Bando do Seu Pereira Didier Lavialle

Bando de Seu Pereira lança single de seu primeiro EP, com forró engajado no meio ambiente

Roger Marzochi, do entresons; Crédito da Foto de Didier Lavialle

Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira já denunciavam em “Asa Branca” o impacto da seca no sertão. Hoje, a sua poesia da tristeza de ver o gado morrendo por falta de água, o chão ardendo qual fogueira de São João, deixa de ser uma constatação do homem frente à força da natureza. Conscientes de que o ser humano tem capacidade de influir no meio ambiente, tanto para o bem quanto para o mal, um grupo de músicos e pesquisadores formou em 2015 o Bando de Seu Pereira, que apresenta nesta segunda-feira (27/11) o seu primeiro single no SoundCloud: “Tarabando”. A partir do poder de comunicação e poesia proporcionados pelo forró, o grupo se inspira em causas ambientais, como crise hídrica, consciência ambiental, imigração e dilemas da especulação imobiliária em suas canções, de tal forma que pode se dizer que foi criado um novo estilo do gênero no País: o Forró pé de Terra, uma homenagem de ativismo ambiental ao querido e tradicional Forró Pé de Serra.

O grupo utiliza guitarra, contrabaixo acústico – muitas vezes soando como rabeca ou violoncelo – percussão tradicional e bumbo de material reciclado de cisterna. Na música lançada hoje, “Tarabando”, a única instrumental do EP, a banda recebe a participação do Zikir Trio, grupo do coletivo Tarab, que mantém em São Paulo um centro de estudo e ensino da música oriental. O EP terá ainda participações especiais dos sanfoneiros Gabriel Levy e Nathanael Sousa. Na semana passada, foi lançada uma campanha de financiamento coletivo durante o Encontro Nacional de Forrozeiros, em João Pessoa (PB), que entre as mais de 15 recompensas, está um fusca 1969 híbrido de hidrogênio e gasolina.

“A Península Ibérica – Portugal e Espanha – foi dominada 700 anos pelos árabes. E só depois dessa dominação é que ocorreram as viagens ultramarinas”, diz Vinicius Pereira, o Seu Pereira, contrabaixista e cantor do bando, ao explicar as interconexões culturais que a banda ressalta em seu primeiro single entre Ocidente e Oriente. Pereira sempre foi um músico engajado. Foi um dos integrantes do Projeto Coisa Fina, big banda do Movimento Elefantes que resgatou a obra do maestro Moacir Santos, que “não és um, mas tantos, como o meu Brasil de todos os Santos”, cantava o xará Vinicius de Moraes, em “Samba da Benção”.

Bando do Seu Pereira Pereira

“Esse forró que eu estou fazendo é permacultura. É a cultura que eu quero que permaneça, que quero que prevaleça”, diz Vinicius Pereira, compositor, contrabaixista e cantor do Bando de Seu Pereira. Na foto, o grupo participa de show no Festival de Agricultura Urbana de São Paulo.

Após anos liderando o Movimento Elefantes e tocando com o projeto Coisa Fina, Pereira deixou o movimento, a banda e mergulhou na permacultura, termo criado em 1980 quando o  australiano Bill Mollinson usou práticas antigas relacionadas à atuação do homem na agricultura para se criar um modelo alternativo ao existente hoje, no qual há desflorestamento e uso de agrotóxico nas lavouras.

A “cultura da permanência” envolve uma série de práticas ambientais que visam otimizar da melhor forma os recursos naturais e o manejo dos rejeitos humanos, como a criação de cisternas para armazenamento da água da chuva em residência na cidade e no campo e composteiras de lixo e tratamento de esgoto. “Quando eu tocava no Coisa Fina eu já praticava a ‘cultura da permanência’”, diz Pereira. “E ele (Moacir Santos) e outros maestros que já estudei, toquei e divulguei… toda essa bagagem, está presente no meu forró. Todas as experiências musicais influenciam o que eu escrevo. A que cultura eu pertenço, qual é a cultura que quero que permaneça?” Pereira ainda foi integrante do grupo de música instrumental Araticum, assinando no CD de estreia da banda uma música belíssima chamada “Gotita”.

