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Irresistivelmente “maluca”

Léa Freire, que joga o maior futebol no mundo do jazz brasileiro, lançará pelo selo Maritaca 5 CDs em 2018, buscando driblar até mesmo a febre amarela

Roger Marzochi, do entresons

Uma casa simples, numa rua calma. Uma raridade na cidade de São Paulo. No portão, dois avisos. Uma placa com a imagem de um cão feroz, para afastar curiosos; ao lado, o desenho de uma mulher com olhos esbugalhados, riscado em um papel envolto em plástico, no qual se pode ler:

Cuidado

Velha Maluca!

Confirmado o número da casa, não há dúvida que, ao apertar a campainha, finalmente encontraria com a multi-instrumentista Léa Freire, que completa 45 anos de carreira. O surto de febre amarela prejudicou o início da gravação de um novo disco com o pianista Amilton Godoy na semana passada, mas os planos da compositora são firmes em apresentar ao público em 2018 cinco CDs, com trabalhos autorais, novos arranjos para expoentes da música popular brasileira e obras de artistas que sobrevoam nas asas da Maritaca, selo da artista que tem nos olhos o brilho da juventude. E, ainda, arranjos de música própria para orquestra, algo que ousou fazer com sucesso em “Cartas Brasileiras” (2007), trabalho no qual faz homenagem ao seu bairro, “Vila Ipojuca”. Na sexta-feira, 2 de fevereiro, Amilton e Léa lançam “A Mil Tons”, no Sesc Pompeia, em São Paulo, com composições do instrumentista que integrou o Zimbo Trio.

A imagem da “velha maluca” também ajudou a esmorecer dentro de mim um certo temor de encontrar uma artista que sempre me pareceu muito sisuda no palco, embora tenha tirado meu fôlego em suas improvisações em shows com o trombonista Bocato – com quem Léa gravou “Antologia da Canção Brasileira” volume 1 e 2 – e com o multi-instrumentista Arismar do Espírito Santo – que lançou no ano passado o CD “Flor de Sal”. Sem dúvida, Léa é uma mulher séria, mas com a graça de ser uma pessoa extremamente simpática, atenciosa e inspiradora. “Sou apaixonada por ela”, diz a cantora Janaina Fellini, nas redes sociais. “Nossa, fui recentemente a um show dela no auditório Ibirapuera. D+!”, afirmou a jornalista Mariana Ciscato, também na web.

Um amigo de Léa abre o portão e segura Mazzaropi, o temido cão da placa, que não esboça a mínima reação frente à carne nova. Desço uma longa escada do terreno em declive, no lado direito da casa. Acima, a trepadeira vai tomando conta do arame farpado do muro do vizinho, cada vez mais alto. Léa está em seu quintal florido, próximo a um balanço, brincando com a filha da jornalista Tatiana Pugliesi. Calça preta e uma camiseta preta estampada. Qual era a estampa? O desenho da “velha maluca” do portão. “Eu sou a velha maluca não à toa”, diz. “Sem mimimi. Não tem esse papo de coisa de mulher. Nem de dedos. Não!”

Um lance degraus acima, entramos em seu estúdio. Dois pianos; uma bateria; um contrabaixo; um violão; uma flauta contrabaixo de mais de um metro; outras flautas e partituras sobre o piano; um tear artesanal, no qual a artista tece tapetes, como o que está pendurado no fundo do estúdio. Léa conta que começou a estudar piano aos sete anos, pois havia um instrumento em sua casa. A artista dividia os estudos com o futebol, paixão que foi obrigada a interromper aos 11 anos. “Eu não tinha talento nenhum para o piano erudito. Sou mais criativa que disciplinada. Era difícil me tirar do futebol para treinar piano. Dos sete aos 11 anos, eu era o Pelé da rua! Jogava muito bem, dava aquelas matadas de bola que corre pelo peito, sabe? Com 11 anos eu estava proibida de jogar futebol.”

