Bruno Firmino

“A benção, vô!”

A história do caminhoneiro percussionista de Alagoas, que viu uma vez só na vida o avô, o músico Natalício Santos, o Trovador do Norte

Roger Marzochi, do entresons; Crédito da foto - selfie de Bruno Firmino com seu caminhão em Vila Garça Branca, na Serra de Petrovina, no Mato Grosso

“A benção, vô!” Bruno Firmino disse isso apertando firme as mãos do avô, o cantor Natalício Santos, conhecido como Trovador do Norte. Bruno tinha apenas 15 anos e se encontrava com o músico pela primeira vez na vida. Ouvia muito as histórias do velho, que lançou dois discos de forró pé-de-serra. Em sites de venda pela internet, como no Mercado Livre, um dos bolachões chega a valer R$ 1,2 mil. “Peguei na mão dele, isso ficou gravado na minha memória. Ele me olhou e disse: ‘Quem é esse?’ Era tanto filho e neto – só com a minha avó ele teve 20 filhos, fora os que ele tem por aí. Foi uma emoção muito grande”, lembra Bruno, em entrevista no dia 27 de março de 2018, em uma espera de 21 horas para descarregar o caminhão de farelo de soja no terminal rodoferroviário da Rumo Logística, na cidade de Alto Araguaia, no Mato Grosso.

A entrevista com Bruno foi possível devido ao Caminhos da Safra, projeto da revista Globo Rural para mostrar o escoamento da produção agrícola do campo até portos, ferrovias, rodovias e hidrovias. No segundo percurso da série, trabalhei como repórter free-lancer para o projeto. Junto com o repórter fotográfico Fernando Martinho e os instrutores de direção da Scania Aylon José dos Santos e Juarez Reis Ferri percorremos 2.030 quilômetros de Cuiabá a Santos, contando com a volta a São Paulo. Com a permissão da publicação, a história de Bruno está sendo contada pelo entresons. A edição de maio da revista Globo Rural está chegando às bancas de São Paulo neste fim de semana com as reportagens do projeto. Em uma banca da Lapa, a revista já está à venda.

Natalício Santos Trovador do Norte Youtube

Natalício Santos, o Trovador do Norte, nasceu em Traipú, em Alagoas. Lançou dois LPs, correu por Rio e São Paulo, onde morou em Ferraz de Vasconcelos nos últimos dias de sua vida

Bruno nasceu em Arapiraca, no agreste alagoano. De acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2015, apenas 17,6% da população tinha trabalho formal na cidade, com uma renda média mensal de 1,6 salário mínimo. O forte é a agricultura, especialmente fumo, cuja plantação vai de maio a junho. Há também plantações de feijão e mandioca. Graças ao Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti), do Ministério do Desenvolvimento Social, Bruno pode estudar até completar o Ensino Médio. Os pais trabalhavam, mas o projeto ajudou a evitar que ele começasse cedo na lavoura. Em Vila Bananeiras, no povoado onde morava, a fumicultura é forte. “Esse projeto Peti ajudou bastante.”

A partir dos 13 anos, Bruno começou a viajar com seu Joal, irmão do seu pai Itamar. Joal comprara um caminhão que hoje é conhecido entre os caminhoneiros como Muriçoca, um 1113, da Mercedes-Benz. Hoje, Bruno dirige uma carreta Scania G-420 Bitrem. “Prá quem começou debaixo num 1113 de 1973, esse caminhão agora é um luxo.” À época, Joal carregava produtos de PVC produzidos na região de Arapiraca para destinos como a Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais. Nas férias da escola, Bruno seguia em frente com o tio, apaixonando-se pela profissão rapidamente. E o outro lado bom é que durante as viagens ficava afastado da irmã Alice, um pouco mais nova que ele, que tinham brigas juvenis. Mas e o avô? Sempre ausente. Seu Itamar, que guarda com carinho os LPs do pai (Trovador do Norte e Forró em Traipú), dizia a Bruno que seu Natalício viajava muito, vivia entre Rio de Janeiro e São Paulo.

Bruno ouvia os discos e sentiu um gosto pela música também. Na casa de amigos, que tocavam violão e cavaquinho, Bruno sacava uns baldes ou tambores para acompanhar. Não por acaso, gosta de Hermeto Pascoal, por conseguir fazer som com de qualquer utensílio. E, ainda mais, porque o bruxo albino nasceu em Lagoa da Canoa, município vizinho de Arapiraca. Em 1984, Hermeto gravou até um disco em homenagem à cidade. Esse gosto musical faz do rapaz, hoje com 28 anos, uma raridade entre a maioria da população e dos companheiros de estrada. “O pessoal não curte muito cultura. Eu já escutei o som dele, ele tira som de qualquer coisa.”

