Tadeu

A última piada infame de Tadeu

Dono do Z7 Studio, Tadeu Martinez é lembrado pela família, amigos e músicos

Roger Marzochi e Leo H, do entresons; Crédito da Foto de André Borges

“… e ainda acreditamos em Deus e na qualidade musical. No fim tudo vira pó e mp3.” Às 19h30 de sábado, 2 de dezembro de 2017, Tadeu Martinez replicou essa sua frase profética que lhe apareceu na memória do Facebook, algo que havia escrito e compartilhado há exatos seis anos. Há 25 anos, o então metalúrgico deixou a fábrica na qual trabalhava para ficar mais perto do rock, sua paixão. Guitarrista, curioso com tudo que envolvia a música, Tadeu decidiu criar o Z7 Studio na parte da frente da sua casa, na Vila Madalena, em São Paulo. “Ele ergueu parede por parede. O estúdio era a vida dele”, lembra a filha Uiara Carvalho. Naquela noite de sábado, ele parecia feliz, fazendo piadas com a dura realidade, como era de seu costume. Ele estava animado com as câmeras que comprara recentemente para fazer transmissões ao vivo de ensaios. Às 3h50 da madrugada de domingo, ele acordou com fortes dores de cabeça e no peito. Com a demora da ambulância, a filha recorreu aos vizinhos, que o levaram até o Hospital das Clínicas. Ele chegou a ser atendido, mas morreu de infarto, aos 52 anos de idade.

Tadeu WhatsAPP

“Tadeu cuidava do som, da cabine, dos cabos, das piadas, da bateria e seus pratos, cuidava da geladeira velha, dos manequins de plástico que enfeitavam a saleta de entrada. Cuidava de nós”, diz o músico e jornalista André Borges.

O guitarrista Paulo Reis foi um dos primeiros músicos a saber da triste notícia. Tadeu era tão querido, que Reis saiu de Mauá, na Grande São Paulo, para ensaiar naquele domingo no Z7. Quando estacionou o carro, o relógio marcava 8h30. Encontrou a porta fechada, diferentemente das outras manhãs de domingo, quando já avistava aquela figura esguia e sorridente. Uma vizinha veio avisá-lo do falecimento do músico, produtor e técnico de som. “Vou sentir bastante saudade. Ele era nosso amigo, apesar de a gente ficar sem vir uma época. Minha primeira vez no estúdio do Tadeu foi em 1999. Mas a banda se reunia lá desde 1997”, diz Reis, no velório realizado no domingo à tarde, no Cemitério São Paulo, em Pinheiros. Foi no Z7 que Reis, à época integrante da banda de heavy metal Prophetic Age, gravou o segundo CD da banda, “Forged in the Blackest of Metals”.

Recentemente, a banda criou um perfil no YouTube, mas o grupo foi descontinuado. Hoje, alguns dos remanescentes dessa banda têm se reunido não mais com o sonho de se transformarem em superstar do rock, apesar de terem conquistado destaque no Brasil, mas expressar seus sentimentos e chacoalhar o esqueleto. Passaram pelo estúdio Z7 músicos como Jai Mahal, Edgar Scandurra (Ira!), Branco Mello (Titãs), Mário Lúcio (Placa Luminosa) e bandas como a própria Prophetic Age, Ocultan, a banda de death metal Krisiun, a banda de funk Super Sound Inc, The Boom Project Band e grupos de amigos que viam na música uma forma de descontração e um momento lúdico, beber, tocar e ouvir de Tadeu piadas, pérolas da filosofia underground e muito carinho.

“Seguíamos para a rua Natingui, 737, como que em ritual. Levávamos cervejas, pastas cheias de letras de músicas, instrumentos e a vontade de gravar, compor, brincar e colocar os demônios para fora, sorrir e se perder. Éramos uma banda sem nome”, lembra o músico e jornalista premiado do jornal O Estado de S.Paulo André Borges. “E lá estava Tadeu. Magricela, cabeludo, dono de uma paciência quase budista e um sorriso que o fazia fechar os olhos. O nosso guardião. Tadeu cuidava do som, da cabine, dos cabos, das piadas, da bateria e seus pratos, cuidava da geladeira velha, dos manequins de plástico que enfeitavam a saleta de entrada. Cuidava de nós. E esse cuidar era nos deixar soltos. De início, chegávamos em cima da hora para os ensaios, que acabavam entrando madrugada adentro, até que Tadeu se cansava e piscava a luz da sala. Saíamos. E a conversa avançava por mais uma hora, bebendo e rindo. Com o tempo, passamos a ir mais cedo. Era a nossa casa. Ficávamos ali, entre piadas, bebidas, instrumentos e bobagens que nos enchiam de alegria. O ensaio que esperasse mais um pouco.”

