Ulisses Rocha

Renascimento

De volta ao Brasil, violonista Ulisses Rocha lança novo CD, inaugurando uma fase de dar vazão à música por meio de belos arranjos

Roger Marzochi, do entresons

A forma como reagimos às barreiras impostas pela vida faz toda a diferença. Há 20 anos, o violonista Ulisses Rocha sofre com o avanço de uma tendinite que, progressivamente, prejudica o seu desempenho técnico no instrumento. Esse foi um dos motivos que o levou a compor as músicas de “Só”, disco de 2011, um trabalho de uma espiritualidade elevada, que prescinde o virtuosismo. Após cinco anos trabalhando como professor convidado da Universidade da Flórida, Rocha está de volta ao Brasil. Deixou o ruído de São Paulo para morar junta às ondas do mar, em Ilha Bela. E acaba de lançar sua mais nova resposta às dificuldades técnicas que o corpo lhe impõe: “o quinteto”, CD no qual Rocha não está mais só (e nunca esteve). Mas, agora, tem ainda os companheiros Ivan Vilela (viola caipira), Raiff Dantas Barreto (cello), Walmir Gil (trompete e flugelhorn) e Vitor Loureiro (baixo).

“Eu estou amadurecendo. Isso é um pouquinho brando… Eu estou sentindo meu corpo ficar mais cansado, tenho problema de tendinite frequente”, explica o músico de sua casa na praia, em entrevista por telefone. “É uma coisa que me causa limite técnico. E isso estava me angustiando muito. Não consigo tocar algumas coisas com a mesma facilidade que antigamente. E esse processo tende se acentuar.” Refletindo sobre esse desafio, Rocha obteve uma resposta do Universo no ano passado, quando ainda estava nos Estados Unidos: levar a sua musicalidade para a arte do arranjo, tirando a “obrigatoriedade técnica ligada ao virtuosismo” e ligar o seu som em outra dimensão. Em parte, isso já havia acontecido em “Só”, um disco profundamente inspirador de violão solo.

E, nesse processo, Rocha se lembrou de um disco que havia sido gravado como brinde em 2009, distribuído aos participantes de um congresso do Instituto Brasileiro do Direito do Seguro (IBDS). Esse trabalho, como muitos outros de Rocha, tem o apoio do advogado Ernesto Tzirulnik, que também apoia outros músicos. De tal forma, que foi até criado um selo: Projeto Ceará 202, com uns 15 CDs lançados, incluindo o agora “o quinteto”. O nome do projeto tem referência ao endereço do escritório do advogado, situado no Pacaembu. O escritório é abrigado na casa que foi do arquiteto Jayme Campello Fonseca Rodrigues (1905–1946), conhecido como “criador de atmosferas”. É desta forma que se refere ao arquiteto Hugo Segawa, autor do livro “Jayme C. Fonseca Rodrigues – Arquiteto”, de acordo com reportagem do jornal O Estado de S.Paulo. A casa foi recém integrada à Iconic Houses, rede internacional que conecta casas do Século XX significativas para arquitetura abertas ao público como museus. “Ele (Tzirulnik) promove eventos do seguro e gosta de usar arte em geral para oferecer para os clientes dele de brinde. E nesse evento foi onde ele tinha vontade de fazer um trabalho em torno de músicas que tivessem um contexto de letra ligado a ideias bucólicas, ao mato e à natureza”, diz Rocha.

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Desde “Só”, disco de 2011, Ulisses Rocha tem provado que não é preciso ser um virtuoso para se chegar ao coração dos ouvintes. Agora, o músico investe toda a sua sensibilidade em arranjos inspiradores

Além de resgatar a obra realizando a remasterização do trabalho, outras três músicas foram acrescentadas ao CD, totalizando dez composições aparentemente ecléticas. Há desde “A Lua Girou” e “Morro Velho” (Milton Nascimento) a músicas como “Blackbird” (Lennon e McCartney), “Gracias a la Vida” (Violeta Parra), “Trenzinho Caipira” (Heitor Villa Lobos) e até “Menino da Porteira” (Teddy Vieira e Luizinho) e uma música autoral de Rocha, “Mel”. Apesar de estilos tão diferentes, os arranjos de Rocha apresentam essas obras de uma forma moderna, muito bem temperadas pelas bases, entrelaçadas por viola, vilão e violoncelo, sobrevoando o oceano nos sopros de Walmir Gil.

Voltar para os Estados Unidos, nem pensar. “Eu confesso que tinha gostado de ficar lá, mas estou vivendo outros momentos no Brasil, devo ficar agora aqui. Começaram a surgir novos projetos e ficar aqui vai ser bacana”, diz o músico, que afirma que os borrachudos da ilha atacam apenas os turistas. “A gente aprende a lidar com eles, sabendo que horas eles atacam e o tipo de repelente usar. Eles preferem turistas.”

E, mesmo no Brasil, isso não o impede de viajar o mundo. Há dez anos, Rocha realiza turnês pela Europa. Ele possui um público cativo especialmente na Bélgica, onde realizou shows com o trompetista Sam Vloemans, multi-instrumentista acalmado naquele país. Ambos, aliás, foram entrevistados pela TV estatal belga. E, ao longo deste ano, ainda deverão gravar um CD juntos. Durante a sua última turnê, Rocha ainda tive uma experiência incrível na Alemanha. Ele recebeu o convite de Michael Fetcher,  dono do Flavored Tune, dedico à gravação de composições de forma analógica, para gravar um disco em vinil.

A gravação foi realizada em uma casa projetada especialmente para que todos os cômodos sejam pequenos estúdios de gravação, incluindo o banheiro. O músico conta essa experiência e suas impressões entre o analógico e digital em seu blog. Rocha regravou composições autorais em violão solo. O vinil, que será batizado de “White Woods”, será lançado em três meses em toda a Europa. Desde “Só”, Rocha tem demonstrado que transmitir emoções é muito mais importante que o ego acelerado de notas encadeadas em velocidades incandescentes. O mundo pede calma, reflexão, mais amor e compaixão. E isso a música de Ulisses Rocha, só ou muito mais que acompanhado, tem de sobra.

 

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