Quando começaram a aparecer viagens para São Paulo, Bruno ficou curioso em ver o avô. Joal ficara sabendo que o velho mestre do forró havia criado raízes em Ferraz de Vasconcelos, na grande São Paulo. E, em um dos serviços, ambos conseguiram visitar seu Natalício. Bruno pediu até para o avô voltar a Arapiraca, mas o músico afirmou que para lá nunca mais iria. Bruno avalia que o músico passava por dificuldades financeiras após viver um período de bonança e teria vergonha de voltar à cidade na situação que se encontrava. “Ele era também poeta, tinha até livro de poesia.” Pouco tempo depois desse encontro, Natalício morreu. A família em Arapiraca não sabe mais nada sobre a história do músico.

“Com o título de ‘O Trovador do Norte’ este LP reúne entre os diversos ritmos nordestino como: coco, baião, arrasta-pé, forró e rojão,  além de uma excelente interpretação com um acompanhamento nota dez, mas que infelizmente, por deficiência do mercado fonográfico, não tem ficha técnica, pois só assim poderíamos conhecer melhor quais os músicos que participaram deste trabalho, que aliás é de excelente qualidade, além de mostra o valor de Natalício como compositor, pois todas as composições são de sua autoria e cada uma melhor que a outra”, afirma José Lessa, em resenha do LP no site Forró Alagoano. O entresons buscou contato com Lessa, mas ele não respondeu até o momento. O músico, no entanto, não é lembrado no Sudeste e Centro-Oeste. A Secretaria de Cultura de Ferraz de Vasconcelos desconhece a história do Trovador do Norte. Cacai Nunes, violeiro e pesquisador de forró de Brasília, que mantém o projeto Acervo Origens – Sons que Tocam o Brasil, também nunca ouviu falar do alagoano, nascido em Traipú, às margens do Rio São Francisco.

Há dois anos, Bruno se mudou com a esposa e uma filha pequena para Nova Mutum, no Mato Grosso. De Nova Mutum, cidade na qual ele carrega o farelo de soja, até Alto Araguaia são 704 quilômetros, numa estrada muito perigosa até Cuiabá. “Trazer soja pelas BRs 163 e 364 é difícil, as estradas estão péssimas. Com tantos impostos que o governo arrecada a situação é lamentável”, diz o caminhoneiro. “Não enxergam que é através do caminhão que se cria riqueza do País.”

São Paulo, Brasil 02-04-2018 Viagem de Cuiabá, MT até Santos, SP. Fotos Fernando Martinho.

Entrevista com Bruno Firmino, em bar ao lado da fila de caminhões para descarga no terminal rodoferroviário da Rumo Logística em Alto Araguaia (MT). Crédito da foto: Fernando Martinho

A espera, de 21 horas para descarregar, também é um martírio. Em um bar improvisado de madeira, Bruno cumpria sua longa espera e tinha esperança de descarregar o produto até meia noite. “A gente fica amarrado. A gente não tem culpa se está faltando trem. Se não fizer, não tem salário.” Douglas Cunha, gerente da Rumo Logística, nega que haja falta de trem. O desembarque é feito em janelas de um dia na unidade de Alto Araguaia, para evitar filas que chegaram a 80 quilômetros na BR 364, em 2011. “Há um problema cultural”, diz Cunha. “Para carregar, o motorista precisa exigir o agendamento da carga. E o produtor precisa carregar porque precisa desovar o silo dele. O caminhão vira armazém.”

Enquanto espera a fila para descarregar, pensa na vida. A esposa e a filha já retornaram para Arapiraca, pois não se adaptaram ao Mato Grosso. Para enfrentar os desafios do Estado e fortalecer sua fé, começou a frequentar uma igreja evangélica em Nova Mutum, apegando-se às palavras que lê na Bíblia e o desejo de uma vida melhor. Ele sente nas veias a música, tem isso no sangue. Mas, diferentemente de Hermeto, nunca tocou um instrumento de percussão tradicional. O que não significa que não seja músico. “Eu tirava som em casa com o vizinho mesmo, com violão, cavaquinho, pegava uns baldes e tambor. Aprendi alguma coisa nos clubes. E não toco em igreja, não cheguei a ter essa oportunidade. Seria um prazer se chegasse. Fazia isso só naquelas cachaçadas. Mas agora não bebo mais, estou sossegado.”

 

*Como músico aprendiz, escrever sobre artistas, sejam profissionais ou amadores, é um grande prazer. Mas é, também, uma profissão: o jornalismo. Assim como os grandes jornais e revistas, o entresons busca formas alternativas para sobreviver e lançou uma campanha de financiamento coletivo recorrente para manter seu acervo de cinco anos e realizar novas matérias. Conheça a história do blog e como colaborar clicando aqui.

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