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“Minha teoria é que quando você acerta, você está fazendo o que você já sabe. Você só faz o novo quando erra.”

Deu liga - Foi no Ginásio Vocacional Oswaldo Aranha que Léa teve o primeiro contato com a flauta. O colégio possuía instrumentos de percussão e xilofones, mas usava a flauta doce na musicalização das crianças. A pequena Léa se apaixonou pelo instrumento, com o qual “apitava” sem parar em todo lugar. Até que, aos 15 anos, seu pai lhe tirou o “apito” e lhe entregou uma flauta transversal. Conseguia tirar de ouvido de “Jesus, Alegria dos Homens” a músicas do grupo de rock Jethro Tull, cujo vocalista e flautista Ian Anderson deixava o público extasiado com suas canções.

Mas não foi na aula de música que Léa criou a sua própria forma de estudar. Durante as aulas de Química, ela mantinha os olhos fixos no professor e a mente conectada a notas musicais.  “Como eu queria tocar muito flauta, eu tirava música nas aulas de Química. Pensava que nota era depois daquela, ficava fazendo ‘Lego’ musical. Foi o melhor curso de percepção musical que eu inventei. Eu ficava tirando música olhando para o professor de Química, que pensava que eu estava lá e não estava (risos).”

A criação do Clam, escola do Zimbo Trio, impulsionou a evolução da artista. Era como se tivessem criado uma escola ideal só para ela, há quatro quadras de sua casa. Ela queria aprender violão para tocar Bossa Nova, mas como vivia com a flauta de cima prá baixo, acabou virando professora do instrumento, sem nunca ter tido aula de flauta transversal. O essencial, diz Léa, é reconhecer de cabeça as notas. Saber como se alcança essa nota em um instrumento já é outra etapa, a da coreografia necessária para se fazer aquele som. Ler partitura? Nem! Léa se esforçou para fazer isso, porque antes do Clam, era só ouvir trechos de uma música para sair tocando-a como se soubesse ler as bolinhas na pauta. Nesse período, apresentava-se no mítico bar Jogral com o Regional do Evandro e rumava até o Clam, para dar aulas de flauta e solfejo. “Meus alunos me ensinaram muito.”

Léa chegou a frequentar duas semanas de aula na prestigiada Berklee College of Music, nos Estados Unidos, instituição pela qual passou, por exemplo, o precursor do samba-jazz, o saxofonista J.T. Meirelles, na década de 1950. “Eu não gostei. É muito chato. Sabe o método? E, até hoje, tem muito disco do pessoal que sai da Berklee, que o pessoal escuta e diz: é da Berklee. É uma forminha. Eu fiquei duas semanas, era para ficar quatro anos. Fui de mala e cuia.” Embora não goste de revelar publicamente, o multi-instrumentista Itiberê Zwarg, que integra a banda do bruxo Hermeto Pascoal, revela ter a mesma opinião sobre essa escola norte-americana em palestra durante seus workshops de Música Universal. “Eu gostava mais do Clam, que era mais aberto. Tinha todo o método. Se quisesse se aprofundar em campo harmônico, tinha. Mas se você não quisesse, tinha outro negócio. Quer acompanhar? É muito interessante também. Você aprende a acompanhar a si mesmo e aos outros. E mudar de tom. Em instrumentos de cordas não tem esse mistério todo. No piano se mudou é outro sistema solar. Mudou tudo! Inferno na torre! Hello? Houston! (risos)”

Hoje, Léa diz estudar mais. Fez as pazes com o metrônomo, coisa que em uma época de sua vida queria quebrar em pedacinhos até não deixar vestígios. “O metrônomo é o melhor calmante que você pode tomar na sua vida”, afirma. “Ele coloca uma ordem na sua vida e o tempo passa e você não sente dor. Ele vira um anestésico e você entra em mantras. O estudo, para mim hoje, eu associo a tocar percussão: você entra no mantra, e você, de repente, entra num lance que vai te tomando. E quanto mais repetir aquilo, melhor. Entra no swingue e dá aquela acopladinha… e que delícia, mais quatro horas nisso aqui, tudo bem!”

