RUMBO TUMBA - PHWEB

Mais vivo a cada segundo

Rumbo Tumba, grupo argentino de um homem só, lança seu terceiro disco com a fusão instrumental entre as músicas andina e eletrônica

Roger Marzochi, do entresons

A única certeza que temos na vida é a morte. Já que todos nós teremos o mesmo fim, por que não estar desperto para a vida, sentindo-se cada vez mais vivo a cada segundo? Esse sábio conselho o argentino Facundo Salgado ouvia do avô. Após muitos anos tocando punk rock e rock progressivo, Salgado conheceu a cultura andina profundamente e fez da sabedoria do avô o seu mais importante projeto musical: criou a banda Rumbo Tumba. Com ajuda de aparelhos de loop, Facundo grava camadas sobre camadas de som, tocando instrumentos de sopro andino, contrabaixo, charango e percussão, uma verdadeira orquestra de um homem só.

Na sexta-feira, dia 29 de junho, lançou “Madera Sur”, seu terceiro disco autoral, um tratado poético sobre as madeiras da América Latina. O trabalho está disponível em plataformas de streaming de música, no YouTube e neste site. E mal lançou o disco, Salgado já estava na Hungria, iniciando uma série de 20 shows na Europa. Com grande carinho pelo Brasil, o músico espera fazer show por estas bandas entre outubro ou dezembro.

Músico intuitivo, Salgado vai além do que já disse Pablo Ziegler, vencedor do Grammy de Melhor Álbum de Jazz Latino de 2018, sobre os músicos jovens em entrevista ao entresons. “Para além do tipo de fusão, eu acredito que os músicos jovens devem se aventurar na investigação, e deixar de seguir professor, livros e, muito menos, o que quer a audiência. O músico jovem deve investigar o seu interior para expressá-lo de uma forma artística pura e sincera”, afirma Salgado. Abaixo, você acompanha a entrevista deste músico inspirador.

 

Em que cidade você nasceu? Como a música fez parte de sua vida?

Nasci na cidade de Campana e a música chegou em minha vida na adolescência com o punk rock. Passei muitos anos tocando punk e hard core e muitos anos mais com o rock experimental.

Qual foi o primeiro instrumento que você aprendeu a tocar? Quantos instrumentos você toca hoje?

Comecei com o baixo, mas logo depois de uma viagem pelo norte da Argentina, Bolívia e Peru eu me apaixonei pela música andina do charango, instrumento que conduz as melodias de Rumbo Tumba. E também toco instrumentos de sopro andinos e um pouco de percussão. Mas sempre sobre a perspectiva da experimentação, pois nunca estudo tocar os instrumentos de modo tradicional. Eu aprendo a tocar passando tempo com os instrumentos, somos grandes amigos.

Como foi a criação de Rumbo Tumba? Parece que seu avô teve uma participação especial na decisão sobre o nome da banda. É verdade?

A ideia do projeto surge depois da viagem que fiz pela região andina, por volta de 2006. Voltei enamorado pela cultura andina, sua música, suas paisagens, sua comida, tudo. Essa experiência realmente me transformou. Mas, ao regressar, todos os meus amigos punks não queriam tocar essa música. Então, eu comecei a gravar coisas sozinho, em casa. Mas, seis anos depois, em 2012, tomei coragem em ser solista e comecei a tocar ao vivo e lancei um disco.

Meu avô sempre me lembra que estamos morrendo a cada dia. E, por isso, precisamos desfrutar a vida 100%. É daí que vem Rumbo Tumba (A caminho da tumba). Isso é para não se esquecer para onde vamos nós todos. E um modo de estar o mais vivo o possível a cada segundo.

Porque continua tocando sozinho. Você também faz parte de outras bandas em Buenos Aires?

Como disse anteriormente, no momento em que comecei a experiência com a música sul-americanca e andina, em particular, o círculo de músicos que eu frequentava era do punk e rock. Então, ninguém quis me seguir. Anos mais tarde me tornei amigo da tecnologia e me dei conta que podia levar adiante um show solo. E aqui estou hoje, tocando com Rumbo Tumba há seis anos. Mas também faço parte de um projeto chamado Ensamble Folclórico Digital, que conjuga os sons de raíz e a nova música eletrônica. Eu me apresento ocasionalmente com o DJ Villa Diamante.

Quais são os benefícios de ser uma banda de um só homem?

Eu te respondo com uma pergunta. Quais são os benefícios de ser uma pessoa só no mundo? Há coisas a favor e contra, mas tudo depende do tipo de pessoa que você é. Eu sempre estou trabalhando com outras pessoas em outros projetos, mas realmente preciso de espaço para desenvolver meu ser individual. E, desse modo, também voltar mais completo para o espaço de criação coletiva. E esse espaço, para mim, é o Rumbo Tumba.

Poderia dar exemplos de canções e artistas do universo da música andina que te inspiram até hoje?

