Saúde de cantores evangélicos 2 MTC

Só a fé não move o canto

Estudos revelam que a voz de cantores evangélicos amadores está sob ameaça

Roger Marzochi, do entresons; Arte de Marcos Tavares Costa (MTC)

Com a proximidade do Natal e Fim de Ano, corais de igreja se apresentam em todos os cantos. A música, no entanto, não é um veículo de louvor apenas nessas festas. Todas as religiões têm na canção um componente essencial em sua liturgia. Entre os evangélicos, o uso da música é ainda mais intenso. Mas o canto dos evangélicos está ameaçado pela falta de técnica, com “elevado risco vocal” que pode prejudicar a saúde de cantores amadores que participam desses cultos. É o que mostram dois estudos coordenados pelo Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Odontologia de Bauru, da Universidade de São Paulo (USP), e Centro de Estudos da Voz (CEV).

Ambas as pesquisas foram realizadas com cem cantores evangélicos, todos amadores, nas regiões de Bauru e Campinas entre 2011 e 2012. O estudo entrevistou 25 cantores e 25 cantoras de igrejas tradicionais, como a Batista, a Luterana e a Presbiteriana; e a mesma quantidade de fieis, igualmente dividida entre gênero, em igrejas pentecostais, como Assembleia de Deus, Igreja do Nazareno, Igreja da Graça, Congregação Cristã, Missionária Unida e Universal do Reino de Deus. Os fieis revelaram cantar uma média de seis a oito horas semanais e apenas 2% dos entrevistados afirmaram ter “conhecimentos sobre técnicas e preparação vocal”.

“Cantores evangélicos amadores relataram queixas vocais como rouquidão e pigarro constante, falhas na voz, perda de voz, garganta seca, voz fraca e dor na região de pescoço e nuca. Durante o canto, as queixas mais reportadas foram dificuldades para alcançar notas agudas, rouquidão e falhas na voz”, constata a pesquisa “Índice de Desvantagem para o Canto Moderno em Cantores Evangélicos de Igrejas Tradicionais e Pentecostais”, conduzida pelos pesquisadores Joel Pinheiro, Perla do Nascimento Martins Muniz, Janine Santos Ramos, Alcione Ghedini Brasolotto e Kelly Cristina Alves Silverio. Essa primeira pesquisa foi divulgada em 2013, utilizando como método o Índice de Desvantagem para o Canto Moderno (IDCM).

“Essas alterações podem ser consequência de falta de conhecimento sobre a anatomia e fisiologia vocal, classificação vocal equivocada, uso da voz de maneira inadequada, bem como desconhecimento de técnicas e treinamento vocal específico para o uso da voz cantada. Tais fatores facilitam o aparecimento de quadros de disfonias nos cantores, que apesar de serem amadores, podem apresentar comprometimento de sua qualidade de vida.”

A maioria dos cantores relatou dificuldades de alcançar notas agudas, sendo 46% no grupo tradicional e 52% no grupo pentecostal; dificuldade de afinação aflige 14% e 16%, respectivamente. Mais de 20% dos dois grupos apresentaram dor, desconforto na garganta após o canto ou ensaio. 12% nos dois grupos têm falta de ar durante o canto ou ensaio. A voz falha ou fica rouca após o canto para 18% do grupo tradicional e 26% no pentecostal. “Esse estudo mostra que há necessidade de um profissional (para orientar o canto). E a igreja, como instituição, ela investe no pastor, investe na faxineira. Se o culto, o louvor, é tão importante, tem que sair dessa atmosfera de achar que tem o dom de cantar e acabou. Sem preparação você vai ter danos, vai se lesionar e prejudicar a sua voz”, diz Joel Pinheiro, fonoaudiólogo e preparador vocal de Campinas, em entrevista ao entresons.

Em novo estudo com a mesma base de entrevistas, divulgada em agosto de 2017, os pesquisadores se aprofundaram nas diferenças de gênero. “Cantoras evangélicas apresentaram maior frequência e intensidade de sintomas de desconforto do trato vocal, bem como maior desvantagem vocal para o canto, quando comparadas aos cantores evangélicos”, conclui a pesquisa “Sintomas do trato vocal e índice de desvantagem vocal para o canto moderno em cantores evangélicos”.

“Além do despreparo e falta de conhecimento vocal evidenciados nos cantores evangélicos, há também a presença de aspectos de religiosidade e espiritualidade que interferem no comportamento vocal desses indivíduos, levando-os a praticarem seus atos religiosos quase sempre em intensidade vocal elevada, inclusive durante o canto”, diz o estudo, do qual participaram os pesquisadores da Faculdade de Odontologia de Bauru e do Centro de Estudos da Voz (CEV) Joel Pinheiro, Kelly Cristina Alves Silverio, Larissa Thaís Donalonso Siqueira, Janine Santos Ramos, Alcione Ghedini Brasolotto, Fabiana Zambon e Mara Behlau. Acrescentando ao já utilizado IDCM, o estudo também buscou métricas de estudo a partir do método da Escala de Desconforto do Trato Vocal (EDTV). A pesquisa original está neste link. “As mulheres têm a anatomia da laringe com pré-disposição de ter fendas. Elas têm sensibilidade maior que os homens”, explica Pinheiro.

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