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Nas asas de Ícaro

Peça de Luís Alberto de Abreu, encenada por grupo de teatro amador de Americana, reflete os desafios da adolescência agravados pela exclusão social

Roger Marzochi, do entresons

Os dramas da adolescência, aprofundados pela miséria provocada pela extrema exclusão social, são abordados em profundidade na peça “O Primeiro Voo de Ícaro”, do dramaturgo Luís Alberto de Abreu. A obra foi encenada em estreia no sábado, dia 21 de abril, no Teatro Lulu Benencase, em Americana (SP), pelo Manada Grupo de Teatro. Os sete atores são, em sua maioria, educadores próximos dos 20 anos, que agora iniciam o caminho da profissionalização nas artes cênicas. Essa relação com a pedagogia pode ter ajudado com texto, no qual Abreu buscou inspiração na mitologia grega de Ícaro para contar a história de alunos de uma escola pública na periferia de qualquer cidade brasileira.

As 307 pessoas que estiveram presentes no teatro, que tem capacidade para 779 espectadores, foram do riso às lágrimas, recebendo uma semente de reflexão sobre uma imagem muito real que a sociedade brasileira prefere ignorar. Com o uso de música ao vivo, com base em instrumentos como a voz, o corpo, violão e violoncelo, esses atores provaram que novos voos virão. Em julho, o grupo levará a peça a Descalvado; e outras apresentações devem ser realizadas no espaço cultural Fábrica das Artes, em Americana. A direção da peça foi de Andréia Barros, atriz da Companhia Teatro da Cidade, de São José dos Campos, e professora do Teatro Escola Macunaíma, em São Paulo. O trabalho contou ainda com assistência de direção de Fábio Gianfratti, com direção musical de Beto Quadros.

Na mitologia grega, Ícaro é filho de Dédalo, engenheiro inventivo que criou o labirinto do Minotauro, na Ilha de Creta. Mas, por ter ajudado Teseu a fugir do labirinto após enfrentar o ser que era meio homem e meio touro, o Rei Minos enviou Dédalo e seu filho Ícaro para o confinamento no labirinto. Como Minos dominava terra e mar, Dédalo decidiu fugir voando. Com as penas dos pássaros que caiam no chão, ele construiu dois pares de asas, coladas com cera de abelhas. Ele, porém, alertou o filho: não deveria voar tão próximo do sol, ao ponto de derreter a cera; nem tão próximo do mar, pois a umidade encharcaria as asas. Ao conquistar o céu, Ícaro se encantou com o brilho do Sol e, esquecendo-se do alerta do pai, subiu em sua direção. A cera derreteu, as penas se soltaram e Ícaro morreu afogado no mar.

Na peça, Abreu faz de Dédalo um professor e, das asas, o conhecimento. A partir do relato do professor, as histórias dos alunos são apresentadas, explorando o estilo narrativo, no qual, na maioria das vezes, o ator interpreta voltado para a plateia, com pouca triangulação com outros personagens. Há diversas interpretações sobre essa mitologia. Abreu, em um texto criado há dez anos, torna Ícaro uma espécie de alerta para toda a sociedade.

Para o ator e professor de teatro Walfredo Soares do Nascimento, com pouco tempo de existência o grupo Manada demonstrou muita garra em falar de tempos muito atuais, com um professor que orienta os alunos, a luta pela liberdade e a injustiça social. “Isso está impregnado também no cenário, com alguns dizeres superalinhados com o tempo que estamos vivendo: de cerceamento de liberdade de imprensa, de defesa, da livre expressão. A liberdade de expressão é uma mentira, assim como a liberdade de ir e vir, que depende de quanto você paga. É preciso pagar pedágio”, afirma.

Voo Ícaro

Manada Grupo de Teatro apresentará a peça em julho na cidade de Descalvado, no interior de São Paulo. O grupo também busca inserir a peça em projetos do Proac.

Em sua avaliação, a estreia foi o “primeiro voo” do grupo, que tem uma longa estrada pela frente. Com carinho especial, uma vez que dois dos integrantes do Manada foram seus alunos de teatro quando crianças no CIEP São Vito e em uma instituição presbiteriana, Nascimento faz uma avaliação crítica da peça. “Eu vejo alguma timidez na expressão. Às vezes, timidez no gesto, insegurança entre terminar uma cena e começar outra. A peça está bem dirigida e bem marcada, mas eles ainda estão presos às marcações e ao texto, que tem medo de largar, como é próprio de estreia.”

O elenco, formado por Bruno Queiroz, Denis Espanhol, Carlos Nascimento, Gabriel Mazon, Luan Alves, Maiara Briochi e Renata Hortense, foi capaz de emocionar o público com dramas como o assassinato de um aluno que entrou para tráfico, o abuso sexual de uma garota, abandono e falta de dinheiro até para enterrar a mãe, a pressão moralista e exacerbada dos pais sobre o filho, o poder do chefão do tráfico do bairro, a exploração do trabalho. Como nem de tristeza vive o povo, há também cenas sobre a descoberta do amor, da felicidade das coisas simples, música e comemoração.

Potencial - A diretora Andréia Barros conheceu o grupo Manada em 2016, por meio do Projeto Ademar Guerra, que financia em São Paulo a tutoria de grupos de teatro no Estado. Mesmo após o fim do projeto, a atriz e educadora manteve os vínculos com o Manada, por acreditar no potencial dos atores. E, mesmo sem apoio, a atriz se comprometeu a ir para Americana todo fim de semana para aprimorar a atuação do grupo nesse texto do Abreu, autor com o qual trabalhou em São José dos Campos em pelo menos duas oportunidades. “É um grupo com muito potencial. Isso foi o que me instigou a ir para Americana, com todas as dificuldades.” Com ela, vieram também Beto Quadros, responsável pela direção musical, e Claudio Mendel, diretor da Cia Teatro da Cidade, que participou dos ensaios e da iluminação na estreia.

Além de aprofundar o estilo narrativo da peça de Abreu, Andréia incentivou o grupo a explorar a música, algo muito intuitivo do grupo. Gabriel Mazon é músico, toca violoncelo, violão e piano; Luan Alves toca violão; Denis Espanhol está estudando violino; e Bruno Queiroz canta muito bem. “O Beto finalizou a direção musical, mas o grupo já havia criado muita coisa, os instrumentos, a percussão corporal e a voz.” Mazon também é o único do grupo que possui registro de ator, o DRT. O grupo, aliás, divulgou no início da peça um manifesto em defesa do registro profissional, ameaçado por um processo em análise no Supremo Tribunal Federal. Luan Alves, por exemplo, está batalhando para cursar artes cênicas na Unicamp. “Se todos eles batalharem legal, vai ser um grupo profissional que pode surgir no interior de São Paulo. E Americana é uma cidade que carece disso.”

 

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