Não sou de escutar muita música. Mas se existe algo que sempre volto a escutar é o folclore andino tradicional. Artistas como Jaime Torres, Illiapu, Ínti Illimani e, principalmente, Los Jaivas, que fizeram minha cabeça com sua mistura de rock progressivo e música andina, dois dos meus estilos preferidos.

Como é o seu processo de compor canções?

Eu me agarro aos meus instrumentos e toco. Assim, simples, improvisando sempre. Logo pego as partes dessas improvisações de que eu gostei e começo a produzir e apurar, até que fiquem de um modo que me agrade. E que seja possível tocá-las ao vivo no formato que utilizo, quer dizer, um homem-orquestra fazendo looping ao vivo.

Como você descobriu os equipamentos eletrônicos de looping e quão importante eles são em suas composições?

Descobri o loop quando me dei conta que deveria fazer esse projeto sozinho. Olhava muitos vídeos sobre isso, até que juntei dinheiro e comprei o primeiro, BOSS RC50. Eu me apaixonei e compus em uma semana meu primeiro EP “Groove Andina”. Um material que levei em um tour pelo Brasil. Nos primeiros anos de Rumbo Tumba eu toquei mais no Brasil que na Argentina. É a minha forma de compor. O looper é muito limitado, mas eu gosto muito de trabalhar com limitações, com poucos elementos e ferramentas para sempre exploradas aos máximo em suas ideias. Essa forma de fazer música me faz sentir muito melhor do que usar um software, no qual você tem infinitas ferramentas.

Na última sexta-feira, dia 29 de junho, você lançou o disco “Madera Sur”. Como foi fazer este trabalho? Quais foram suas principais inspirações?

Como deixa bem claro o nome Madera Sur, a inspiração desse disco é o continente da América do Sul e da madeira que nele todo vive, mesmo que depois de morta. Uma frase de Atahualpa Yupanki é muito clara nesse sentido: “Antes de ser um instrumento, o violão foi uma árvore onde cantavam pássaros. A madeira sabia de música muito antes de ser um instrumento”. Cabe destacar que todos os instrumentos que soam no disco foram construídos especialmente para o projeto por luthies com madeiras nativas do Continente.

Tem planos de tocar no Brasil?

Estamos preparando um tour assim que voltarmos dos nossos na Europa, entre outubro ou dezembro. Estou morrendo de vontade de voltar ao Brasil.

Em recente entrevista ao blog entresons, Pablo Ziegler, argentino que venceu o grammy de Melhor algum de Jazz Latino de 2018 com o CD “Jazz Tango”, afirmou que os instrumentistas jovens de jazz deve se aventurar na fusão com outros gêneros musicais para rejuvenescer a audiência. Você considera que Rumbo Tumba seja uma fusão de música folcólica com jazz ou música eletrônica? Você sonha em conquistar um Grammy?

Rumbo Tumba é uma fusão que utiliza instrumentos de povos andinos com tecnologia, especificamente um Looper e suas ferramentas e limitações para dar forma à música. Para além do tipo de fusão, eu acredito que os músicos jovens deve se aventurar na investigação, e deixar de seguir professor, livros e, muito menos, o que quer a audiência. O músico jovem deve investigar o seu interior para expressá-lo de uma forma artística pura e sincera. Se decidimos antes de criar algo que será jazz ou folclore, por exemplo, já estamos limitando bastante, ainda mais se pensarmos no que quer a audiência, o que reduz muitíssimo o espectro de criação. Mas bom, está bem. Eu também respeito essa forma de criação, mas eu gosto de outra coisa. Eu toquei punk e hard core por dez anos, outros sete anos de música instrumental psicodélica pós rock-progressivo. E, em um momento, eu me agarrei aos instrumentos folclóricos, passei anos investigando e nasceu Rumbo Rumba, que hoje se cataloga dentro da cena que mescla a fusão do folclore com elementos eletrônicos. Mas jamais na hora da concepção pensei em fazer tal ou qual coisa, quando fiz nem sabia que existia. Eu estou em meu sonho, um dia antes saiu meu novo disco “Madera Sur” e no dia seguinte eu o toquei pela primeira vez em um incrível festival em Hungria. Depois de tocar, comprei um vinho e o tomei na companhia de gente querida que conheci aqui, olhando a lua deitados na grama.

Brasil e Argentina são rivais no futebol. Há também estranhamento na área cultural. Em sua avaliação, a língua é uma barreira cultural entre os dois países? Acredita que o futebol, ao invés de unir, separa nossos países?

O futebol separa, e isso está claro. Mas é ao contrário o que ocorre na arte, fiz muitos tours pelo Brasil, em projetos distintos há dez anos. Corri pelo País do Rio Grande do Sul até o mais profundo Nordeste. E tenho recordações maravilhosas e grandes amigos. O idioma é o portunhol, que é perfeitamente possível de se entender em ambos os países.

 

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