Estudando com o Amilton Godoy, Léa conta que voltou a tocar música de Johann Sebastian Bach. “E fui estudar com o metrônomo e aquilo foi me deixando num lugar muito parecido com esse mantra: Ohmmmmm… Olha como sou boazinha! O Bach é um cara organizado, que organiza sua alma. E é tão difícil. Ele é o cara mais difícil na vida. Ele é divino na perfeição dele. Tem gente que é só perfeita, e não rola. Mas ele é uma matemática divina, iluminada. Ele não cansa. Mas eu não quero tocar Bach, quero tocar minhas coisas. Que já é difícil. O pessoal reclama demais que é difícil.”

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“O metrônomo é o melhor calmante que você pode tomar na sua vida”

Ela afirma que até o pianista André Mehmari reclama da dificuldade de sua música. Difícil ou não, é iluminada e inspira muita gente. O trompetista Rubinho Antunes, da Banda Urbana, fez um lindo arranjo em 2010 para “Casa da Sogra” no CD do Movimento Elefantes, união de músicos que reúne 11 big bands em São Paulo. “‘Casa da Sogra’ ainda tem uma letra linda feita pela Joyce (cantora Joyce Moreno), que não foi gravado por ninguém, nem por ela”, diz Léa. Essa música instrumental está no disco “Ninhal”, o primeiro lançado pela compositora, em 1997. Nelson Aires também arranjou para sua big band a música “Risco”, que está no disco “Quinteto” (2007), gravado com o pianista Benjamin Taubkin, trabalho que tem músicas como “Sorriso do Gordo”, “Risco”, “Vatapá” (em parceria com a cantora Joyce) e “Pena que a vovó não está aqui/Giant Steps” (Benjamin Taubkin e John Coltrane). A cantora Cibele Codonho gravou “Vatapá”, no CD “Afinidade” (2016). O pianista argentino Andrés Beeuwsaert é tão fã de Léa que toca suas composições há dez anos e chegou a integrar o grupo Vento em Madeira em turnês pela Argentina e Chile. E, em outubro e novembro do ano passado, excursionou com Amilton Godoy em shows nos Estados Unidos de São Francisco a Seattle. “O músico brasileiro tem que ir para todo lugar!”, afirma. “A gente não é terrorista, não estamos roubando mercado de ninguém. A maioria que vai para lá mais gasta do que ganha. O que pode acontecer é o cara errar a harmonia no show.”

E, ainda, há crianças de 11 anos que andam tocando as composições da “velha maluca” no Projeto Guri, em Jundiaí. Para formar público para a música instrumental brasileira, o quinteto Vento em Madeira tem feito apresentações voluntárias nas unidades desse projeto educacional, com resultados surpreendentes. “Estou fazendo o que dá para fazer para passar o bastão da música brasileira. A música não sou eu, é a música brasileira, que é da maior qualidade. Isso é o máximo que você pode fazer. Tendo em vista que está acontecendo… Quando chegou na Lambada eu achava que era o fundo do poço (risos).”

Léa também comemora a divulgação de sua música na Rádio USP, suas entrevistas para veículos de imprensa e a Gig Nova, iniciativa do jornalista e escritor Júlio Maria, do jornal O Estado de S.Paulo. A Gig Nova reúne excelentes músicos em apresentações inéditas no bar Tupi or Not Tupi, na Vila Madalena. “Mundialmente existe uma rede para que a música instrumental sobreviva”, afirma a instrumentista, que lembra também dos bons músicos que surgem das oficinas e orquestras de Itiberê Zwarg. “A música vai muito bem, com músicos fazendo coisas incríveis. Está na mídia?”

