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Um brasileiro na banda de Garbarek

A trajetória de Yuri Daniel, um contrabaixista que toca com um dos maiores saxofonistas do mundo

Roger Marzochi, do entresons

Reconhecido como um dos maiores saxofonistas do mundo, uma verdadeira lenda viva do jazz, o norueguês Jan Garbarek tem em sua banda atual a companhia de um brasileiro. Nascido em Recife e criado em Curitiba, o contrabaixista Yuri Daniel toca há dez anos com Garbarek. “Sou um grande fã dele”, diz Daniel, em entrevista por e-mail ao entresons. Garbarek está presente em mais de 70 discos da cultuada gravadora alemã ECM, que no ano passado abriu o seu catálogo para os aplicativos de streaming de música. O músico, que ganhou fama internacional na década de 1970 ao integrar o quarteto do pianista americano Keith Jarret, gravou discos históricos na companhia do brasileiro Egberto Gismonti e do contrabaixista Charlie Haden, como “Carta de Amor”, “Folk Songs” e “Mágico”.

Para conseguir chegar até a banda de Garbarek o contrabaixista brasileiro, que já tocou até com o inesquecível Paulo Moura e ainda toca com Ivan Lins, empreendeu uma longa caminhada. Em 1986, Daniel deixou o Brasil para estudar em Lisboa, na Escola de Jazz do Hot Clube de Portugal. “A música sempre esteve presente na minha vida”, explica o brasileiro, que iniciou o estudo do violão aos cinco anos. O contrabaixo surgiu como uma necessidade: o contrabaixista da banda de seu irmão guitarrista adoeceu. E Daniel foi chamado para substituir o enfermo.

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“Já tivemos duas vezes para ir (para o Brasil), mas acho que é muito longe para o Jan. Ele não quer viajar muito”

Uma vez em Portugal, Daniel montou grupos e participou de bandas com expoentes da música portuguesa, como a cantora Maria João. Gravou ainda com Rui Veloso, Dulce Pontes, Sérgio Godinho, José Mário Branco, Mário Laginha, entre outros. “Tem sido uma experiência fantástica, sou um privilegiado. Com cada artista, eu estudo e toco como se fosse o meu projeto e dou o meu máximo.”

Daniel ainda tem uma banda com uma proposta inspiradora, chamada MIR, com João Barradas (acordeão), Bruno Pedroso (bateria) e Sónia Oliveira (voz). Mas para a qual não consegue se dedicar muito de seu tempo. “Na realidade, ainda não tivemos oportunidade de tocar por uma questão de agenda, minha principalmente. Eu tive uma tour no ano passado com o Jan Garbarek, alguns concertos com o Ivan Lins, estúdio, preparação e gravação do CD da Sónia Oliveira, Diogo Vida, Pedro Madaleno. E mais gigs em bares. Foi um ano de muito trabalho.”

O músico explica que já possuía uma ótima base musical quando decidiu mudar de país. Pesou muito em sua decisão de morar em Portugal o clima político no Brasil, que em 1989 elegeu Fernando Collor de Mello, o primeiro presidente eleito pelo povo após a Ditadura Militar, e que renunciou em 1992 após escândalos de corrupção. “Eu não queria compactuar com aquilo que o Brasil veria a ser. Tenho muitas saudades, mas não consigo viver nesse país que tem o melhor povo e os piores políticos.”

A sua grande oportunidade de tocar com o mito do jazz mundial ocorreu mais ou menos da forma como havia descoberto o contrabaixo. O contrabaixista alemão Eberhard Weber, que tocava com Garbarek, adoeceu. E o empresário de Maria João era também o responsável pela banda do músico norueguês. “Quando o Eberhard Weber adoeceu no meio da tour, o Peter (empresário) me pediu para substituir o Eberhard por alguns concertos até decidirem o que fazer. Eles tinham feito um concerto em trio e, no seguinte, eu fui ensaiar com eles antes do concerto. Na realidade não era suposto eu tocar logo. Eu tinha 1h de ensaio para 2h30 de concerto. Mas o Jan gostou, se sentiu bem. Na realidade eu sou um grande fã dele e alguns temas já os sabia, e pronto: já lá estou há 10 anos.”

Na formação atual, integram também o grupo de Garbarek o percussionista indiano Trilok Gurtu e o pianista Rainer Brüninghaus. Em outros momentos, faz parte da banda o baterista francês Manu Katche. É possível imaginar essa banda, que fechou 2017 viajando pela Europa, tocando no Brasil? “Já tivemos duas vezes para ir, mas acho que é muito longe para o Jan. Ele não quer viajar muito”, diz Daniel, que está se preparando para gravar seu terceiro CD autoral. Ele já lançou “South Way” e “Ritual Dance”. Voltar ao Brasil? Só se for um convite para apresentar seus trabalhos autorais ou na companhia de Garbarek, embora ele adoraria voltar a viver no País.

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Da esquerda para a direita, o pianista Rainer Brüninghaus, o contrabaixista Yuri Daniel, o saxofonista Jan Garbarek e o percussionista Trilok Gurtu

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