JAZZ-roger

O interior da boa música

São Carlos e Bragança Paulista provam que não há só sertanejo e gospel no interior de SP

Roger Marzochi, do entresons*; Arte de Marcos Tavares Costa, o MTC

“Pixinguinha? Nunca ouvi falar!” Foi o que me disse uma moça, de uns 20 anos, em uma papelaria há 15 dias. Fui comprar um envelope para guardar uma carta para meu filho, uma mensagem de amor sobre o nosso ideal de primeira comunhão. O rádio da loja estava sintonizado em uma estação que, naquele momento, tocava “Ebony and Ivory”, de Paul McCartney e Stevie Wonder, lançada em 1982. “Eu ouço essa música no rádio desde a década de 1980. É bonita, mas dá a sensação que estou preso no tempo”, disse-lhe, comentando que há muita música boa, muita gente nova, que o rádio só privilegia o estrangeiro, que na época dos meus avós e da minha sogra tocava Pixinguinha. A moça me olhou com estranhamento. Até cantarolei “Carinhoso”, mas nada de entendimento. “Você é músico?” Meus cabelos compridos cumpriram seu papel de preencher o que me falta de vivência e conhecimento musical. A vida é uma grande professora e sigo com a máxima atribuída a Sócrates, o pai da filosofia ocidental: sei que nada sei.

É por isso que deve se ressaltar iniciativas heroicas de levar a música boa, seja em sua apreensão intelectual ou emocional, aos mais diversos cantos do País. E 2017 termina com dois eventos muito importantes para a cultura brasileira. Começa hoje, em São Carlos, a 14ª edição do Chorando Sem Parar. Até domingo (10/12), o evento celebra a obra de Aníbal Augusto Sardinha (1915 – 1955), mais conhecido como Garoto, “o gênio das cordas”. Apesar de ser conhecido como violonista, ele tocava mais de 14 instrumentos diferentes e influenciou os artistas que deram vida à Bossa Nova. E na quarta-feira (6/12) tem início o Festival Serrinha Instrumental, na zona rural de Bragança Paulista, com extraordinários músicos brasileiros que se apresentam, até domingo, em uma antiga fazenda que produzia café e virou um museu à céu aberto. Esses dois eventos comprovam que o interior de São Paulo não tem apenas festa de peão boiadeiro, sertanejo, gospel e brega music. É preciso, obviamente, respeitar o gosto de cada cidadão, respeitar o direito à fé e à catarse. Mas são gêneros já sustentados por uma rica indústria, com domínio de grande parte dos meios de comunicação tanto da antiga quanto da nova era.

Há sete anos, eu era a moça da papelaria. Não trocara de sexo, mas de sensibilidade. Já tinha ouvido no ar “Gente Humilde”, música de Garoto que recebeu letra de Vinicius de Moares e Chico Buarque. Mas num antiquário na Pompeia, tive a oportunidade de ouvir ao vivo o multi-instrumentista Carlos Malta tocar sozinho no clarone essa música, numa beleza inacreditável. Esta e muitas outras músicas de Garoto serão executadas em São Carlos, no Chorando Sem Parar. O evento também vai homenagear o violonista Paulo Bellinati, músico que tem grande importância para a redescoberta da obra de Garoto. Em 2018, o diretor Rafael Veríssimo deverá lançar “Garoto – O Gênio das Cordas”, documentário que conta com pesquisa do músico e jornalista Lucas Nobile e do biógrafo Jorge Mello. Veríssimo estará presente no festival em São Carlos.

“Trazer Garoto de volta ao primeiro plano da cultura brasileira é a missão principal do documentário e, para tal, o filme busca validar o legado de seu protagonista com depoimentos de dezenas de grandes mestres, do passado e do presente”, informa o texto de divulgação do projeto. Ainda foi lançado “Garoto – Partituras Inéditas”, livro com as notações musicais do violonista, transcritas pelo pianista Henrique Gomide, que integra a banda Caixa Cubo, que também fará parte da programação do Chorando Sem Parar. Mais informações no site do evento.

