Giba Estebez

Um todo mais que completo

Pianista paulistano Giba Estebez lança “Omni”, seu primeiro trabalho autoral

Roger Marzochi, do entresons; crédito da foto Neoback

O pianista paulistano Giba Estebez resgatou o conceito do “todo” como inspiração para o seu primeiro trabalho autoral, lançado em meados de 2018 nas plataformas de streaming. “Omni”, que vem do latim todo, inteiro, reúne dez composições autorais do músico, que além de acompanhar cantoras como Alaíde Costa, Claudette Soares e Patricia Marx, é um dos instrumentistas mais ativos da cena do jazz brasileiro.

O CD físico deverá ser lançado em 2019, com realização de shows em São Paulo. As composições são inspiradíssimas, resultado de grande dedicação ao estudo musical, que deslanchou nos anos 1980, apresentando ao público diversos estilos entre jazz, samba-jazz, bossa nova e uma incrível fusão das tradições ocidental e oriental na peça que batiza o trabalho.

Aos 53 anos, Estebez avalia que o primeiro trabalho autoral custou a sair. O que importa é que veio à tona, e que a cada vez em que se escuta, mais rico o som se faz aos ouvidos. “Tem mistura de vários ritmos, tudo que já fiz até agora, músicas que gosto de tocar”, explica o pianista.

“Omni” nasceu de uma grata junção de universos. O pianista, que já foi professor do prestigiado CLAM, vem aprimorando sua técnica estudando música contemporânea com Celso Mojola, professor da Escola Superior de Música da Faculdade Cantareira.

Estebez se aprofundou nos estudos do dodecafonismo, criado pelo compositor austríaco Arnold Schönberg, movimento musical do século 20 que rompeu com a música tonal promovendo o que o compositor se referia como a “emancipação da dissonância” evitando ao máximo a repetição.

“De fato, como qualquer ouvinte constata à primeira audição, a música dodecafônica não se presta à escuta linear, melódica, temática. A memória dificilmente é capaz de repetir o que ouviu, porque a própria música diversifica as suas repetições de modo a que elas não sejam captadas na superfície como repetição”, explica José Miguel Wisnik no livro “Som e o Sentido – Uma Outra História das Músicas”, na página 174.

“A Omni saiu de uma racionalidade, unindo duas escalas diminutas. Eu extraí os acordes dessas escalas. E criei uma melodia em cima dessas duas escalas, que acabou gerando uma escala cromática, que só depois que eu fui descobrir. E foi tudo bem racionalizado”, diz Estebez.

Ao estudo, novos elementos contribuíram para uma música transcendental como essa. Estebez convidou o multi-instrumentista Mario Aphonso III e o percussionista Jorge Marciano para gravar esse som, músicos que ele conheceu no projeto Jobim Instrumental. Para além de música incrível de Jobim, Aphonso é líder do Coletivo Tarab, que promove o ensino da música e dança orientais em São Paulo.

Os sons ancestrais do oriente levaram Estebez a realizar em “Omni” a fusão das músicas brasileira, europeia e africana com a música oriental. “E o contrabaixo ainda toca imitando o OM, o mais importante mantra do hinduísmo.”

O “todo” é em 360 graus com esse pianista. E em sete dimensões. O músico atua na banda Bossa Brazillis e no incrível B3 Órgão Trio, criado em 2006, que destila um groove ora funkeado ora mais jazzístico. É por essas e outras que se deve agradecer à dona Maria Helena, a primeira professora de piano de Estebez.

O músico enfrentou muitas luas cheias para alcançar a alma que conquistou: teve até que trabalhar como caixa no finado Banco Real, mas foi salvo por Alaíde Costa para acompanhá-la nos bailes da vida, aos 21 anos. “No Brasil acompanhante não é valorizado. E agora vou mostrar o que sei fazer, que é música instrumental.”

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