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Núcleo Contemporâneo lança CD-DVD de residência artística em fazenda de Bragança Paulista

Roger Marzochi, do entresons; Crédito da Foto de Walter Costa

“Quando eu vou assistir um concerto, um show, eu espero sair melhor do que entrei. Aquilo tem que transformar minha vida de alguma forma.” A frase do baterista e compositor Magno Bissoli, em entrevista a este blog em 2014, revela a transformação que a arte pode operar no público. E, entre os músicos, ocorrem transformações parecidas, ainda mais quando são realizadas as chamadas “residências artísticas”, que reúnem artistas de outras regiões e países. Em 2015, o festival Arte Serrinha, que é realizado em uma antiga fazenda que produzia café em Bragança Paulista, no interior de São Paulo, promoveu pela primeira vez em sua história um encontro de músicos brasileiros e estrangeiros.

Como resultado desse encontro, nasceram muitas músicas inéditas, eternizadas no CD-DVD “Música na Serrinha – 10 dias de criação”, lançado no início de setembro pela gravadora Núcleo Contemporâneo. “Depois de me distanciar e olhando de outro ângulo, ficou mais emocionante ainda essa experiência, com seu conceito e a liberdade”, diz Jaques Morelembaum, em entrevista 19 de setembro. “Acordar na Serrinha já é uma experiência. Abrir a janela do quarto e ouvir a natureza: pássaros, insetos. Sem a interferência de motores de carros e helicópteros. Isso torna a música muito humana e descomprometida como nosso dia a dia urbano, por aí já se caminha em uma direção diferente.”

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Músicos se reúnem no galpão de fazenda em Bragança Paulista, no interior de São Paulo, em residência artística em 2015, que uniu Brasil, Colômbia, Azerbaijão, Coréia do Sul e Cabo Verde.

Fábio Delduque, cujo bisavó era dono da fazenda de 120 hectares, convidou Morelembaum, Benjamim Taubkin e Marcos Suzano a serem os curadores da proposta do projeto, num local que tem semelhanças com Inhotim, em Brumadinho (MG). Há 25 anos, a família do produtor cultural iniciou o reflorestamento da área e há 16 anos é realizado o festival, que já reuniu artistas de áreas como cinema, teatro e artes plásticas. Há, ao longo da fazenda, obras de arte e experimentações artísticas de várias formas. Foi na fazenda, por exemplo, que foi rodado “Ralé”, filme protagonizado por Ney Matogrosso, com direção de Helena Ignez. “O Marco Suzano havia frequentado o festival e, em conversas com ele, criamos essa residência de música”, explica Delduque.

Cada um dos três músicos-curadores chamou outros artistas. Suzano convidou o percussionista e cantor Jovi Joviniano, o saxofonista e flautista Carlos Malta e Sacha Amback (Teclados e Eletrônicos); Morelembaum veio na companhia da cantora cabo-verdiana Mayra Andrade; enquanto Taubkin chamou a instrumentista sul-coreana Kyngso Park (que toca o instrumento ancestral gayageum, espécie de cítara), o colombiano Antonio Arnedo (sax soprano e flautas) e o músico azerbaijano Sahib Pashazade (que toca o Tar, um instrumento de cordas com um som incrível). Victor Rolfsen fez uma participação especial na guitarra. E, com Meno del Picchia no contrabaixo, formou-se uma banda da pesada! Um galpão, daqueles que se guarda feno, foi transformado em estúdio. “Criamos cenografia toda acústica sob orientação de André Magalhães, que nos orientou. E fizemos cenografia para ser um estúdio de gravação. E ficou muito bom porque todos os maestros elogiaram o espaço, que era disponível 24h para tocar e compor”, diz Delduque.

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A cantora Mayra Andrade, de Cabo Verde, apresenta no galpão da fazenda “Isolada”, uma “morna” maravilhosa. Crédito da Foto: Denise Andrade

O CD “Música na Serrinha” traz oito composições inéditas, compostas ao longo dos dez dias de residência artística. É de Morelembaum a maravilhosa “Chuva na Serrinha”, melodia que surgiu na mente do violoncelista logo no primeiro dia. No DVD “Música Pelos Poros”, documentário dirigido por Marcelo Machado, Morelembaum revela o quão sensível é a mente de um artista: a chuva que caía à noite o fez pensar em uma melodia, que ele gravou no celular. No celeiro-estúdio, no contrabaixo, o músico começa a dedilhar a melodia para os outros músicos, e aos poucos a canção ganha forma. O DVD, um produto obrigatório a todo estudante de música, revela assim detalhes do processo de produção musical, bem como ricas palestras de mestres como o pianista Benjamim Taubkin, que assina a autoria de músicas como “Galpão” e “Tema para Sahib”, a última do disco. O músico do Azerbaijão, aliás, abre e fecha o trabalho: a primeira música do CD começa em clima de Leste Europeu com a composição “Chahagar”, de Sahib. E, para viver de amor, o filme abre de cara com Mayra Andrade cantando a morna “Isolada”, música do cabo-verdiano B.Leza imortalizada por Cesária Évora. Muito se fala de Billie Holliday, Ella Fitzgerald, de Elis Regina. São ótimas. Claro! Mas o que é essa jovem cantora, que diz que a música nasce das tripas, sussurrando dolorido “Isolada”?

Carlos Malta compôs com Mayra “o Lobisomem”, que nasceu de uma sensação sombria enquanto ele caminhava por uma passagem da fazenda. Sempre com o pífano na mão, o músico também compôs “Mula Sem Cabeça” dentro da Kombi que o transportava da fazenda para a pousada na qual estava hospedado. A inspiração veio de uma das obras espalhadas pela fazenda. “O festival em si é uma coisa de resistência artística, fora de tendência. Não tem esse negócio de chamar o sertanejo ou o gostosão do momento. É a arte pela arte. E é muito bom cara, estou com saudade”, afirma Malta. No ano passado, o músico realizou shows ao lado do companheiro de sopros Antonio Arnedo, uma alma gêmea que Malta conheceu nessa residência artística na Serrinha. “O Outro”, de Jovi Joviniano, é também uma música poderosa.

Para quem assiste e ouve esse trabalho, é de se dar:

 

Camba(i)lhota

 

A chuva do céu cai,

em nós sobre o telhado.

Camba(i)lhota

O véu da vida,

Num abraço

de violoncelo,

Minha amada,

Isolada.

O sax vai em gotas,

Piano e a bateria

Enriacham botas

É um Tar de água

Que do peito Sahib

Que entre Seul e Bogotá,

O mar sempre será

Jovem, Joviniano

 

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