pixinguinha_e_jacob_do_bandolim-IMS

Improvisação no Choro e jazz brasileiro passa por transformação “ininteligível”

Bandolinista Izaías Bueno de Almeida faz uma reflexão sobre os caminhos do Choro e da música instrumental brasileira e uma crítica ao programa Brasil Toca Choro, da TV Cultura

Roger Marzochi, do entresons; Foto de Pixinguinha e Jacob do Bandolim do Instituto Moreira Salles

Avenida Rudge, 944, Bom Retiro. Era para esse endereço que Izaías Bueno de Almeida se deslocava com grande alegria, o maior número de noites possíveis, ao longo da década de 1960, em São Paulo. Lá morava Antonio D’Auria, o criador do Conjunto Atlântico, um importante grupo de choro do País, cuja trajetória é contada no livro “Conjunto Atlântico – Uma História de Amor ao Choro”, de José de Almeida Amaral Júnior. No fundo da residência, pertencente à família de D’Auria até hoje, rodas de choro se formavam num estúdio improvisado de cerca de 16 metros quadrados. Em uma dessas noites na casa do saudoso chorão, Izaías estava na roda com seu bandolim, tocando uma das músicas que mais marcaram o início de seu aprendizado no instrumento: “Doce de Coco”, de Jacob do Bandolim.

O jovem músico mal conseguiu acreditar em seus olhos quando, naquele mesmo recinto, entrou Jacob do Bandolim, em pessoa. “Eu improvisei na frente dele. Foi uma ousadia da minha parte. Os chorões improvisam, sempre improvisaram. Mas foi uma ousadia fazer uma variação para a música dele perto dele”, recorda Izaías, com certa angústia. “Ele fez uma cara de reprovação. Ele disse que não precisava de parceiros, que a música era bonita por si só. E eu fiquei envergonhado, inclusive. Mas foi o que aconteceu. Voltei a improvisar, mas não na frente dele. O Jacob tinha um temperamento terrível, muito difícil.”

Izaias (esq ) e seu irmão Israel Bueno de Almeida (violão) - Foto Ed Figueiredo

Izaias (esq ) e seu irmão Israel Bueno de Almeida (violão). “Não sou contra o improviso. O Pixinguinha fazia muito isso, o Jacob do Bandolim também. Mas eles improvisavam de forma inteligível. Hoje, o improviso é ininteligível”, afirma Izaías (Foto Ed Figueiredo)

Hoje, aos 81 anos, é Izaías quem faz cara feia. “Os jovens se esquecem que virtuosismo é saber também interpretar, não é só velocidade”, explica o bandolinista, ao fazer uma avaliação do que tem visto no programa Brasil Toca Choro, da TV Cultura. O músico, que figura entre os agradecimentos especiais do próprio programa, além de entrevistado, e que lutou para levar o gênero de volta para a televisão brasileira, vê com tristeza jovens que estariam exagerando nos improvisos deste que é o mais brasileiro dos estilos musicais. Izaías está na torcida para esse programa continue. A primeira temporada, com 13 episódios, terminará no dia 27 de janeiro de 2019. E o seu sucesso frente ao público pode ajudar que novas temporadas sejam realizadas. Mas Izaías pede para que o choro seja mostrado “da forma como é.” Na adolescência, o bandolinista conhecera pessoalmente Jacob no início da década de 1950, no Rio. Izaías ainda conheceu e viu tocar em rodas de choro o mestre Pixinguinha e ainda fez parte do conjunto de D’Auria.

“Não sou contra o improviso. O Pixinguinha fazia muito isso, o Jacob do Bandolim também. Mas eles improvisavam de forma inteligível. Hoje, o improviso é ininteligível”, afirma. “Eu indago os jovens, por que fazer isso? E eles me explicam que têm família para sustentar. E eles têm razão, o choro não dá dinheiro nenhum. E eles acham que precisam desse pseudo-virtuosismo para impressionar a plateia, que parece gostar mais de circo do que música. E, então, os músicos precisam fazer verdadeiros malabarismos para ganhar dinheiro. A ideia geral que tem o público é que quem toca rápido é um grande músico. É algo que tem acontecido no programa Brasil Toca Choro.”

