SOM D'LUNA - NESSE TREM 3

“Nesse Trem” a vida é boa

Irmãos Luna dão a volta por cima dos perrengues arretados desse mundaréu para lançar luz sobre a existência em seu disco de estreia

Roger Marzochi, do entresons; na foto de divulgação, Diogo Luna (esq.) e Vitor Luna 

Os trens desenhados na capa do CD “Nesse Trem”, trabalho de estreia do grupo paraibano Som D’Luna, desafiam a gravidade. Eles rodam deitados em paredes de cubos, sobem morros em 90 graus, atravessam casas, divisando em seu horizonte o sol e a lua. A ideia foi fazer desse modo de transporte, tão maltratado no Brasil, uma metáfora da vida. “O trem passeia pelos cubos sem direção certa, sem gravidade. Isso é para simbolizar a vida da gente, que não tem uma direção certa. O que podemos fazer são escolhas”, explica Vitor Luna. Ele e o irmão gêmeo Diogo, acompanhados de uma excelente banda e produtor, conseguiram criar um CD com 11 músicas que irradiam poesia e otimismo, numa visão pró-ativa desse nosso trilho de cada dia. “A gente sempre diz que o intuito é ser um disco otimista, de levar boas energias para quem o escuta. ‘Que o som te leve a bons lugares’, essa é a dedicatória que faço em todos os discos que autografo. E isso é muito sincero.” Os cubos da capa também representam o ofício daquele que constrói a sua realidade, que transforma o seu mundo. Mas, para chegar a esse resultado, os irmãos Luna viram o “trem” quase virar de cabeça prá baixo. Não é coisa de mineiro! Calma lá! E se você chegou a ler até esse ponto, prepare-se porque o trem está partindo!

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Parece Minecraft, mas não tem nada a ver com videogame: os cubos representam a capacidade construtiva do ser humano

A viagem começou no bairro Mangabeira, em João Pessoa, considerado o maior da capital, com 76 mil moradores. Há 20 anos, correu pelas escolas da região o ensino de flauta doce. De repente, a criançada do bairro surgiu na rua assoprando essa bendita. A febre desse instrumento chegou aos irmãos Luna, que até bem próximo da adolescência se vestiam igualzinhos, como par de jarro, como se diz na Paraíba. Esses moleques assopravam o cano furado direto, sem piedade. Tinham uma guitarrinha de plástico para fazer o som ficar completo. Até que começaram a tirar algumas músicas, de verdade. Isso deixou o seu Herbert, pai dessas crianças, fã de carteirinha de Zé Ramalho e João Bosco, orgulhoso e decidido. Ambos foram estudar violão na Escola de Música Anthenor Navarro (Eman), criada em 1931 pelo maestro Gazzi de Sá (1901 – 1981). Quando haviam criado intimidade com a teoria musical, tiveram que parar o curso por conflito de horários com a escola tradicional.

Mas a semente, plantada, germinou. Ao voltarem da escola, nada de videogame: pegavam o violão para tocar as gravações de seus artistas preferidos. Além de Zé Ramalho e João Bosco, os já adolescentes irmãos Luna se deleitavam aos sons de Lenine. Aulas de harmonia com o professor Leo Porto e, aos 18 anos, nasciam as primeiras composições e shows em bares da região e festas de casamento. A fama da dupla, no entanto, gerou decepções. Um produtor iludiu os garotos a gravarem um disco em Portugal, um fiasco que só não foi completo porque eles chegaram a fazer algumas apresentações no país. Mas voltaram ao Brasil desiludidos, mas com a decisão de gravar de qualquer jeito. Fizeram um EP, com sete músicas, gravadas no quarto dos meninos, com o equipamento que tinham à mão.

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Irmãos Luna produziram a arte de capa do CD, na qual trens desafiam a gravidade em uma metáfora da vida

Foi essa produção rústica, mas de profundidade, que colocou a dupla nos trilhos novamente. Com ajuda de um financiamento coletivo, o sonho pode ser concluído. Três músicas do EP estão no “Nesse Trem”: “Todo dia”, um samba swingado para fazer qualquer um levantar da cama e viver o melhor do dia; “De lá de longe” (letra com participação de Vanessa Carvalho), que exalta a magia do ser músico (“que o segredo oculto de cada nota é lindo ao meu pensar, vou cantar”); e “Nesse Trem”, com arranjos de metais com a participação do produtor Jader Finamore, nos sopros de Joab Andrade (saxofone), Emanoel Barros (trompete) e Sabiano Araújo (trombone). E, não apenas nesta música, o baixista Ítalo Viana faz uns grooves generosos, sempre. E o arranjo de metais se estende, como em “Sempre a Dois”, com um solo quente de Joab. Irmãos Luna se somam em vocais, violões e guitarras. “Nordeste Vivo” é outra música incrível, escrita em acróstico. O grupo espera realizar shows no Rio de em São Paulo, mas ainda sem previsão. “Esse disco é muito importante. Eu sei que está entre os maiores de clichês dizer isso, mas é uma conquista de verdade. Nós sabíamos como gravar um disco. E, agora, nós conseguimos!”

 

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