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Universo alimenta samba e choro

Bem antes da Vila Isabel, astrofísico brasileiro que estuda os ecos do Big Bang emite ondas de samba, choro e toda uma radiação que a ciência desconhece

Roger Marzochi, do entresons

O desfile da escola de samba de Martinho da Vila, a Vila Isabel, levou para a Sapucaí uma perspectiva histórica do impacto das descobertas tecnológicas que revolucionaram a sociedade. O samba, variação do antigo pulsar de tambores africanos, buscou inspiração na técnica. Mas há, igualmente, o caminho inverso: o de um cientista que, apesar de estar na linha de frente dos mais avançados estudos sobre o Universo, emite em direção ao espaço as ondas sonoras do choro, do samba, da música barroca e renascentista.

Carlos Alexandre Wuensche tem 55 anos, é astrofísico, e sua principal paixão é escutar o Universo. Ele estuda há anos a chamada “radiação cósmica de fundo”, emissões de rádio que viajam pelo espaço até a Terra, reflexos da grande explosão que gerou o Big Bang, a força descomunal que teria criado planetas, estrelas e os sistemas estelares até hoje conhecidos pelo homem. “A radiação cósmica de fundo é uma coisa muito absorvente, os desafios são muito grandes”, explica o cientista, que estuda o processo de expansão do Universo e a energia escura. “Se não tivesse outra coisa para mudar o foco, eu ia ficar naquilo… não acho saudável. E a música foi sempre um balanço na minha vida.”

Pesquisador titular da Divisão de Astrofísica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e também coordenador do projeto Bingo, um dos mais inovadores radiotelescópios em construção no mundo, que está sendo construído no sertão da Paraíba, Wuensche desde pequeno se alimenta de música, muita música. “A música nunca me deu ‘insights’ (para a sua pesquisa). Mas ajuda a limpar a cabeça de outras coisas. A música deixa a minha mente livre para me debruçar sobre a física”, explica o cientista, que toca violão, viola e bandolim.

Com a esposa Tô Mendes, Wuensche criou o duo Conversa de Cordas, que se apresenta no encerramento de congressos científicos e algumas casas de cultura e livrarias em São José dos Campos, no Vale do Paraíba, um dos principais centros nervosos do Inpe. No repertório, arranjos para músicas de Dilermano Reis, Garoto, Heitor Villa-Lobos, Luis Melodia, Canhoto da Paraíba, Francisco Mignone, Waldir Azevedo, Pixinguinha, Jacob do Bandolim e Paulinho da Viola. E, ainda, música renascentista, com Francesco da Milano e John Dowland, e música impressionista, com Claude Debussy e Erik Satie.

To Mendes e Carlos Alexandre no Teatro Municipal de São João da Boa Vista

Wuensche e Tô Mendes no teatro de São João da Boa Vista. “A música deixa a minha mente livre para me debruçar sobre a física”

Maria Antonieta Sachs Mendes, a Tô Mendes, tem formação em educação artística e toca instrumentos como violões de nylon e aço, cavaquinho e banjo. “Ela é aposentada e a vida dela está mais tranquila do que a minha”, brinca o cientista, pai de duas filhas, uma economista e, a outra, jornalista. “A gente ensaia todo dia. Lemos bem música, fazemos ensaio de voz também, não só de instrumento. Conseguimos tocar uma hora e meia todo dia.” No primeiro semestre do ano passado, o duo fez uma apresentação por mês e, ainda, foi curador da Roda de Choro de São José dos Campos.

Wuensche nasceu no Rio de Janeiro. Aos oito anos, começou a estudar violão. “A música entrou na minha vida antes da astrofísica.” Os estudos começaram com um professor, mas Wuensche seguiu estudando sozinho, aprendendo de ouvido e com os amigos. Morou em Brasília na década de 1970 e viu nascer o embrião do famoso Clube do Choro. Na universidade, o estudo da física sempre era dosado ao estudo do violão. “Tem períodos que deixei de tocar, mas a maior parte do tempo estive envolvido com música.”

Quando entrou para o doutorado, na Universidade da Califórnia em Santa Bárbara (EUA), o violão viajou junto com o cientista, no início da década de 1990. Enquanto se aprofundava na radiação cósmica de fundo, conseguiu cursar violão no Departamento de Música como aluno ouvinte na mesma universidade, participando de aulas sobre história da música e se apresentando em recitais em duos, quartetos e solo. “Aproveitei para estudar violão também para manter a sanidade mental. E foi legal. Eu tinha estudado com gente boa, deu para acompanhar o nível dos alunos.”

Enquanto estima a energia escura e o ritmo de expansão do Universo nas ondas de rádio vindas do espaço, Wuensche faz da cultura na Terra uma das principais formas de expandir amor, paz e compreensão. A arte talvez complete o sentido daquilo que a ciência não consegue explicar. E, em ondas de rádio, também há radiação da Unidos de Vila Isabel: “Quem quer tocar o horizonte. E conhecer o que virá. Mergulhe fundo, o passado é a fonte. Quem nunca foi, jamais será. O fogo que arde na alma da gente. Aquece quem sente e faz proteger. Forja o sonho, ilumina a mente. Brilha no meu ser.”

 

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