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Kastrup lança “Ponto de Mutação”, sons de um disco-conceito que carregam a esperança que um dia haja uma mudança positiva e profunda na sociedade

Roger Marzochi, do entresons; crédito das fotos de Gal Oppido

Pode parecer contraditório se pensar em esperança em tempos como agora, com a ascensão da extrema direita, que nas pesquisas eleitorais tem vantagem na disputa pela Presidência da República. E, mesmo se Fernando Haddad ganhar, terá pela frente um País fraturado, tendo que negociar com extremistas e as fake news que os alimentam. Mas o percussionista e produtor musical Kastrup mantém viva essa capacidade de sonhar, desejo esse que se transformou em som.

O músico, com a participação de vários artistas, está lançando neste mês “Ponto de Mutação”, um álbum-conceito que desenha no ar uma trilha sonora da transição de uma sociedade capitalista, ancorada numa visão cartesiana de mundo, para um sistema mais igualitário, no qual atributos considerados como arquétipos femininos como intuição, solidariedade e afeto serão “mola propulsora dessa virada de era”.

Para o músico, as sementes dessa nova era já estão germinando, mas não será agora que darão frutos. “… ainda teremos inevitavelmente algum tempo de dificuldades pela frente, até que um novo período de luz ressurja. Mas as bases para essa mudança já estão sendo germinadas e brotadas agora, e é nelas que devemos nos concentrar”, afirma Kastrup.

Esse conceito artístico nasceu em Kastrup em 2016, momento no qual o ruidoso som de panelas terminou na orquestra de impeachment de Dilma Rousseff. Enquanto iniciava a produção do disco nessa época, que está disponível apenas no meio digital, o percussionista leu “O Ponto de Mutação”, livro do físico e ambientalista Fritjof Capra, do início dos anos 1980.

O livro, que virou filme (Mindwalk, EUA, 1990), “descreve os tempos em que vivemos como o final de um ciclo e início de outro, onde esse período, regido por paradigmas masculinos (YANG) como a competição e a agressividade, seria então substituído por uma nova era, de égide feminina (YIN), de mais solidariedade, cuidado e afeto – ‘onde a nova civilização compreenderá finalmente que somos todos sistemas interligados’.”

Carioca, formado em percussão pela Faculdade de Música da Estácio de Sá, Kastrup foi “reconhecido recentemente pela criação e direção do premiado ‘A Mulher do Fim do Mundo’ (2015), de Elza Soares (Grammy Latino, APC, Prêmio da Música Brasileira, Prêmio Dinamite) – bem como a produção musical do novo disco da cantora ‘Deus é Mulher’ (2018) e a direção musical do show dos dois trabalhos”.

Em “Ponto de Mutação”, o músico contou com a participação de Elza Soares, Kiko Dinucci, Marcelo Cabral, Rodrigo Coelho, Ricardo Prado, Estevan Sincovitz, Marcelo Monteiro, Ná Ozzetti, Alessandra Leão, Lenna Bahule, Bixiga 70, Ricardo Herz, Arícia Mess, Alexandre Ribeiro, Swami Jr e Henrique Albino entre outros.

O trabalho começa com a música “Reaction”, com samples de voz de Noam Chomsky e Malcolm X retirados do filme “Requiem For The American Dream”, cedidos pela PFPictures. Essa primeira música seria como um retrato da sociedade atual. Ao longo das faixas, o som também se altera, com a abertura de novas sensibilidades e possibilidades. Abaixo, segue uma entrevista feita com o artista por e-mail. O show de lançamento foi realizado na quarta-feira, dia 17 de outubro, no Sesc Pompeia, em São Paulo.

Versão 2 – Versão 3Você achou uma esperança ao ler “Ponto de Mutação”, um livro da década de 1980, quando buscava respostas para a crise política de 2016, que levou aos panelaços e ao impeachment de Dilma Rousseff. Hoje, com a ascensão de uma extrema direita violenta nas eleições brasileiras, sua esperança continua a mesma?

Sim. Totalmente. Acho que a questão toda que o Capra trata no livro “O Ponto de Mutação” permanece absolutamente atual. Segundo as palavras do I Ching referenciadas no livro,  “ao término de um período de decadência, sobrevém o ponto de mutação. A luz poderosa que fora banida, ressurge”. São os ciclos naturais, descritos pelo Tao. Acredito que o declínio do sistema capitalista que ele prevê ainda está em curso, e infelizmente, ainda teremos inevitavelmente algum tempo de dificuldades pela frente, até que um novo período de luz ressurja. Mas as bases para essa mudança já estão sendo germinadas e brotadas agora, e é nelas que devemos nos concentrar.

