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Som, paz e sustentabilidade

Rico Verenito faz pré-estreia de lançamento de espaço ecocultural no Tatuapé unindo música, permacultura e alimentação

Roger Marzochi, do entresons; Foto de destaque é a vista do espaço C’Alma

Quem já teve a oportunidade de participar de uma meditação do Tambores Flow com a presença de Rico Verenito pôde viajar pelo universo profundo aos sons de sua cítara maravilhosa. Sua simples presença já transborda paz, seus alongamentos antes de começar a tocar lembram que a música é também extensão da memória muscular. Mas sua atuação no projeto que une música e meditação, dirigido pela meditadora Monica Jurado, é uma das pontas do imenso iceberg que esse multi-instrumentista construiu ao longo de seus 43 anos de idade. O músico está promovendo o pré-lançamento do C’Alma, espaço ecocultural localizado no Tatuapé, em São Paulo, com dois workshops sobre o aproveitamento da água da chuva e a construção de telhados verdes. O local, com 800 metros quadrados, receberá ainda cursos que introduzem os conceitos da música clássica indiana, música das esferas e discussões sobre qualidade de vida e alimentação. “O C’Alma traz os valores que a gente acredita, que são os da consciência da arte, do meio ambiente e da alimentação”, explica Verenito, também membro da banda de música de improvisação livre Aguaúna, que em 2018 batalhará por financiamento para concluir duas webséries e apresentações com dançarinos.

Calma Pancs

O espaço C’Alma privilegia o cultivo de Pancs, plantas alimentícias não-convencionais

Na quarta e quinta-feira (10 e 11/01), das 10h às 18h, o espaço receberá o engenheiro Edison Urbano, inventor, palestrante e incentivador da sustentabilidade do projeto Sempre Sustentável. Urbano realizará oficinas de construção de minicisternas e captação de água de chuva. “É para explicar sobre a qualidade da água da chuva em meio a grandes centros urbanos. É preciso muito cuidado para captar água dos telhados das casas nos grandes centros, exposta a metais pesados. Além disso, os telhados na cidade são visitados não apenas por passarinhos, mas também ratos, gatos, ou seja, há uma contaminação sobre a qual é preciso ter certos cuidados”, diz Verenito. A contribuição para o espaço neste evento é de R$ 30 e é deixado em aberto uma contribuição consciente dos participantes do curso para remunerar a palestra do engenheiro. Serão construídos sistemas para caixas d’água de mil litros e uma de 200 litros. Inscrições por meio dos contatos: contato@espacocalma.com.br ou 11 99642.3546

Com o mesmo contato de inscrição é também possível participar de outro evento. Nos dias 20 e 21 de janeiro, o espaço receberá a “Vivência de Telhado Verde na Cidade”, em palestras com teoria e prática lideradas pelo bioarquiteto Gustavo Queiroz, com investimento de R$ 120. “Queiroz vai discutir a falta de áreas verdes nas cidades, apresentando uma solução interessante de telhado verde”, diz Verenito. “Há diversos tipos de telhados verdes, mas no curso vamos fazer um sistema desses em uma laje de bambu de 43 metros quadrados, para plantar Pancs – plantas alimentícias não-convencionais. Aqui no espaço damos prioridade a plantar coisas que podem ser comidas, além de sementes crioulas, que não são sementes híbridas, cruzadas ou transgênicas. Há um movimento mundial das sementes crioulas, há guardiões dessas sementes no mundo todo.” Ao longo do ano, muitos outros cursos serão realizados no espaço buscando levar informação sobre música indiana, música das esferas e sustentabilidade.

Natureza sonora – Foi o contato com a natureza que levou Verenito a se enveredar pela música. Começou logo cedo com piano, estudou violão clássico e, aos 18 anos, conheceu a cítara de uma forma inusitada. “Eu tive oportunidade, desde pequeno, de conviver na natureza. Então dá para se dizer que o convívio na natureza que me levou à música, buscar uma música que eu considero mais conectada com a natureza.” Em um passeio pela feira de antiguidades da Praça Benedito Calixto, em Pinheiros, Verenito encontrou uma banca que vendia instrumentos musicais, partes de instrumentos e até instrumentos musicais pequenos, adaptados para crianças. Ele se encantou por um instrumento que nunca havia visto antes e, quando teve a oportunidade, comprou seu brinquedo. Mas não tinha a menor ideia do que era e de onde vinha. Quando estava finalizando o terceiro grau, ganhou de um professor uma fita K7 com um disco do citarista indiano Ravi Shankar, que o deixou fascinado. Logo associou o som daquela obra prima ao instrumento que comprara.