Em resposta a questionamentos enviados pelo entresons.com.br, o programa afirma que Izaías teve papel importante no projeto “para a escolha de parte do repertório e dos artistas que o executaram”. “Outros elementos também foram importantes para consolidação dessa perspectiva não segregacionista, como o fato do corpo instrumental e musical do programa ser composto por 130 músicos, todos de diferentes visões, bagagens culturais, credos, idades, gêneros e cores.” Leia a resposta completa do Brasil Toca Choro no fim da matéria.

Izaías avalia que tanto o choro quanto o jazz brasileiro refletem no som hoje o movimento frenético e alucinante imposto à sociedade pela tecnologia e suas redes sociais. A música instrumental brasileira chega ao fim de 2018 com muitas conquistas, como o Grammy de Melhor Álbum de Jazz Latino para “Natureza Universal”, do multi-instrumentista Hermeto Pascoal e sua big band. O merecido prêmio vem coroar a trajetória de um dos músicos mais criativos do mundo, capaz não apenas de produzir temas inspiradores, mas de surpreender em suas improvisações de tirar o fôlego. Mas há novos talentos da música instrumental brasileira que nem sempre têm seguido o equilíbrio entre técnica e poesia no que se refere à improvisação. Há músicos capazes de tocar melodias belíssimas, mas preferem a velocidade e gritos desesperados e estridentes em seus solos.

No que se refere ao choro, Izaías tem completa aversão de que o gênero possa passar pela transformação pela qual trilhou o jazz, com suas fusões com o rock, por exemplo. “O início do jazz foi uma beleza, é uma música rica, de raiz. E com o tempo, de certa forma, foi se deteriorando. Inventaram o jazz-rock. E fico meio temeroso que se faça um choro-jazz ou choro-rock dado ao excesso de improviso, principalmente os mais jovens, empolgados, que depois não sabem que música estão tocando.”

Caminho natural - A pianista mineira Luísa Mitre tem 29 anos e não se considera uma improvisadora. Vencedora de concursos como o 18º Prêmio BDMG Instrumental de 2018, I Concurso Jovens Solistas da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais em 2010 e Jovem Instrumentista BDMG Instrumental de 2013, Luísa tem grande respeito por Izaías e todos os mestres do choro. Com seu grupo de choro Toca de Tatu, gravou disco em homenagem a ninguém menos que Radamés Gnatalli, que teve papel importante no resgate do gênero.

“O que vem acontecendo, como toda música, o choro vem se transformando e se misturando com outros gêneros, influências de músicas de outros países”, explica ela, que esteve no início de dezembro na 15ª edição do Festival Chorando Sem Parar, em São Carlos (SP). E o evento homenageou justamente Gnatalli. Nesses shows, a jovem instrumentista conheceu o grupo The Israeli – Choro Ensemble – Chorolê, um grupo israelense que propaga o Choro usando, inclusive, elementos da música do Oriente Médio.

Luísa Mitre Crédito de Leandro Couri

“O que vem acontecendo, como toda música, o choro vem se transformando e se misturando com outros gêneros, influências de músicas de outros países”, explica Luísa Mitre. (Crédito da foto de Leandro Couri)

“Algumas músicas do grupo tinham um choro meio árabe. A ideia é essa. Porque o choro já nasceu de uma mistura: nasceu da maneira que brasileiros e muitos negros tocavam as músicas que vinham da Europa, influenciadas pela música negra. Isso faz parte da história do gênero e continua acontecendo. Eu acho que é um caminho natural”, afirma ela, que se apresentou no evento com o Toca de Tatu e assistiu também shows do próprio Izaías e Seus Chorões, presentes no Chorando Sem Parar.

“Eu não sou improvisadora e a minha música prioriza outras abordagens, é mais arranjada e previamente elaborada. Mas eu aprecio também quem faça esse outro tipo de música, mas são pensamentos diferentes. Não acho legal condenar, não acho que há certo ou errado. E não deixa de ser choro se começar a improvisar. Se tocar como todo mundo sempre tocou a música não evolui, não no sentido de ser melhor, mas de instigar novos músicos”, afirma Luísa, que lançou neste ano “Oferenda”, seu primeiro CD autoral de música instrumental. O trabalho saiu pelo Savassi Festival Records, selo criado pelo Savassi Festival, de Belo Horizonte.

