Jazz Tango Grammy

A vitória da fusão

Vencedor do Grammy de Melhor Álbum de Jazz Latino de 2018, Pablo Ziegler defende que os músicos jovens de jazz se aventurem na fusão com outros gêneros para rejuvenescer a audiência 

Roger Marzochi, do entresons

Os jazzistas jovens devem experimentar mais dentro do jazz, buscando sua fusão com outros gêneros, para conseguir rejuvenescer a audiência. Essa é a opinião do pianista argentino Pablo Ziegler, 73 anos, que na semana passada conquistou o Grammy 2018 de Melhor Álbum de Jazz Latino com “Jazz Tango”, um trabalho belíssimo que deixa sua marca na história da música ao expandir a tradição da música argentina para as fronteiras elásticas do jazz.

“Essa é a única forma de descobrir sua própria voz. Não importa de onde vem a inspiração. Pode ser Jazz Tango, Jazz Folclore, Jazz Malambo, Jazz Candombe, etc. A chave é ser verdadeiro com você mesmo dentro da música”, diz o instrumentista e compositor, em entrevista por e-mail ao entresons.

Com a experiência de ter tocado por 11 anos com o mito Astor Piazzolla, Ziegler conseguiu uma fina sintonia com os músicos de seu trio, o bandeonista Hector del Curto e o guitarrista Claudio Ragazzi. Há em “Jazz Tango” muito mais que dois amores envolvidos em uma dança para lá de sedutora, pois reflete também o frenesi da atual Buenos Aires, beleza, liberdade e melancolia.

Jazz Tango Grammy

Estavam na disputa com “Jazz Tango” o brasileiro Antonio Adolfo – com uma homenagem a Wayne Shorter – e Marcello Gonçalves, que com a israelense Anat Cohen gravaram em homenagem ao maestro Moacir Santos

E fusão foi o que não faltou entre os pretendentes ao prêmio na categoria Melhor Álbum de Jazz Latino. O trio argentino saiu vitorioso frente a fortes concorrentes, como o pianista brasileiro Antonio Adolfo, com o CD “Hybrido – From Rio To Wayne Shorter”. Neste trabalho, Adolfo faz uma homenagem ao saxofonista norte-americano, mesclando jazz ao samba, bossa e afoxé.

A competição foi ainda mais acirrada com “Outra Coisa”, no qual o violonista brasileiro Marcello Gonçalves se uniu à clarinetista israelense Anat Cohen em homenagem ao maestro Moacir Santos. Ainda concorreram Jane Bunnett & Maqueque. A saxofonista e educadora canadense se uniu a cinco mulheres instrumentistas de Cuba, em muita fusão jazzística com a música cubana no CD “Oddara”.

E o saxofonista Miguel Zenón, de Porto Rico, lançou no ano passado “Tipico”, com um quarteto com o qual se apresenta há mais de 15 anos. O músico, aliás, tem se destacado em trazer para o jazz temas do folclore latino-americano. Fusão, mais fusão! Não à toa, Ziegler comemorou o resultado dos jurados do Grammy, apostando numa maior abertura ao mundo para os músicos argentinos. E “Jazz Tango” mereceu o prêmio. Sem dúvida, é um trabalho tão belo quanto todos seus concorrentes, porém muito mais visceral na emoção. Abaixo, segue a breve entrevista com Ziegler.

entresons - Em uma entrevista que você concedeu a Simon Sargsyan, repórter do Jazz Blues News, em dezembro, você disse: “Se nós ganharmos, isso mudará a história da música e provavelmente abrirá portas do cenário musical internacional para muitos músicos do meu país. Eu gostaria muito de ser essa pessoa que poderia fazer isso acontecer na história da música.” E isso realmente aconteceu! De que forma o prêmio que você venceu poderia ajudar os músicos argentinos no cenário internacional?

Pablo Ziegler – Sim, isso realmente aconteceu e foi uma grande surpresa para mim! Agora que “Jazz Tango” é reconhecido como parte do Jazz Latino, provavelmente as pessoas entenderão que Tango / Nuevo Tango são músicas em que se pode improvisar. Há muitos músicos do meu país que nunca alcançaram a cena da música internacional, mas eu espero que isso vire um gatilho para impulsionar suas carreiras em diferentes países.

entresons – Na mesma entrevista, você explicou que Astor Piazzolla já tocava Tango de uma forma diferente da tradicional, com influências do jazz e da música contemporânea. Poderia explicar um pouco mais sobre como essa fusão entre o Tango e o Jazz é possível?

Pablo Ziegler Credito AlVA SHIMA ARTS LLC K Fujimoto

“Há muitos músicos do meu país que nunca alcançaram a cena da música internacional, mas eu espero que isso vire um gatilho para impulsionar suas carreiras em diferentes países”

Pablo Ziegler – A primeira coisa que você precisa saber é que o tango tradicional é 100% escrito. Como a fusão com o jazz é possível? Você precisa aprender a elevar a harmonia e a habilidade de improvisação do jazz no topo das técnicas do Tango. Depois disso, é uma questão de estilo de improvisação, da mesma forma como existem diferentes estilos de improvisação entre os músicos de jazz. Então, você encontrará a sua voz finalmente.

entresons – Quais os aspectos de Buenos Aires, ou da Argentina, que estão expressas nas cores das músicas de “Jazz Tango”? Quando eu ouvi o disco, logo imaginei dançarinos juntos, como amantes. Mas também ouvi o som do vento atravessando corações solitários.

Pablo Ziegler – Uma das músicas deste álbum, “Milonga del Adios”, é uma composição que eu dediquei a Astor Piazzolla quando ele morreu. Portanto, há melancolia, tristeza, junto a belas memórias que tivemos juntos, tudo demonstrado numa mesma peça. Por outro lado, “Buenos Aires Report” é uma versão argentina de “Weather Report”, que ilustra o caos da cidade de Buenos Aires hoje. Eu sempre busco muitos sentimentos e ambiências para entrelaçá-las em minha música, para criar um tipo de dinamismo de Buenos Aires, que você pode experimentar diariamente… Talvez você sentirá isso quando visitar a cidade…

entresons – Existe a possibilidade de apresentar “Jazz Tango” no Brasil?

Pablo Ziegler – Apresentei-me no Brasil muitas vezes, e adoraria executar “Jazz Tanto” num futuro próximo!

entresons – Tenho escutado dos músicos brasileiros que a audiência, não apenas no Brasil, mas também nos Estados Unidos, está envelhecendo. Não há muitos jovens em concertos de jazz. Como envolver os jovens nesse tipo de arte?

Pablo Ziegler – Os músicos jovens precisam experimentar mais dentro do jazz, para que a audiência jovem se relacione com a música e a desfrute. Essa é a única forma de descobrir sua própria voz. Não importa de onde vem a inspiração. Pode ser Jazz Tango, Jazz Folclore, Jazz Malambo, Jazz Candombe, etc. A chave é ser verdadeiro com você mesmo dentro da música.

 

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