Rodrigo Bragança Crédito de Tárita de Souza

Perspectivas da solidão

Em livro, performance e CD o guitarrista e poeta Rodrigo Bragança mergulha nas dores e na cura do um dos males do século

Roger Marzochi, do entresons; Crédito das Fotos de Tarita de Souza

Você já se deparou com uma obra de arte da qual não gostou? É uma pergunta salutar num momento em que surgem movimentos querendo a censura de exposições de arte no Brasil. Pois eu me vejo em situações parecidas, sem, no entanto, querer calar qualquer expressão artística. No mês passado, recebi pelo Correio “Solo para um homem só”, CD do guitarrista, compositor e poeta Rodrigo Bragança. Senti um grande incômodo, minha primeira reação foi a de não gostar do trabalho, no qual o artista expressa uma das doenças que mais assolam a humanidade: a solidão, que é, muitas vezes, a porta de entrada da depressão. Explorando timbres de sua guitarra e usando sintetizadores, Bragança declama alguns de seus poemas, contidos no livro que leva o mesmo título do CD, e que deu origem ao seu som sombrio. O trabalho também está disponível no Deezer, aplicativo de streaming de música.

Grande parte de meu incômodo sonoro vem da minha surdes lateral, e espero, momentânea. Mas também pode ser respondido com boas leituras e reflexão. “Dizemos que uma obra é bela quando provê as virtudes que nos faltam e dizemos que é feia quando nos impõe temas ou estados de espírito que nos ameaçam ou já nos dominam. A arte promete a completude interior”, escrevem Alain de Botton e John Armstrong no livro “Arte como Terapia” (Editora Intrínseca). Pois ler os poemas no livro e ouvir o CD me fizeram refletir sobre qual o grau de solidão que experimento, em um período que meu corpo ensaia o fim de uma longa depressão.

“É uma esperança que essa reflexão possa chegar nas pessoas, encontrar uma ressonância”, explica o artista, em entrevista na semana passada. “O teor de arte, independentemente de ser bonita ou feia, quanto maior verdade houver, mais arte há. O ponto de partida é uma expressão de um estado emocional e físico, que também – por ser pessoal e sincero-, pode ser universal. Morremos sozinhos. Estamos sozinhos ao longo da vida toda e terminamos sozinhos.”

O projeto nasceu de uma oficina de escrita promovida pelo escritor Marcelino Freire. Ao fim do curso, os alunos foram estimulados a criarem seus próprios projetos. Bragança olhou para dentro, havia acabado de se separar, e percebeu que o tema da solidão lhe era extremamente presente. Filho único, o músico desde cedo aprendeu a brincar sozinho, o que por um lado estimulou a sua criatividade e criou uma forma de olhar o mundo. Com os poemas, lançou o livro pela Editora Patuá, e buscou dar carne às palavras. Em contato com a dançarina Priscila Torres, Bragança pode transmutar suas experiências com a guitarra em gestos e expressões extremamente profundas nessa performance, que pode ser vista no site do músico, www.rodrigobraganca.com.

A partir da solidão que sentia, o músico buscou olhar outros tipos de expressão dessa dor na sociedade, inspirando sua escrita e a sua música. “De fato, dizer que não é bonito não é ofensa. Eu me joguei numa experiência sem saber onde iria dar, em busca de uma expressão. E, em muitos momentos, a coisa é escura, sombria e pesada. Mas, de fato, eu me sinto bem nesse sentido, de que eu fui verdadeiro na expressão. Foram de fato momentos tenebrosos.” Das dez músicas do CD, o clima segue sombrio até a música oito, “Religare (cura)”.

Rodrigo Bragança Sol Crédito Tarita de Souza

“um aviso do espaço / estrelas, pedaços / da mesma explosão / em feliz colisão / o vício do abraço / o avesso do escuro / a cura do verso / o inverso da solidão / a desatar os nós / diluir o revés / em trinta de nós / em dois ou em dez / para acender a voz/ e encantar faróis /nossa fé, nossos sóis / nossos cacos de luz” – música-poema “Religare”.

Antes, o mergulho é profundo. Em “Solo para um homem só”, sua poesia defende que se deve “aprender o significado espiritual da palavra foda-se e praticar a sua pronúncia periodicamente assim como a meditação”. É preciso ler e ouvir a música (ou o poema) toda para se ter a dimensão dessa frase. Bragança explica que o “foda-se” é uma revolta com o “bonitinho”. “Eu sou libriano, coloco o outro em primeiro lugar. O ‘foda-se’ é importante para nossa sobrevivência e integridade de nosso emocional. O ‘foda-se’ sou eu me colocando em primeiro lugar e foda-se para as coisas dos outros, que não são mais importantes que o meu bem-estar e minha integridade. É um mantra importante prá mim, porque se deixar, sou atropelado pelo interesse das pessoas e do mundo.”

Apesar de ser considerada uma doença, a solidão pode nos ensinar a sermos uma boa companhia para nós mesmos. E que uma visita a um amigo vale muito mais que mil likes em suas postagens nas redes sociais. A superação do estado depressivo da solidão experimentada no trabalho “Solo para um homem só” começa a nascer em “Religare (cura)”, a oitava composição. “Quando / só / fico / bem / só / inteiro / fico / são”, termina o CD, em “Solitude”. “A solidão é uma condição bem primitiva, básica. Só que, por questões culturais, a gente não aprende a lidar com esse sentimento. A gente não aprende a enxergar a solidão, tem uma visão distorcida do que essa sensação pode significar. Ela nos assombra e aterroriza em muitos momentos e não enxergamos que a solidão pode ser uma ‘solitude’, o lado solar da solidão”, diz Bragança, quando somos capazes de nos sentir bem acompanhados de nós mesmos.

 

Deixe um comentário

Social



Licença de uso

Licença Creative Commons
Os textos do Entresons são publicados com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.
Você pode reproduzir, retransmitir e distribuir o conteúdo, desde que com crédito (ao site e ao autor do texto), para uso não-comercial e com uma licença similar.

Próximos shows

Assinar: RSS iCal