Banda Heavy Metal Inc Tadeu

Da esquerda para direita, Kleber Gregório, Paulo Reis e Juliano Hernandes da banda Heavy Metal Inc. “Essa perda repentina mostra o quanto precisamos dar valor para o presente. Quanto é importante viver as coisas intensamente”, diz Hernandes, guitarrista e vocalista da banda.

O valor do presente – “Vou sentir saudades dos momentos de brincadeira. Não tinha coisa séria com ele. Até as coisas mais sérias se tornavam brincadeira. E o Tadeu não ficava nervoso com nada. Quebrava um botão no estúdio, não tinha briga”, diz Kleber Gregório, contrabaixista que tocou na banda de Reis e que, agora, integram o grupo Heavy Metal Inc. Juliano Hernandes, guitarrista e vocalista dessa banda, frequenta o Z7 há 22 anos. Conheceu o Tadeu quando tinha 16 anos. Apesar de chegar a tocar em outros estúdios, ele fazia questão de sempre voltar no Tadeu. “É um cara que entendia o que a gente queria, conhecia a gente, nosso caráter, nosso gosto musical. E ele levava isso para a música. A gente se sentia em casa. Vamos continuar frequentando o estúdio, mas ele vai fazer muita falta”, afirma Hernandes. “E essa perda repentina mostra o quanto precisamos dar valor para o presente. Quanto é importante viver as coisas intensamente. É isso que deixamos, afinal: as pessoas, a memória dos lugares, não as coisas; as coisas não têm valor.”

Uiara afirma que o estúdio continuará funcionando. Isso, aliás, foi um dos pedidos que Tadeu lhe fez na madrugada de domingo. “Por enquanto, não vou fazer gravações, mas os ensaios vão seguir. Essa foi a última vontade dele. Ele me pediu. Disse que se morresse, era para eu seguir com o estúdio”, revela a filha. Tadeu deixa a esposa, a filha e três netos. Ele amava os netos intensamente. “O que mais vou sentir saudade são as brincadeiras, o carinho, o abraço. O estúdio não vai ser o mesmo sem ele, cada pedacinho tem o jeito dele. Com felicidade ele ergueu esse estúdio, sem deixar a peteca cair. Passou muita dificuldade, levantou o Z7 e a gente vai dar continuidade.”

Tadeu Ilha de Edição

“Ele está em bom lugar, olhando por todos nós, fazendo as brincadeiras dele. E tomando conta de nós”, diz Uiara Carvalho, filha de Martinez.

O velório reuniu cerca de 30 pessoas, a maioria músicos. Programado para iniciar às 16h, o corpo chegou às 19h30. Não parecia verdade, não queria acreditar. Tadeu estava com um semblante de paz, vestido com sua jaqueta de couro predileta. Parecia que, de repente, ele poderia se levantar com um sorriso largo, dizendo algo rápido e inteligente para nos alegrar. Duas coroas de flores, quatro velas ao redor do caixão, mais flores. Suas mãos não estavam cruzadas, mas estendidas paralelas ao corpo. Sua esposa não acreditava que ele estava morto, checando em alguns momentos se ele respirava. “Você é um bom pai, um bom companheiro, meu amor”, dizia ela, aos prantos.

Fora do velório, a rua Luis Murat estava cheia de carros. Bandas animavam os bares das redondezas do cemitério, onde está enterrado o escultor Victor Brecheret. Ameaçava formar uma fina garoa. A morte bem que poderia ter sido a última piada infame de Tadeu. Mas ela é real, a única certeza da vida, um ciclo natural. “Ele está em bom lugar, olhando por todos nós, fazendo as brincadeiras dele. E tomando conta de nós”, diz Uiara. Resta a lembrança de um homem bom, que deu espaço para muitos sonhadores entoarem seus cantos. “Eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho. Mas eu vim de lá pequenininho. Alguém me avisou prá pisar nesse chão devagarinho”, era o que uma cantora defendia – “Alguém me avisou” (Dona Ivone Lara) – no bar da esquina da Murat com a Rua Horácio Lane. Adeus amigo!

 

Comentários
3 Respostas para “A última piada infame de Tadeu”
  1. Paulo Reis disse:

    Bela homenagem ao nosso grande amigo Tadeu!
    Estará sempre em nossos corações e memória.

  2. Jai Mahal disse:

    É inacreditável que certas pessoas partam assim desse jeito, de repente sem nenhum sinal. Na segunda estava lá conversando bobagens da jornada de músico, falando das novas metas do estúdio, etc. E lá se foi o sujeito para outro plano. Eu tenho fé que a vida não se acaba com a falência do corpo físico, mas deixa uma saudade por aqui. Onde estiver, que siga em paz esse sujeito do bem. Grande abraço astral Tadeu.

  3. Esse fará falta!… O Tadeu foi, e continuará sendo o meu segundo pai (e de muita gente tb). Obrigado pela homenagem cara.

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