Tanto em “O Ponto de Mutação” quanto no livro “Nada Brahma”, de Joachim Berendt, há essa defesa da necessidade de a humanidade ser mais Yin (feminina) do que Yang (masculina). A audição, inclusive, Berendt explica ser uma característica feminina e mais importante que a visão, que seria um sentido masculino. Em seu novo disco, é possível perceber essa transição na evolução das músicas, há esperança. O movimento #Elenão é prova da força feminina, embora muita gente aprove o discurso de Jair Bolsonaro. Como fazer essa transição da arte para a vida? Quanto de sua música você deseja que se faça a nossa vida?

A arte é reflexo direto da vida. Eu não teria feito esse álbum, dessa forma, se as circunstâncias fossem outras. Ele foi uma consequência direta do meu sentimento de angústia na época, e depois de esperança, ao ir lendo o livro e ganhando novas perspectivas. O golpe no Brasil me fez sair de uma zona de conforto em que me encontrava, e acordar para uma realidade internacional muito mais ampla. E não fui só eu. Muita gente passou a ter mais contato com a realidade desse sistema opressor, e passou a contestar e repensar padrões e comportamentos, e isso em si já é um movimento. Não é só o Brasil que está doente e sofrendo com a opressão dos “senhores do capital”, esse é um movimento global dos 1% mais ricos, querendo sugar e explorar mais de todos os povos. São as grandes corporações quem detêm esse poder e não mais os Estados. E elas são multinacionais e “querem tudo para elas, e nada para os outros”. E esse é um sistema construído basicamente sob paradigmas masculinos, da competição, do individualismo, da meritocracia e da guerra. Erguido pela classe dominante do homem-branco-hetero sob uma visão cartesiana de mundo. Mas esse sistema está se esgotando. Não é mais sustentável! Em bem pouco tempo, todos os recursos do meio ambiente que nos sustenta vão se esgotar, e não será mais possível esse grupo, dos 1% dominantes, oprimir e explorar dessa forma os 99% restantes. Como você disse, é o ciclo YANG se esgotando, abrindo espaço para um novo ciclo, YIN. E essa não é uma teoria do Capra ou do Berendt, e sim um conhecimento milenar oriental muito mais antigo, que tem sido constantemente relegado no Ocidente, mas que cada vez mais mostra sua força e sabedoria. Acredito que a força do feminino, e não apenas das mulheres, mas dos arquétipos femininos como a intuição, a solidariedade e o afeto é que vão ser a mola propulsora dessa virada de era, para que aprendamos a usar toda essa tecnologia criada, prá nos cuidar enquanto espécie, com a compreensão de que somos um só e estamos todos intrinsecamente interligados. E esse movimento já começou.

O avanço das fake news no Brasil tem sido assustador nestas eleições. E me parece uma atuação completamente terrorista de desestabilização do sistema por completo. Mas é também um sintoma do quanto o público deixou de acreditar na mídia, na Justiça, no Estado e nos políticos em geral. Como você avalia esse fenômeno? Ele faz parte da “Transmutação” ou mais da “Mídia Deshipinoise”, para citar duas músicas do disco-coletivo Ponto de Mutação?

O sistema inteiro e suas instituições, da forma como acreditávamos, está em colapso.  É o colapso total do ideal capitalista! Noam Chomsky (que eu sampliei em Reaction) descreve isso perfeitamente em seu filme “Requiem Para o Sonho Americano”, mas que serve para todos nós. É realmente impressionante como exatamente na época em que teríamos acesso a todas as notícias, e parecia que iríamos nos livrar da condução tendenciosa da grande mídia. A internet abriu a possibilidade de termos acesso a notícias sem passar pelo filtro da grande mídia, mas as fake news criaram uma cortina de fumaça que agora ninguém mais sabe em que acreditar.

As duas faixas têm sentido complementares nesse aspecto; “Transmutação” sugere que precisamos de uma reformulação profunda em nossos paradigmas, atitudes e hábitos. Para darmos a volta por cima, não vai ser por um sistema eleitoral, completamente comprometido com o sistema financeiro, e sim por uma mudança de hábitos e valores que pare de alimentar os monstros que nos oprimem, e nesse caos estou me referindo especificamente as grandes corporações. E “Midia Deshipinoise” sugere que, para isso, vamos precisar nos des-hipinotizar das mídias todas que nos escravizam e conduzem o pensamento para que permaneçamos enjaulados a esse sistema, com ideais de felicidade ligados ao consumo, ao sucesso pessoal e individual, e a um conjunto de valores absolutamente desnecessários de fato. Vai ser preciso reformularmos tudo isso. Lermos mais, conversarmos mais, nos amarmos mais, e trabalhar prá viver bem em uma sociedade mais igualitária e mais justa.

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