Sidemberg Rodrigues e o Beija Flor1

Nas asas de um mistério

Capixaba defensor da sustentabilidade atrai pássaros ao seu corpo e consegue ter uma especial relação até com peixes

Roger Marzochi, do entresons

Um filhote de passarinho estava pendurado no ninho, no alto do prédio da escola em que eu estudava, em 1979, em Americana (SP). Com ajuda de amigos, reunimos um punhado de folhas, acreditando que essa cama verde impediria que o despenado animal se machucasse na iminente queda. O sinal tocou, mas não queria ficar longe daquele bicho. Com o coração apertado, beirando o desespero, deixei-o nas mãos do destino. Além do carinho que sempre tive com animais, essa criatura representava o sonho de tocar as nuvens. Meus pais diziam que eu estava afundando o sofá da última casa em que eles viveram antes da separação, pois a cada salto que eu dava no móvel, acreditava fielmente que aprenderia a voar. Fazia dos braços asas da imaginação.

Em meados da década de 1970, uma outra criança iniciava uma nova e fantástica relação com os pássaros. Em Muqui, a 172 quilômetros de Vitória (ES), Sidemberg Rodrigues contraiu uma forte alergia nos olhos, que só na década de 1980 se descobriu que era uma reação ao pólen durante a primavera. Os olhos ardiam e as pálpebras se fechavam. Com a visão debilitada, ele começou a sentir pássaros pousando em seu ombro, em suas costas e até em sua mão. O que poderia ser o desejo de muita criança, era visto como desgraça para o garoto. “Eu odiava os pássaros pousando em mim”, diz Rodrigues, membro honorário da Academia Brasileira de Direitos Humanos e ex-gerente de comunicação e sustentabilidade da ArcelorMittal Tubarão.

Sidemberg Rodrigues e Karel Frans van den Bergen Imagem do Instagram

Sidemberg Rodrigues (esq.) e o filósofo Karel Frans van den Bergen, inspiradora da sustentabilidade em seis dimensões

Influenciado pelo filósofo Karel Frans van den Bergen, Rodrigues liderou a implantação na companhia do conceito de sustentabilidade em seis dimensões, levando em consideração as iniciativas nas esferas ambiental, econômica, social, cultural, política e – a mais controversa – espiritual. Este último aspecto é defendido pelo ex-executivo sem conotação religiosa, sempre relacionado à necessidade de se firmar no indivíduo um sentimento de pertencimento e transcendência. Católico, com uma queda pelo Budismo, Rodrigues relatou em livros possuir mediunidade, que o permite conversar com espíritos, até mesmo de familiares já falecidos de seus ex-companheiros de trabalho.

Some-te daqui! – Essa controversa figura, que viveu no coração de aço do capitalismo, é ainda poeta, escritor, escultor, pianista e espiritualista. Aposentado desde o ano passado, hoje ele realiza palestras pelo País em defesa da espiritualidade e da transcendência, até mesmo no meio empresarial. “Eu já me sentia estranho por ser adolescente e ainda os pássaros pousavam em mim. Os meninos faziam chacota comigo.” A situação é bem diferente, mas faz lembrar Vinicius de Moraes: “Para que vieste / Na minha janela / Meter o nariz? / Se foi um por um verso / Não sou mais poeta / Ando tão feliz! / Se é para uma prosa / Não sou Anchieta / Nem venho de Assis / Deixa-te de histórias / Some-te daqui!”, diz em versos o poeta, cantor e compositor em “A um passarinho”.

Curado dos olhos, o rapaz começou a se encantar com essa cumplicidade com os pássaros. E, ainda, descobriu que de alguma forma se comunica até com peixes. Quando se mudou para Vitória, as visitas dos passarinhos ocorriam com menor frequência. Mas ainda aconteciam, até mesmo em Luxemburgo, durante uma viagem a trabalho na Europa. O vai e vem de penas cresceu quando comprou um sítio na região de Vitória. Jacutingas pousam em seu piano e beija-flores chegam até a sua mão. “Eu não consigo controlar”, afirma. Rodrigues acredita que essa relação nasceu pelo fato de ter uma natureza compassiva. “Eu nunca fui ligado a esporte por problema na vista. Ficava verão e primavera sem ver. Nem sei como fui alfabetizado. Mas eu tinha natureza de altruísmo, de gratuidade, de fazer pelo outro. O cachorro levava pedrada, eu ia lá e cuidava do bicho.”