Ganha quem ouve – O multi-instrumentista Carlos Malta, um dos maiores músicos do Brasil, é um apaixonado por choro e pela cultura popular brasileira. Conheceu o saxofonista e clarinetista Abel Ferreira, o multi-instrumentista Copinha, viu e ouviu muitos shows de Izaías. “Sempre gostei desse ambiente por conta da riqueza do Choro, que tem a exuberância que o standard (jazz) não tem.” O músico, que lançou em novembro o disco “O Mar Amor – Canções de Caymmi”, pela DeckDisc, lembra que também os chorões beberam na fonte do jazz. “O fraseado do Pixinguinha passa pelo jazz, tem jazz na música do Jacob, eles ouviam isso. Todos esses caras ouviram o jazz dos anos 40 e 50, era o que tocava no rádio”, explica.

E Malta tem opinião próxima a de Izaías no que se refere à importância da interpretação no improviso. Mas acredita que quem ganha nessa discussão sempre será o ouvinte. Ele entende que existe o músico que toque para querer provar ser bom, outros buscam provar quão boa é a música. E que a ideia da música como “circo” não é de todo abominável. O picadeiro é sempre usado como referência pela velha guarda. No Brasil Toca Choro exibido no domingo, 16 de dezembro, dedicado ao cavaquinho, a instrumentista Luciana Rabello chegou a expressar seu carinho pelo cavaquinista Jonas Pereira da Silva, explicando que seus solos eram românticos e com uma expressividade que não era circense.

Carlos Malta 1

“A essência do ato de improvisar é você transgredir e recriar, como se fosse uma mandala. Você passa a vida montando e você apaga e faz tudo de novo. A improvisação não é a contemplação da mandala, é a desconstrução e reconstrução, que será feita sempre de uma outra forma”, explica o multi-instrumentista Carlos Malta.

“O grande barato da música é tocar e se divertir, ver as pessoas se divertindo. Mas o divertir se passa longe da coisa do circo, mas a gente deveria lembrar da essência do circo para o nosso espetáculo também”, explica Carlos Malta. “Não é fazer palhaçada. Há um drama e uma beleza estética e desafiadora. O músico tem certo preconceito com relação à cena musical. Não precisa ter cenário e figurino, mas uma luz legal, mais uma comunicação dos músicos para a plateia, porque às vezes a música instrumental fica ensimesmada. O nosso objetivo como artista é levar arte para dentro do coração da pessoa. Nesse ponto o cara que usa o remédio improvisação, ele não pode abusar.”

Malta compara a improvisação como uma estrada: harmonia e melodia são com paisagens e curvas pelas quais o músico atravessa na direção de seu caminho. Pode ser belo até mesmo quem deseja andar até na contramão. Mas, para ele, o grande problema na improvisação é quando o músico estuda em casa passagens musicais que serão usadas como cartas na manga na hora do improviso, quando se tenta domar a energia criativa do agora.

“A essência do ato de improvisar é você transgredir e recriar, como se fosse uma mandala. Você passa a vida montando e você apaga e faz tudo de novo. A improvisação não é a contemplação da mandala, é a desconstrução e reconstrução, que será feita sempre de uma outra forma”, explica o músico, que tocou 12 anos com Hermeto Pascoal. “Tudo tem que passar por uma coisa chamada bom gosto, para saber dosar sua capacidade de conhecimento e intuição, para que a improvisação seja agradável, seja uma forma de se comunicar com a plateia e com seus amigos músicos. Você percebe isso quando tocam da forma mais simples… não é pouca nota, mas tocar o essencial. Mas isso passa pela intuição, comunicação entre os músicos e passa essa coisa de jogar a energia momentânea com sabedoria, porque pode ficar muito chato. É chato ficar numa mesa com cirurgião plástico e ele só falar de cirurgia. Não é tocar menos, mas tocar melhor. E o melhor é o de cada um.”

