Luis Leite PB

Uma meditação latino-americana

Luis Leite se inspirou na América Latina para o seu terceiro CD, uma verdadeira viagem à essência do continente

Roger Marzochi, do entresons; Crédito da foto de Aline Müller

Por mais revoltante e injusto que o mundo nos pareça, só com amor é possível mudar a nossa perspectiva para uma sociedade mais justa. “Vento Sul”, o terceiro CD autoral do violonista carioca Luis Leite, dá grande colaboração nesse sentido ao fazer um convite a um tipo de introspecção que não tem nada de passivo. Lançado no final de 2017, o trabalho pode ser considerado um mergulho na essência da América Latina, de suas veias até hoje abertas, e um forte estímulo para a meditação sobre quem somos, o que queremos e para onde vamos. O disco físico pode ser adquirido por meio do site do artista (R$ 30) ou por download no mesmo endereço eletrônico (R$ 15). O violinista não disponibilizou o CD em plataformas de streaming por questões estéticas e econômicas.

“Esse disco é um tipo de música que depende da fruição que passa muito por um estado meditativo”, explica o compositor, em entrevista ao entresons. “Para alcançar a mensagem que está sendo dita é preciso estar em estado de calma e de ‘meditação sonora’.” Leite reconhece que a sociedade caminha em ritmo frenético e sabe que está na contramão da indústria cultural, que privilegia a cultura e a estética norte americana e gêneros artísticos que dão pouco ou nenhum espaço para a reflexão. “A sociedade caminha acelerada, sem pausa. Ninguém para para ouvir música”, afirma.

“No ‘Vento Sul’ eu fiz questão de direcionar para uma linguagem latino-americana, porque somos carentes disso no Brasil. Não consumimos a música latino-americana, não temos contatos com nossos vizinhos. A cultura norte americana é mais forte no Brasil em termos de consumo.” Apesar disso, muitos grupos brasileiros se inspiram nos ritmos da América Latina. Exemplo disso é o Rodrigo Nassif Quarteto, do Rio Grande do Sul, que no trabalho “Todos os Dias Serão de Outono” (2015) apresenta influências regionais de uma forma contemporânea.

A entrevista com Luis Leite ocorreu no dia 14 de dezembro, um dia após a derrota do Flamengo para o time argentino Independiente na Copa Sul-Americana, com toda a rivalidade e violência que se presenciou entre a torcida antes, durante e após o jogo. Leite concorda que o futebol não é capaz de unir as pessoas, algo que a música consegue fazer não apenas na América Latina, mas em escala mundial. “A música congrega sempre, sempre une emoções. É uma forma de expressão muito nossa, natural e orgânica do ser humano, que esteve sempre presente desde os primórdios, como expressão do que podemos considerar a alma humana.”

Nascido em uma família muito musical, Leite conta que desde pequeno ouvia muita música latino-americana em casa, gente incrível como o cantor chileno Víctor Jara, a cantora chilena Violeta Parra – uma das inspirações para “Vento Sul”, ao lado de compositores como o violonista colombiano Gentil Montaña e o trio argentino Aca Seca. Leite captou todo o sofrimento de uma gente e traduziu um sentimento, que não está necessariamente preso a um gênero musical, mas a uma inspiração que se transmuta em música universal. Assim como o violonista Ulisses Rocha, Leite consegue utilizar seu imenso conhecimento técnico para fazer poesia, tão bem expressa no trabalho de Maria Birba e Aline Müller, responsáveis pela fotografia, projeto gráfico e retratos de “Vento Sul”.

Luis Leite Vento Sul CD

Terceiro CD autoral do violonista e compositor carioca Luis Leite, “Vento Sul” está à venda apenas no site do artista, que se negou a disponibilizar o trabalho em plataformas de streaming de música

E não poderia deixar de existir, entre tanta poesia, uma homenagem ao compositor, violonista e cantor brasileiro Guinga, na música “Flor da Noite”, com a participação do clarinetista Giuliano Rosas. “Foi uma música que eu compus mais na sonoridade associada ao Guinga, que foi inventor de uma linguagem. Você ouve uma música dele e já reconhece suas linhas sinuantes e harmonias marcantes, elementos que me inspirei para fazer a música, buscando uma cor guinguiana.”

Vocalizes que sopram as dores do continente podem ser ouvidos nas vozes da cantora paulistana Tatiana Parra (“Veredas” e “Céu de Minas”) e Lívia Nestrovski (“Noturna”). Há também “Beniño”, uma bela composição em homenagem ao filho do violonista gaúcho Yamandu Costa, com uma sanfona mágica tocada por Marcelo Caldi, acompanhado Leite, Márcio Sanches (violino) e Diego Zangado (bateria). “Caravan” tem um swing irresistível, um jazz latino que conta com o pulsar de músicos incríveis como Peter Herbert (baixo acústico), Wolfgang Pusching (flauta) e Luis Ribeiro (percussão).

O trabalho não deixa de ser uma resistência, não apenas cultural mas também econômica. O artista se negou a disponibilizar o trabalho em plataformas de streaming digital, diferentemente de seu primeiro CD autoral “Mundo Urbano” (2009), um magnífico tratado sobre a urbanidade, em duo com o percussionista Luis Ribeiro, que pode ser ouvido no Deezer e Spotify. “A opção de não colocar no streaming veio de um pensamento ideológico e econômico. A gente fez um cálculo: com o dinheiro que investimentos no projeto, para ter retorno, seria necessário 10 milhões de plays no Spotify. É uma estrutura que funciona bem para a indústria, que funciona para grande comércio, uma máquina, uma engrenagem grande. A música de nicho, música instrumental, que é uma música que trabalha com conceito diferente, não precisa ter o mesmo comportamento da indústria. É uma busca por alternativa, uma forma de pensar em alternativas para esse mercado que é ditado pela grande indústria. E de valorização do fonograma. Não tenho nada contra o Spotify, sou usuário. Mas atende determinado tipo de mercado.”

Outra razão seria o fato de que as composições do instrumentista são pensadas com um sentido narrativo. “As músicas do ‘Vento Sul’, do ‘Mundo Urbano’, faço questão de dar um sentido narrativo, uma ordem musical coerente. Com playlist você dilui isso. É uma das razões também, um aspecto ideológico, financeiro e conceitual.” O investimento, sem dúvida, vale muito para quem gostaria de ouvir uma música contemplativa, que transborda muito amor apesar das tragédias do continente, sejam elas históricas ou contemporâneas. O acalanto da viola de Elisa Monteiro, em “Despedida”, a décima e última música de “Vento Sul”, diz haver sempre esperança.

 

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