Dani Gurgel

Dani Gurgel dá asas à onomatopeia

Multi-instrumentista lança seu segundo disco autoral 11 anos após “Nosso”; mas desde 2012 participou de sete discos como integrante do grupo DDG4

Roger Marzochi, do entresons

Quando a multi-instrumentista Dani Gurgel foi para o estúdio gravar “Voou”, uma das músicas mais fortes de “TUQTI”, o seu segundo disco autoral, não havia ainda uma letra. Isso nunca será empecilho para ela, que também é cantora. Dani desenvolveu uma técnica apurada de “scat singing”, usando a voz como puro instrumento em frases melódicas e percussivas. A gravação, cuja música teve parceria do violonista Daniel Santiago, era importante porque teve a participação da trompetista canadense Ingrid Jensen, musicista da orquestra da compositora americana Maria Schneider. Ouvindo os scats de Dani, Ingrid sentiu que aquilo se assemelhava a um canto de um pássaro.

Emocionada com essa comparação, Dani decidiu criar uma letra para homenagear a trompetista, numa história de um pássaro fêmea que não teme voar, que é forte e alto o suficiente. “É uma coisa também sobre a dificuldade de ser mulher tocando música instrumental, que precisa se afirmar”, explica Dani. Segundo ela, é comum no meio musical uma musicista ouvir um tipo de elogio enviesado, do tipo: “ela toca igual a um homem”.

Debora Gurgel, mãe e parceira musical de Dani, já teria ouvido coisas parecidas pelos bares da vida. “E a Ingrid defende a posição da mulher, de ser mulher e músico de jazz, que tem que sempre se afirmar o tempo todo. A letra é sobre isso. É uma ave que não precisa de nada disso para sair voando, que é como eu ouço o trompete dela.” Dani avalia que não é o caso de se criar cotas para mulheres em orquestras ou big bands. “É preciso valorizar e colocar os dois como iguais. A música não deve ser selecionada com base em ter sido feita por alguém assim ou assado, mas a música pela música.”

Ao dar uma letra a esse canto de pássaro, Dani também passa essa sensação mágica que esses animais têm em muitas culturas. Os habitantes de Papua Nova Guiné acreditam que os pássaros são espíritos de pessoas desencarnadas, seus cantos as vozes dessas pessoas. Toda cosmologia desse povo se relacionada com os pássaros, incluindo a forma de tocar os tambores usados em rituais, imitando o canto do pássaro tibodai. “Assim nós temos a noção que os sons dos pássaros não são apenas indicadores naturais da fauna de Bosavi; mas são igualmente considerados como comunicação entre os mortos e destes com os vivos. O som dos pássaros e suas categorias são poderosos mediadores; eles ligam padrões sonoros com ethos sociais e emoções”, diz o etnomusicólogo americano Steven Feld, em “Sound as a symbolic system: the Kaluli drum”, de 1986.

TUQTIPerspectivas - Dani sempre compôs pensando sobre a sua realidade. Em “Whispers”, música com letra em inglês em parceria com o baixista e compositor Frederico Heliodoro, Dani reflete sobre as fake news, com a crescente polarização de ideias e a tendência de julgar as pessoas por cima, sem se buscar entender suas razões. E, mais um exemplo do disco, “Cade Rita?”. O título desta música, em homenagem à filha de dois anos, traz a onomatopeia que dá nome ao CD: TUQTI, uma forma de trazer no som de sua voz a representação da uma célula percussiva do samba. A música, feita em parceria com o violonista Gabriel Santiago, tem a participação do vibrafone do americano Joe Locke.

Com essa forma de cantar, Dani encantou a mídia especializada em todo o mundo. “Sílabas fantásticas”, segundo o jornal alemão Badische Zeitung; “aventuras vocais em scat” pela revista especializada alemã Jazzthetik; “fascinante como manipula livremente a precisão da extensão de sua voz”, por Republik (Japão); “Seu scat soa Brasileiro. Seus intervalos, ataques e articulações soam como Jazz”, segundo Mauro Apicella, do jornal argentino La Nación; “Dani Gurgel representa uma nova geração musical, ao mesmo tempo tradicional e inesperada”, Libération (França).

“Cadê Rita?” também representa as novas perspectivas que se abriram na vida da musicista com a maternidade. “É uma coisa que muda nossas perspectivas”, diz ela, sobre ser mãe. “A sua prioridade totalmente muda, para ser prioridade de criar uma pessoa e que o mundo precisa de pessoas melhores. E temos responsabilidade grande para essa geração ser muito melhor que a gente. Quando muda essas prioridades o normal seria pensar que outras coisas ficaram em segundo plano, mas na verdade não. Quando uma coisa faz sentido junto com a outra, elas não vão competir por espaço, mas vão conviver.”

O trabalho reúne um total de 11 músicas, com a participação de novos compositores brasileiros. A produção musical ficou com o baterista Thiago Rabello, com uma banda formada por Gabriel Santiago (violão), Conrado Goys (guitarra) e Frederico Heliodoro (baixo). Daniel Santiago substitui Gabriel nos shows no Brasil. O CD atual é muito mais jazzístico que “Nosso”, de 2007, que foi um trabalho primoroso em letras inspiradas e inesquecíveis. Desde 2012, gravou sete discos com o DDG4, ganhando fãs até no Japão. Dani, que também é fotógrafa, construiu sua carreira no diálogo constante com novos compositores e novos ares, dando amplas asas à onomatopeia, sem deixar de cantar letras de profundidade.

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