 

RESPOSTA DO BRASIL TOCA CHORO ÀS CRITICAS DE IZAÍAS BUENO DE ALMEIDA

“Sobre o Brasil Toca Choro, a escolha de repertório e artistas e a arte do improviso

Inicialmente, é importante ressaltar que o choro foi e é influenciado por diversas sonoridades: tem um parentesco com o ragtime, com o início do jazz, com a música europeia misturada com a africana e explora, ainda, de guitarras portuguesas a violões espanhóis. É natural, portanto, que um gênero matriz como esse, com 140 anos de história e tantas facetas, seja transformado com o aprimoramento da técnica dos artistas e possua diferentes tipos de vertentes e formas de interpretação. O choro não é só um, são vários, e vai de Villa-Lobos até Hamilton de Holanda, de Callado até Armandinho, de Nazareth a Hercules. O choro é tradição e contemporaneidade. Como exemplo concreto dessa síntese, o próprio Pixinguinha, em seu último disco, lançado em 1970, usa uma guitarra distorcida de rock e ritmos afro de terreiro na faixa Urubu.

Haja vista todo esse contexto, o Brasil Toca Choro foi idealizado para demonstrar as diversas formas de tocar e de compor o choro, incluindo as tradições e as modificações que o gênero teve desde a sua criação. Pensando nisso, a seleção do repertório foi feita pela produção do programa em conjunto com vários músicos, no sentido de homenagear os grandes compositores e de ampliar o entendimento do choro – sem privilegiar visões ou vertentes, nem limitá-lo. Izaias Bueno de Almeida, um dos maiores mestres dentro da linguagem tradicional, foi essencial para imprimir essa pluralidade ao programa, contribuindo com sua vasta experiência e riquíssima perspectiva para a escolha de parte do repertório e dos artistas que o executaram.

Brasil Toca Choro_Foto Nadja Kouchi 7

Maurício Carrilho (esq.) e Izaías do Bandolim no programa Brasil Toca Choro: “Izaias Bueno de Almeida, um dos maiores mestres dentro da linguagem tradicional, foi essencial para imprimir essa pluralidade ao programa, contribuindo com sua vasta experiência e riquíssima perspectiva para a escolha de parte do repertório e dos artistas que o executaram” (Crédito da Foto de Nadja Kouchi/TV Cultura)

Outros elementos também foram importantes para consolidação dessa perspectiva não segregacionista, como o fato do corpo instrumental e musical do programa ser composto por 130 músicos, todos de diferentes visões, bagagens culturais, credos, idades, gêneros e cores. Optamos sempre por transparecer essa multiplicidade por meio das interpretações e, principalmente, dos improvisos. Isso porque a forma dos artistas improvisarem é resultado do sentimento e intenção no momento da gravação. É decorrência de como eles receberam aquelas canções e de que forma eles preferiram transmiti-las ao mundo. É honesto. E, como mestres em seus instrumentos, todos os músicos convidados expressam máximo virtuosismo em suas interpretações.

Além de valorizar a sinceridade, técnica e talento do intérprete, é significativo lembrar que improvisos de diferentes formas fazem parte da tradição e contemporaneidade do choro. Mais do que isso, fazem parte de um processo histórico que engloba esse e outros gêneros que se perpetuam entre gerações e gerações. É sobre se aperfeiçoar e, ainda assim, ser um dos raros casos que conseguem manter suas características essenciais.

Pensado para apresentar as diferentes facetas do choro em sua totalidade de episódios, o Brasil Toca Choro apresenta ainda múltiplas visões e correntes até 27 de janeiro, data em que o último dos 13 episódios inéditos vai ao ar. O programa, que estreou no dia 4 de novembro, exibe neste domingo (16/12) sua sétima edição, intitulada Cavaquinho. Nela, Izaías Bueno de Almeida e Maurício Carrilho contam histórias curiosas que passam pelo som solo de “banheiro” de Waldir Azevedo; pelo professor de cavaquinho Galdino Barreto, o primeiro compositor de choro que se tem notícia; por Nelson Alves, que tocou no grupo de Chiquinha Gonzaga; e por Paulinho da Viola, que tem um trabalho importante no choro. De parte dessa turma conceituada, saem composições que são tocadas por nomes como Henrique Cazes, Armandinho e Messias Brito.

 

Brasil Toca Choro”

Deixe um comentário

Social



Licença de uso

Licença Creative Commons
Os textos do Entresons são publicados com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.
Você pode reproduzir, retransmitir e distribuir o conteúdo, desde que com crédito (ao site e ao autor do texto), para uso não-comercial e com uma licença similar.

Próximos shows

Assinar: RSS iCal