Bellinati, que participou da primeira edição do festival em 2004, fará o show de abertura do festival em duo com a também violonista Cristina Azuma. Eles tocam no Teatro Municipal de São Carlos, nesta segunda-feira (4/12), às 20 horas. Ao longo da semana, a programação do 14º ChorandoSemParar tem várias outras atrações. Na terça (5/12), às 20 horas, no Teatro Florestan Fernandes, da UFSCar, os músicos Alessandro Penezzi, Toninho Ferragutti e Ricardo Herz fazem show-tributo ao Trio Surdina – conjunto formado por Garoto em 1952 que marcou época com um trabalho que inovou a nossa música instrumental, e antecipou a bossa nova.

Destaques na programação são também as palestras, bate-papos e rodas de conversa. Na quarta (6/12), no Centro Cultural Espaço 7, às 19 horas, o luthier Lineu Bravo fala sobre a arte de fazer violões e sobre a sonoridade do violão tenor, o instrumento mais característico de Garoto. Logo depois, às 20h30, a produtora e pesquisadora especializada em música brasileira Myriam Taubkin conversa sobre a modernidade de Garoto. E no dia seguinte, quinta (7/12), às 20 horas, no Teatro ICMC USP, quem fala sobre o legado de Garoto é o compositor e violonista Guinga.

Na sexta (8/12) e no sábado (9/12) eventos diversos acontecem no Sesc São Carlos e na Praça XV. Entre eles, uma atividade infantil, “Garoto para a Garotada”, com o grupo Choro Enturmado, um show com o quarteto do guitarrista norte-americano Mark Lambert, que vai tocar apenas composições de Garoto, em arranjos com toques jazzísticos. O programa do último dia do evento, domingo (10/12), é, como sempre, o ponto alto do ChorandoSemParar. É quando acontece na Praça XV a incrível maratona musical, que começa às 10 horas da manhã e vaia até 10 horas da noite – doze horas de “música-sem-parar”! Dezesseis atrações se revezarão ininterruptamente no palco, para que a música não pare. Entre elas, três orquestras: a anfitriã Orquestra Experimental da UFSCar, a Big Boom Orchestra, big band que vai apresentar o repertório de Garoto em arranjos para metais, e a Orquestra Popular de Paraty, grupo instrumental criado na cidade que a partir de 2018 passa a receber o ChorandoSemParar.

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Fazenda Serrinha, em Bragança Paulista, é, assim como Inhotim, uma exposição de arte à céu aberto

Serrinha Instrumental – Carlos Malta, aquele de “Gente Humilde” no antiquário em São Paulo em 2010, estará presente na quinta edição do Festival Serrinha Instrumental, que começa na quarta-feira e segue até domingo em Bragança Paulista. Além de Malta o evento terá apresentações de Benjamim Taubkin, Jaques Morelenbaum, Guilherme Kastrup, Duofel, Lulinha Alencar, Mestrinho, Meno del Picchia, Guegué Medeiros e Jovi Joviniano. Informações sobre as apresentações no site do evento.

O evento ainda terá residência artística, selecionando 20 músicos para ter o privilégio de receber um pouco da grande sabedoria desses grandes mestres. “Cada um destes importantes artistas irá discorrer sobre aspectos do seu trabalho. Os bolsistas participantes terão acesso a conhecimentos específicos do campo da música, mas também outros ligados à produção, gravação e conversas sobre caminhos possíveis e desejáveis na profissão”, explica Taubkin.

As apresentações acontecem na Fazenda Serrinha, antiga fazenda de café do bisavó do produtor Fábio Delduque. Na área, de 120 hectares, foi realizado um trabalho de reflorestamento e é palco do evento anual chamado Arte na Serrinha, que já reuniu artistas de áreas como música, cinema, teatro e artes plásticas. Há, ao longo da fazenda, obras de arte e experimentações artísticas de várias formas. Foi na fazenda, por exemplo, que foi rodado “Ralé”, filme protagonizado por Ney Matogrosso, com direção de Helena Ignez. Não é à toa que o local é comparado com Inhotim, a incrível exposição de arte à céu aberto em Brumadinho, em Minas Gerais. Com esses dois eventos, unindo história viva à contemporaneidade, mais pessoas poderão tomar contato com o que há de muito bom no País sem intermediação, em conexão direta com os melhores artistas.

*Contribuíram para esse texto Fernanda Perez, Matias José Ribeiro e Nany Gottardi

 

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