FOTO RICO VENERITO

Verenito foi aluno do brasileiro Alberto Marsicano e da indiana Krishna Chakravarty. Crédito da Foto de Silvia Bandeira.

Após um show no Masp do citarista brasileiro Alberto Marsicano, que passou para o plano espiritual em agosto de 2013, Verenito foi ao encontro do músico e se tornou aluno de um dos responsáveis pela divulgação da cítara no Brasil. Verenito ainda conseguiu realizar diversas aulas na Argentina, promovidas pela professora indiana Krishna Chakravarty, da Faculdade de Música Hindú de Benares (Índia) em suas visitas à América do Sul.  “Eu não tinha condições de ir para a Índia, mas fui para a Argentina para imersões, em anos consecutivos. Eram grupos de 30 a 40 músicos do mundo inteiro, que se reuniam em fazendas no interior da Argentina, muitas vezes em Córdoba. E lá fazia imersão de 12 dias aprendendo tanto com ela como com alunos avançados e professores que lá se encontravam, como os argentinos Ariel Chab-Tarab e Guido Pera. Eu trazia muito material didático para estudar em casa. Ficava dois a três anos estudando solo com o material que a gente trazia.”

Ele também sempre se interessou pela construção de instrumentos indianos, africanos e australianos. “Construí kalimbas por muito tempo; kora, que é um tipo de harpa africana. Uma parte da minha família mora na Austrália e me interessei pelos instrumentos dos povos de lá. Construí didjeridoo, um instrumento de sopro australiano, dos aborígines. Não gosto dessa palavra, você pega uma civilização mais que milenar e coloca num bolo só. Havia 500 etnias antes do homem branco chegar lá. A civilização do norte da Austrália usava didjeridoo em seus ritos e tratamentos de cura.”

Os chamados “ragas indianos”, que são esquemas melódicos de improvisação, que não exigem leitura de partitura, levaram Verenito a experimentar essa essência da música do mundo, na qual é valorizada a liberdade de improvisação e o sentimento. Com isso na cabeça, Verenito conseguiu participar, em 2008, da criação do Aguaúna. “Aguaúna é como uma água só. A água que escorre pelo seu rosto é a mesma que banha todos os Continentes, a música do mundo que vem da alma, independentemente da sua crença ou cultura.”

O grupo de improvisação livre reúne grandes mestres, como Pedro Osmar, Célio Barros, Gugué Medeiros e Fábio Negroni. “É um encontro de músicos de várias vertentes, para desenvolver processo criativo que não tem ensaio. Só nos encontramos para gravar disco, para fazer show. As músicas são as que acontecerem naquele momento”, explica Verenito. O grupo, que tem dois discos gravados, tem histórias curiosas. Uma vez foram chamados para gravar junto com o dançarino Marcos Abranches. Após 20 minutos de música, o diretor do videoclipe corta e diz: “Vamos agora para o take bom.” Pela proposta da banda, impossível repetir a mesma música mais de uma vez, pela sua característica de improvisação livre. “O processo criativo do momento tem um lugar de acessibilidade que não é como apertar o botão e começar. Foi uma cena engraçada, porque tivemos que parar. E eles queriam que a gente começasse de novo, com o mesmo clima. No Aguaúna uma música não tem o mesmo clima porque o ponteiro gira.” Mas a experiência com o dançarino foi positiva, e o grupo está batalhando por editais para unir música e dança novamente. Verenito ainda fez o trabalho de fotografia e cinema “Quintao”, no qual une agricultura e taoísmo. Com esse leque naturalíssimo nas mãos, o espaço C’Alma já começa com tudo para se fixar como uma área de resistência cultural para as próximas gerações, que sempre precisarão de som, paz e sustentabilidade.

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