O estouro da barragem da Samarco, em Mariana (MG), o maior crime ambiental da história do Brasil, que ainda está completamente impune, contribuiu para a formação do Bando de Seu Pereira. Após o desastre ambiental criminoso, Pereira integrou um grupo de sete pesquisadores e artistas que rumaram em destino àquela região dentro da Zeolina, uma Kombi cujo motor foi adaptado por Seu Pereira para ser alimentado por hidrogênio e gasolina. Um experimento corajoso de enfrentar a matriz energética do petróleo, responsável por alimentar terríveis guerras. E, também, um dos maiores casos de corrupção no Brasil.

Entre 13 e 20 de novembro de 2015, Zeolina levou a trupe para cinco cidades de Minas Gerais e do Espírito Santo, com o objetivo de ensinar as comunidades locais a construírem cisternas como alternativa à poluição que o desastre ocasionou no Rio Doce. Para chamar a atenção do povo, os músicos cantavam e tocavam nos locais de reunião. “Eu comecei com o forró depois que descobri a permacultura. Foi assim que fui chamado para a canção”, diz Pereira, que até então, era instrumentista e compositor. Agora, é também o cantor do seu Bando. “Porque lá no Rio Doce eu vi o povo se juntando em torno da canção. O poder da canção é infinito.”

A partir dessa epifania, Pereira se uniu a Giba Santana e Gugé Medeiros (percuteria) e Carlos Amaral (guitarra). O grupo tem realizado shows, como no Sesc Piracicaba e Sesc Bertioga. E, para o lançamento do EP, estão programadas apresentações em Sescs e casas de shows em São Paulo, interior e litoral do Estado, além de mutirão permacultural no CEU Butantã. E não são apenas músicas autorais, como “Tarabando” e o “Xote dos Recursos”, que o grupo toca. Os músicos também celebram em seus shows clássicos dos mestres Luiz Gonzaga, Gilberto Gil, Gonzaguinha, Dominguinhos, Genival Lacerda e Zé Ramalho.

Com ascendência síria, Seu Pereira sempre se interessou pela música oriental e se juntou ao Coletivo Tarab, liderado pelo multi-instrumentista Mario Aphonso III. No coletivo, Pereira integra com Aphonso o TarabJazz, com Ian Nain no alaúde e Francisco Lobo na percussão, com a fusão do jazz e da música oriental. Como há forte influência da música árabe na música brasileira, Pereira decidiu chamar seus parceiros do Coletivo Tarab para gravar “Tarabando” (Tarab + Bando), música que está sendo apresentada ao público hoje, com Mario Aphonso III no sax soprano, Ian Nain no alaúde, Francisco Lobo tocando rik e derbak e Nathanael Sousa com a sanfona. Até o fim do ano, o grupo divulgará as outras três músicas do EP, batizado de “Biscoto do Bando”, numa brincadeira sobre o formato de transmissão da música, do CD para o digital. E, literalmente, porque uma das primeiras recompensas do grupo aos apoiadores do financiamento coletivo será um biscoito.

Além do alimento do corpo e camisetas, as recompensas alimentam a alma: palestras sobre carros movidos à água, aulas de música, leitura da aura, oficinas de permacultura, expedições por rios da cidade e, até mesmo, a criação de um palco biodigestor na casa do Seu Pereira, no qual o esgoto de toda a residência do músico poderá ser tratado e onde a banda poderá se apresentar. E, além disso, um fusca 1969, cujo motor será transformado em híbrido de hidrogênio com gasolina, uma recompensa salgada no preço, mas ousada na proposta.  “Esse forró que eu estou fazendo é permacultura. É a cultura que eu quero que permaneça, que quero que prevaleça.”

Comentários
Uma resposta para “Forró Pé de Terra”
  1. Rosa disse:

    Ótimo trabalho do Bando de Seu Pereira, música boa junto com a conscientização e cuidados com o meio ambiente. Um artigo excelente sobre música brasileiríssima.

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