sapopemba. “Meu pai fala que ele é a Clementina de Jesus com calça. Ele é uma verdadeira entidade.”

Irriquieto, coisa que aprendeu também com o pai, João tem se reunido constantemente com o bailarino Rubens Oliveira, com a intenção de unir seu som à dança. Para ele, o lançamento de um disco para depois iniciar shows do álbum é uma forma de trabalhar, mas as novas tecnologias e o mercado da música fazem com que o artista tenha que reiventar o seu modo de atuação. “Acho que é preciso produzir. Eu fui sacando e observando o meu pai. É muito gostoso trocar conhecimento e unir forças. Eu fiz essas coisas só na base da humildade e da verdade. Eu sempre questionei muito o crowdfunding. Falta a galera se mexer um pouco. É preciso encontrar as pessoas, apresentar qual é a real. Eu vou fazendo, vou tocando.”

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