Essa relação com os pássaros também faz lembrar do ambientalista e cientista capixaba Augusto Ruschi, que no dia 3 de junho completam-se 32 anos de sua morte. Além da ciência, ele deu grande contribuição aos saberes dos povos da floresta, ao pedir ajuda a pajés para ser curado de um veneno de sapo. Ruschi amava beija-flores, abundantes na mata próxima à sua casa, em Santa Teresa (ES). Ele descreveu cinco espécies e 11 subespécies desses pássaros e foi imortalizado em uma foto de Ricardo Azoury, na qual um beija-flor beija a boca do cientista. Há, inclusive, uma estátua retratando essa imagem na capital do Estado chamada de “O Beijo”. “Ele teve um capricho maior com beija-flores”, explica Gabriel Ruschi, ambientalista, neto do “cientista dos beija-flores” e diretor da Estação de Biologia Marinha Augusto Ruschi, uma escola de ecologia criada por Augusto dedicada à educação e o meio ambiente. “Ele alimentava os beija-flores que, mesmo em campo aberto, pareciam domesticados por ele”, diz Gabriel, em entrevista ao entresons.

Sidemberg Rodrigues e o Beija Flor2

Certa vez, estava tocando piano quando um beija-flor pousou nas teclas. Ele o pegou nas mãos, trouxe-o próximo da boca, pedindo para que o pássaro enviasse uma boa mensagem para uma amiga, que sofria com um câncer terminal. (Imagens retiradas de vídeo postado no Instagram do entrevistado)

Mensagens – Rodrigues acredita que, muitas vezes, que os pássaros transmitem mensagens. Certa vez, estava tocando piano quando um beija-flor pousou nas teclas. Ele o pegou nas mãos, trouxe-o próximo da boca, pedindo para que o pássaro enviasse uma boa mensagem para uma amiga, que sofria com um câncer terminal. “No período em que tive uma depressão foi o momento que mais pássaro vinha. Pousavam na minha perna, no meu ombro, acho que tentando me animar.”

Seriam feromônios de seu corpo que exerceriam tal atração? Ele acha que não. Em recente viagem à Bahia, ele estava mergulhando na Praia do Forte e viu peixes num coral. A sua intuição o levou a colocar uma pedrinha sobre o coral e, depois, apontar o dedo para o peixe. E não é que o peixe cutucou a pedra para fora daquela plataforma, como num jogo de futebol? E não foi apenas uma vez, várias vezes. “Eu acho que é o meu desejo de ver todo mudo bem. Compaixão, ser capaz de estar no lugar do outro para o outro não sofrer, identificar-se com a dor do outro, sem ter nada em troca. Fazer algo pelo bem. Isso deve dar para a gente um tipo de energia que causa confiança nos animais.”

As experiências com os pássaros e até com o peixe estão documentadas, compartilhadas em redes sociais, acompanhadas muitas vezes de frases positivas. O número de seguidores caiu, diz ele, após a sua aposentadoria, no ano passado. “Há ainda quem se apegue ao cargo”, explica. Mas seu ímpeto com essa iniciativa é mostrar que a vida é mágica. “Estamos vendo as estrelas, o sol e a lua? É muita ansiedade, muita doença, muito sofrimento evitável, por isso que faço questão de mostrar.” Mesmo quando não acreditam, achando que ele deu comida para o peixe ou que tenha treinado um beija-flor, Rodrigues aposta que essas imagens despertem sonhos nas pessoas. “Quero tirar as pessoas da briga política. Crítica e acusação não levam a nada. É tempo de beleza, razão e transcendência.”

Fabio Caramuru - Foto Casa Florália (1) MR

O pianista Fábio Caramuru, que lançou em 15 de abril de 2018, na Sala São Paulo, o CD “Ecomúsicas – Aves”, inspirado em cantos de aves japonesas.

Meu sofá ainda é esburacado, agora é meu filho quem nele pula. Mas hoje consigo entender aqueles meus antigos saltos, que me vem à memória como garoa. Frases simples e imagens compartilhadas por Rodrigues nas redes sociais se somam a gente como o pianista Fábio Caramuru, que lançou em 15 de abril, na Sala São Paulo, o CD “Ecomúsicas – Aves”, inspirado em cantos de aves japonesas. Desde 2015, o artista tem se inspirado na ecologia em suas composições, lançando neste ano “EcoMúsica – Conversas de um piano com a fauna brasileira”, um diálogo entre seu piano e os sons de aves. O trabalho atual foi realizado após o músico passar um período no Japão. “É, sim, meu sincero tributo à incrível cultura japonesa”, diz, em texto de divulgação. Mesmo que você não tenha esse dom de comunicação com pássaros e peixes, é na fruição cultural que é possível ampliar a sua sensibilidade e seu autoconhecimento. São poesia, literatura, teatro, música e dança o material do qual é feito a cera que grudam as penas das asas da sociedade, esse imenso Ícaro prestes a se esfacelar rumo às estrelas. Há, ainda, muitos mistérios em plena Terra.

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