Ian Nain

Universidade da Vida

Ian Nain encontrou em seu caminho flautas e alaúde que o colocam como um dos principais expoentes da Música Oriental feita no Brasil

Roger Marzochi, do entresons

O caminho que se trilha é mais importante do que o lugar onde se quer chegar. É esse o espírito primordial da vida. Aos 25 anos, o músico Ian Nain está quase na metade do percurso que escolheu, já colhendo frutos com os mundos que movem seu alaúde e suas flautas orientais. O grande conhecimento da cultura oriental e a habilidade que conquistou com esses instrumentos musicais, no entanto, não são reflexo do estudo formal em uma instituição de ensino ou universidade.

Apesar de ser este o caminho de muitos músicos, Nain e seu irmão, o percussionista Francisco Lobo, foram tutelados pelo pai, o maestro Mario Aphonso III, que no dia 28 de fevereiro foi condecorado com a Ordem do Mérito Cultural Maestro Carlos Gomes, comenda concedida pela Sociedade Brasileira de Artes, Cultura e Ensino. “É uma coisa muito intensa na minha vida”, diz Nain. “Nasci em um ambiente com muita música, com meus pais partilhando da música do Oriente Médio.” A mãe de Ian é a dançarina Yasmin Nammu, que hoje vive na Itália, país no qual Nain realizou diversos workshops, apresentações e entrevistas em janeiro deste ano.

A vida, assim como o mundo acadêmico, é cheia de provas. E, no próximo dia 24 de março, Nain se apresentará sozinho com o alaúde, tocando sua mais recente pesquisa musical: os movimentos clássicos dos compositores mais influentes da música otomana. Compositores como Tamburi Cemil Bey, Kemani Tatyos Efendi, Neyzen Aziz Dede, Refik Fersan (Tanburi), Zurnazen Ibrahim Aga, Göksel Baktagirl e Yorgo Bacanos.

“São arranjos que buscam um resgate de sua execução tradicional, trazendo à tona as principais características das formas musicais mais utilizadas no cancioneiro clássico otomano, como O Peşrev, Saz Semaisi, Longa, Sarki, Sirto e formas folclóricas com influências da Península Balcânica como karsilama e oyun havasi”, explica o multi-instrumentista. O evento contará ainda com uma palestra do músico sobre a história do alaúde e da evolução da música oriental. Palestra e apresentação serão realizadas no Estúdio Mawaca (Rua Inácio Borba 483, São Paulo), das 15h30 às 20h, com ingressos de R$ 20 a 40.

Mario Aphonso nunca forçou nada. Deixou a vida correndo, vendo o filho se apaixonar pelo rock ao ponto de querer comprar uma guitarra. “Fui fazendo o caminho… de se interessar pelo rock, depois música brasileira até chegar na música oriental.” Este, um passo sem volta. Conquistou seu primeiro alaúde aos 17 anos, chegando a receber algumas dicas sobre como tocá-lo do músico Jorge Aidamos, que gravou com Mário Aphonso o disco “Arabesque”, que projetou a carreira do multi-instrumentista capixaba no exterior. No entanto, Nain nunca teve aula formal. Aprendeu tocando junto com discos e integrando o Zikir Trio, grupo que reúne a família. O maestro ainda criou o Coletivo Tarab, centro de estudos da música oriental, do qual nasceram oito bandas, como Orkestra Bandida e TarabJazz.

“Se você está tocando e vivenciando isso intensamente, isso é muito importante na formação musical, mais que um estudo formal em uma universidade”, explica Nain. ”Eu tive muita sorte porque sempre convivi com músicos mais velhos que eu. Tive pessoas muito especiais que me ajudaram muito, como meu próprio pai, um grande mestre e farol que me forneceu muito material, livros e partituras. Por ser autodidata e gosto do que eu faço, eu passei quatro anos mergulhado em livros e material de pesquisa.”

Ian Nain na Rádio de Bologna

Ian Nain concedeu entrevista à Radio Città del Capo, de Bologna, em janeiro de 2018

Como já tocava a flauta nay, Nain conhecia os maqans, tipo de escalas melódicas usadas no oriente. Isso facilitou bastante a vida do jovem aprendiz no alaúde. O que sempre impressionou o músico é a relação dos maqans com estados de espírito. “Ele é uma invocação a uma sonoridade e caminho melódico concebido e criado que visava a harmonização do ser humano. Cada um dos maqans carregam não apenas sabores, temperos, mas também funções neurológicas. Instambul (Turquia) é um dos berços da musicoterapia.”

Em janeiro, Nain teve uma grande experiência se apresentando na Itália. Realizou shows e workshops em cidades como Bologna, Roma e Gravedona. O músico foi, inclusive, convidado pelo etnomusicólogo Vladimiro Cantaluppi para participar do programa Etnochic RCdC, da Radio Città del Capo, de Bologna. Na entrevista, Nain pôde tocar nay e alaúde, contando sua história na música e apresentando aos ouvintes a experiência da música oriental que se vivencia no Brasil. “E, fora isso, tive oportunidade de tocar com músicos locais, com Fabio e Diego Resta, que são etnomusicólogos especializados em música otomana.” Nain não despreza a universidade, longe disso. Ele ainda pretende se aprofundar em estudos de musicologia, para conhecer mais sobre cultura e história. Mas o caminho que ele segue na música, desde sempre, é o da Universidade da Vida, em sua mais ampla diversidade e respeito.

 

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