Iuri Nicolsky

Fôlego de Cachalote

Um dos criadores do Nova Lapa Jazz, Iuri Nicolsky integra A Cachalote, banda instrumental do Rio de Janeiro que prepara seu primeiro CD autoral

Roger Marzochi, do entresons

A baleia Cachalote tem um fôlego da pesada. Ela consegue ficar submersa por até uma hora e meia até voltar à superfície para respirar. Inspirados nesse mamífero incrível, jovens do Rio de Janeiro criaram uma banda com esse nome, preparando-se para gravar o primeiro CD autoral. Um dos líderes da Cachalote é o saxofonista Iuri Nicolsky, 31 anos. O músico ficou conhecido no Brasil e no exterior com o projeto Nova Lapa Jazz, que começou tímido em 2011, com a ideia de tocar música instrumental na frente de um bar na Lapa, mas virou uma febre. “Isso me trouxe muitos frutos”, lembra o multi-instrumentista. “Reunimos até 4 mil pessoas na rua, fizemos show no Circo Voador, foi matéria do New York Times, isso me deu uma carreira profissional”, diz Iuri, à época estudante de música da Uni-Rio.

A banda era formada por Eduardo Santana (trompete), Gabriel Balleste (guitarra) e Pablo Arruda (baixo) e Antônio Neves (bateria). Entre as novas perspectivas, surgiram projetos como Eletrotupiniquim e convites para realizar shows em eventos fechados. “O Rio tem essa onda de pessoas que se juntam. Foi um pouco o que aconteceu com o Nova Lapa, foi uma jogada de sorte, coincidência, uma conjuntura que gerou repercussão tão grande que abriu caminho para outras bandas de rua. Há artistas de rua que até hoje me buscam para agradecer, me trouxe frutos financeiros e emocionais. Foi um projeto muito importante e que me orgulho muito, foi um estopim da febre dos músicos de rua.”

A Cachalote é formada pelo baixista Alexandre Seabra, pelo baterista Thiago Dagotta e, até recentemente, era integrada pelo pianista Pedro Cabral, que teve que deixar o trio por motivos pessoais, mas começou as gravações das composições. Em breve, com um novo pianista, a banda deverá seguir para o estúdio. Iuri explica que o trio faz música instrumental com influências da música eletrônica e do hip-hop, a exemplo de bandas como a canadense Bad Bad Not Good (BBNG).

Cinco músicas compostas pelos integrantes, canções já antigas, mas inéditas em discos, foram adaptadas para essa estética, enquanto outras dez foram feitas coletivamente. Em shows recentes, a banda faz novos arranjos para músicas consagradas convidando uma cantora para interpretá-las. Uma das convidadas foi a atriz e cantora Nanda Onanda. Em redes sociais, é possível experimentar um pouco desses doces encantos (@a.cachalote no Instagram). Mas, por enquanto, A Cachalote está em seu fôlego abissal à espera de um novo salto.

Nova Lapa Jazz com Elza Soares Teatro Rival Petrobras Foto Divulgação

Nova Lapa Jazz em apresentação com Elza Soares no Teatro Rival Petrobras ; banda reunia milhares de pessoas na rua da Lapa para ouvir música instrumental.

“Entreter o público é parte importante do trabalho”, afirma Iuri, explicando a ideia de se fazer uma música mais dançante. “Não dá para tocar Miles Davis e John Coltrane para o resto da vida, por melhores que sejam.” As aspas ainda não se fecham, pois essa não é uma crítica feroz do músico a quem decide viver nessa trilha. “Os meus heróis vivem bem disso hoje, é possível agradar ao público também assim. Tem gente com apego a estilos instrumentais. Mas a nossa intenção é atingir pessoas que não têm tanto contato com jazz, que inicialmente não estavam abertas a ouvir um trabalho instrumental, de forma que se possa improvisar e se divertir enquanto toca, mas não ficar encerrado entre os músicos e expectadores da música instrumental tradicional.”

Iuri começou sua vida na música muito cedo. Aos cinco anos, ele iniciou os estudos com o violino, com um professor cuja rigidez o fez parar com a música um ano depois. Mas fazia som em casa com panelas, percutia Beethoven no xilofone de brinquedo, mas estava decidido a não estudar mais violino. Ganhou um violão e estudou o instrumento dos seis anos aos 12. Envolveu-se com música clássica, com aulas com Bartolomeu Wiesse, professor de violão da UFRJ. Na adolescência, com muito rock e reggae nos ouvidos, foi experimentando outros instrumentos, como a sanfona, gaita e guitarra. Aos 17 anos, começou a ouvir jazz e conseguiu emprestado um saxofone rachado. “Tocava dentro do armário, até aprender o básico”, lembra.

Juntou um trocado, comprou um instrumento mediano, e começou a ter aulas com o flautista Eduardo Neves. E chegou a fazer algumas aulas avulsas com os saxofonistas Nivaldo Ornelas e Idriss Boudrioua. Enquanto isso, Iuri trabalhava como técnico de gravação das peças de teatro, conseguindo recursos extras para sobreviver. Entrou para a Uni-Rio e levou música até mesmo para o meio da feira livre na rua, entre tomates e alfaces. Não à toa, foi a rua que lhe deu projeção.

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