Teoria de composição – O erro é o principal elemento de criação de suas composições. Para compor, a artista se acomoda ao piano e erra. Erra tanto até encontrar um erro do qual goste, que lhe pareça a gênese de uma nova melodia. “Minha teoria é que quando você acerta, você está fazendo o que você já sabe. Você só faz o novo quando erra.” Apesar de ter em seus sonhos uma trilha sonora completa, Léa nunca conseguiu compor a partir dessas experiências oníricas. “Eu já sonhei muita coisa que eu perdi. Música que acordei cantando e perdi.”

No Cool Refrigente criado por Léa Freire

Além da camiseta da “velha maluca”, com grande apelo comercial, Léa Freire criou o refrigerante “No Cool”

Mas não se esquece de uma música que compôs de uma forma inusitada: dirigindo. Léa voltava do Festival de Música da Primavera, em São José do Rio Pardo, organizado pelo maestro, saxofonista e sanfoneiro Agenor Ribeiro Netto. E estava repleta daquela alegria vivenciada na apresentação, as festas do Divino na cidade e a atuação decisiva de Ribeiro Netto para fazer tudo aquilo acontecer, projeto que durou de 1984 a 2013, com algumas interrupções, e que reunia 3 mil pessoas em um ginásio. E na estrada, dirigindo de volta a São Paulo, nasceu “Fé”, composição que está no CD “Quinteto”. Não contente em lembrar, Léa se dirige ao piano para tocar um trecho de “Fé”. Infelizmente, a reportagem do entresons tem apenas o áudio dessa música, sem vídeo. “E vim cantando, esperando na hora de chegar no piano. E foi muito legal que a primeira parte é mais modal, porque eu estava longe do instrumento, vem uma parte mais consoante. E a segunda parte tem coisas surpreendentes, que parece uma coisa do Divino. Ela tem relação com música do Divino, com procissão”, diz.

“Soube que a Léa teria feito uma música em minha homenagem, em homenagem ao festival. Mas acredite se quiser: até hoje eu não a ouvi”, diz Ribeiro Netto, 67 anos. “Gostaria muito de  reencontrar a Léa e fazer contato. Quem sabe tenho o prazer de tê-la em uma das apresentações das minhas orquestras. Um sonho, porque ela é uma flautista fenomenal!”, diz o maestro, que atualmente mora em Poços de Caldas (MG) e rege a Jazz Sinfônica da cidade e a Orquestra de São João da Boa Vista (SP). Com a crise na prefeitura de Poços de Caldas, o maestro, que é responsável por eventos grandiosos como a Sinfonia das Águas e o Viola de Todos os Cantos, luta para conseguir pagar os músicos da orquestra, que estão sem ganhar um centavo.

Seguindo o rumo da santidade da música brasileira, estava marcado para os dias 22 e 23 de janeiro a gravação de um novo disco de Léa com o pianista Amilton Godoy, com composições de Milton Nascimento, Carlos Lyra, Dorival Caymmi e Tom Jobim. O estúdio, no entanto, fica em Mairiporã, área de risco para a febre amarela. Com os postos de saúde lotados, Léa pensava até mesmo em tomar a vacina em outro Estado para não atrasar o cronograma de lançamentos que pretende realizar no ano. Está em pós-produção um duo de flauta e piano com composições de Léa Freire, CD para ser lançado no primeiro semestre.

Ela ainda pretende lançar um disco de piano solo, acompanhada algumas vezes por contrabaixo e um segundo piano. Quer voltar a escrever arranjos para orquestra. E lançar dois discos do Câmaranóva, de música erudita, com composições autorias do grupo liderado pelo compositor Felipe Senna e, também, músicas de Léa Freire. Para relaxar, faz brincadeiras como o da camiseta da “velha maluca”. E um produto que considera muito mais “heavy”: “eu fiz um refrigerante! Chama-se ‘No cool’… Refrigerante No Cool, já tomou? (risos)”

 

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