Maurício Mohamed - Crédito Foto José Cardoso

Vida áspera, som aveludado

“Velvet Sounds”, o primeiro CD de Mauricio Mohamed, retira o ouvinte dos espinhos dessa vida áspera

Roger Marzochi, do entresons; Crédito da Foto: José Cardoso

A música quase perdeu Mauricio Mohamed para o futebol. Aos 15 anos, o músico deixou de lado a flauta transversal que começara a estudar aos dez para partidas da principal paixão nacional. Azar da seleção brasileira, sorte da música instrumental. “Com 15 de idade eu só queria saber de mulher e bola. Voltei a estudar com 18 anos.” Em 2015, o flautista e saxofonista lançou “Velvet Sounds”, seu primeiro CD.

O trabalho apresenta arranjos instrumentais para lados B de compositores como Tom Jobim, Milton Nascimento, Mozar Terra, João Donato e composições eternizadas por Ella Fitzgerald e Chet Baker. Desde então, Maurício tem realizado apresentações dessas músicas nos bares de jazz de São Paulo. E, na mente, o gostinho de quero mais: o músico planeja um segundo CD, incluindo agora um dos mais antigos dos instrumentos musicais: a voz. “Depois que grava o primeiro, dá vontade de fazer o outro.”

Maurício Mohamed - Crédito Foto Roberto Alves

“O improviso é a recriação do tema, sem coisa pré-definia, dando seu toque pessoal. E tem a ver com tudo. Com o seu espírito e a lua do dia”, diz Mauricio. Crédito da Foto: Roberto Alves

A ideia do projeto foi buscar músicas pouco conhecidas e deixá-las ainda mais aveludadas, percepção clara ao ouvir o timbre de Mohamed, seja na flauta ou no saxofone. É muito bonita a sua interpretação de “Ânima”, de Milton Nascimento e José Renato. “Café com Pão”, de João Donato e L.Enio, ganha uma bela improvisação de contrabaixo de Evaldo Guedes. E temas inspiradores como “Promessas de um verão”, de Mozar Terra, e “Mojave”, de Tom Jobim, estão bem representadas. A improvisação é minimalista, com notas em cadência também macia, como o amor à primeira vista.

Desde pequeno, Mauricio ouvia muita Bossa Nova em casa, além de Milton Nascimento, que o irmão mais velho do músico gostava muito. Hoje, o músico é um colecionador de CDs e vinis, com ampla variedade de artistas de jazz e Bossa Nova. Sua experiência com instrumentos cresceu. Depois que começou a estudar flauta, aventurou-se a tocar sax soprano; depois flauta em G, para então conhecer o timbre de um sax tenor.

O gosto pela música o levou até mesmo a trabalhar em uma loja de instrumentos musicais. Mas, aos 23 anos, começou a se dedicar totalmente à profissão de músico. A vida é sofrida. “A noite está muito ruim”, diz o músico, que reclama falta de espaço em casas noturnas da cidade. Atualmente, ele tem se apresentado no All of Jazz, em São Paulo. Por 14 anos, ele tocou no bar Piratininga. Mas, com a mudança da direção da casa, perdeu o espaço. No dia da entrevista, na terça 29/08, o músico estava para se apresentar num evento na Câmara de Comércio Árabe-Brasileira

Captação de recursos é outra grande dificuldade. Para gravar o novo trabalho, ele está buscando ajuda de pessoas físicas e jurídicas, sem recorrer a programas governamentais, como Proac e Lei Rouanet, assim como fez no primeiro trabalho. O primeiro disco, por exemplo, teve apoio cultural da Tecnum Construtora. “Viver de música não dá para pagar nem os direitos autorias e os músicos. Não é o suficiente.” O importante é que, apesar da vida áspera, o som de Maurício retira o ouvinte dos espinhos do caminho.

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