Ivan Cavalheiro Crédito Marina Telles

O som de mil guerreiros

Ivan Cavalheiro, percussionista do Tambores Flow e Fianna Irish, revela sua paixão pelo bodhran, tambor irlandês que foi incorporado à música celta

Roger Marzochi, do entresons; Crédito da foto de Marina Telles

Apenas uma fraca luz delineava o contorno do espaço e das pessoas, já deitadas em seus mats de yoga. Vagava na penumbra leves nuvens brancas, carregando o aroma de incenso e pau santo. Os músculos da face, tônus da voz e a respiração já haviam sido exercitados. O meditashow do Tambores Flow começou, naquele 2 de junho de 2017, com a batida do coração dos tambores xamânicos. Em meio ao ritmo primitivo, o som de outro tambor começava a ser audível, costurando os baques dos tambores xamânicos, preenchendo espaços e levando toda a percussão para uma batalha.

Ivan Cavalheiro, percussionista e flautista, foi quem colocou em marcha os exércitos, comandando em suas mãos o instrumento irlandês bodhran. Esse instrumento é um tambor, provavelmente com ascendência árabe ou africana, que chegou a ser usado no século XVII na Irlanda para anunciar a chegada dos soldados ao campo de batalha. Com o tempo, o instrumento começou a ser usado na música celta, na luta do país em reforçar um ideal estético de suas raízes, livre da influência da Inglaterra e da Igreja Católica.

A ideia de batalha se reforçou em mim antes de conhecer essa história, pois naquele momento, ouvindo tambores em êxtase, imaginei um barco recebendo flechas. Seriam romanos atacados por celtas? Ou portugueses sendo expulsos por índios? Essa mistura de xamanismo e cultura celta permite muitas viagens. Saltei para dentro daquele som cujo imperativo era avançar, seguindo em notas graves a reviravolta daquele ritmo. Aquele som sugeria dramáticos acontecimentos, que desaguavam em gritos. Nos encontramos novamente, em 10 de novembro, horas antes de conversarmos pelo telefone sobre a sua história de descoberta de um instrumento tão fascinante. Ivan estará com a meditadora Monica Jurado, na Casa Jaya, na apresentação marcada para o dia 1º de dezembro, às 20h30, o último meditashow do Tambores Flow em 2017.

Ivan trabalha na Livraria Cultura, da Av. Paulista, e é um voraz leitor. Seres mágicos da floresta e histórias medievais contidas em obras como “Senhor dos Anéis” e “Crônicas de Nárnia” sempre fizeram sua imaginação ultrapassar fronteiras. “As lendas da Inglaterra e da Irlanda sempre me chamaram muita a minha atenção”, diz. Aos 27 anos, em 1999, Ivan conseguiu ser aprovado no então aclamado curso de música da Universidade Livre de Música (ULM), hoje rebatizada como EMESP Tom Jobim. O seu instrumento era a flauta transversal, cujo som ele admira, mas revela que sempre sofreu para tocar em público. Uma professora, no entanto, colaborou no processo percussivo de Ivan: ela sentenciou que ele nunca seria um “bom” flautista, porque começara a estudar muito “velho”. O que é ser “bom”, o que é ser “velho”?

Ivan ficou traumatizado, mas no ano seguinte, conheceu uma banda de música medieval que o chamou para um teste. Ele não se sentiu bem tocando flauta com esse grupo, mas um rapaz lhe mostrou o bodhran. “Não existia YouTube na época. Eu me virei para aprender a tocar o instrumento. Conheci o Reginaldo Aquino, que já tocava bodhran, e fui me virando”, diz o músico, cujo primeiro instrumento lhe foi dado por um luthier. Ivan foi conhecendo som de bandas como The Chieftains, Dubliners e se tornou fã do músico John Joe Kelly, um expoente mundial do instrumento. A banda irlandesa The Corrs também usou o instrumento, especialmente no disco The Corrs Unplugged, gravado em 1999.

Ivan Cavalheiro Banda Fianna

“Agora somos um bando, somos um exército!”

Hoje, o músico possui três instrumentos, com dimensões variadas, sendo que um foi importado diretamente da Irlanda. O músico criou uma banda que durou de 2003 a 2006, mergulhando na cultura celta de vários países europeus. Com o fim da banda, participou de outra, a Leannam Shee, nome de uma fada vampira, que inspira os artistas, mas lhes suga a energia. Com o amigo Claudio Crow, Ivan se apresentava em pubs de São Paulo. Como a experiência deu certo, a dupla chamou a atenção de mais músicos. O grupo foi crescendo até se transformar no Fianna Irish. Fianna era um grupo de soldados que lutavam ao lado de Finn McCooll, um guerreiro lendário irlandês. “Tinha que ser guerreiro – mas também versado em poesia e música – para ser um Fianna. Os soldados passavam por testes físicos e espirituais”, diz Ivan.

O grupo tem se apresentado em bares não apenas para um público brasileiro, mas imigrantes irlandeses em São Paulo. “Tem uma cantora, a Ammy McAllyster, que é irlandesa. E toda vez que ela vem prá cá, ela quer tocar com a gente. Elogia a gente de fazer um trabalho de música irlandesa. A embaixada da Irlanda vire e mexe quer fazer a gente tocar”, comemora o músico. O grupo não tem CD gravado, mas é possível ouvir trechos das músicas irlandesas que os músicos executam no Instagram, no perfil Fianna_Irish. Há dois meses, a banda reuniu um total de oito integrantes. “Agora somos um bando, somos um exército! Se não tem ensaio, a gente pega uma cerveja e vê um filme. É muito amigo, é muito joia, dá um prazer monstro.”

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