Assimetria no Caminho ((Roger Marzochi)

Caridade em tempos de crise

Defendida por todas as religiões e até por agnósticos, qual é o significado de caridade nos tempos atuais?

Roger Marzochi, do entresons

A luz diáfana que atravessa as árvores entre os gentis caminhos do Parque Villa Lobos, em São Paulo, revela uma beleza baça na mistura entre o verde da vegetação, o cinza do chão e a suave névoa branca de uma manhã molhada do fim de fevereiro. Com uma pasta azul embaixo do braço, cujas pontas estão esgarçadas, revelando o bege do papelão da qual é feita, seu Gutemberg procura latinhas nas lixeiras. “A chuva deve ter espantado o povo daqui ontem, consegui quase nada”, diz.

Após reunir o que pode de recicláveis, que são colocados em sacos plásticos, esse homem negro com barba e cabelos embranquecidos, percorre empresas da região da Lapa entregando o conteúdo de sua pasta: currículos. “Trabalhei a vida toda de ajudante ou conferente, não sei fazer outra coisa”, afirma. Por não ter 60 anos completos, ele precisa conseguir dinheiro para pagar a passagem de volta para a sua casa, no Jaraguá.

Assimetria na Orquídea (Roger Marzochi)

“É algo que vai muito além da simpatia ou empatia. É um amor incondicional, que se entrega, um impulso de amor verdadeiro. É fazer o bem sem interesse”

Correndo ou em passos largos, a maioria dos usuários do parque mantém os olhos fixos no horizonte e os ouvidos grudado aos fones, na frequência de suas canções ou rádios prediletas. Muitos nem notam Gutemberg levando as mãos para dentro das lixeiras, retirando água ou resto de refrigerante acumulados nas latas. “O senhor quer uma ajuda?”, pergunto-lhe. “Dinheiro eu não peço, preciso é de um emprego”, responde Gutemberg, agradecido, com sorriso tímido.

Gutemberg me fez refletir sobre o que realmente significa a palavra caridade, um conceito que está na base de todas as religiões do mundo. Mas, afinal, o que é caridade? E como é possível hoje praticá-la? “A caridade é um impulso de amor que faz você ver o outro como um templo divino. O povo confunde com filantropia, que sempre diferencia o ajudado de quem ajuda”, diz o jornalista e escritor Pedro Fávaro Jr.

O escritor lançou, no ano passado, o livro “Freguês” (Chiado Books), um romance inspirado em sua experiência com jovens que viviam nas ruas de Jundiaí, no interior de São Paulo. “Eles vivem na praça, nas ruas de uma cidade no interior de São Paulo e ninguém lhes dá atenção por julgá-los estorvos, um bando de foras-da-lei”, escreve na sinopse do trabalho.

Fávaro, que também é diácono permanente da Igreja Católica, explica que a palavra caridade vem do latim caritas. Porém, em sua avaliação, seria melhor traduzi-la como “ágape”, uma palavra grega. “É você ‘com-padecer’ com o outro, padecer das mesmas dores, partilhar os mesmos sentidos e sentimentos. É algo que vai muito além da simpatia ou empatia. É um amor incondicional, que se entrega, um impulso de amor verdadeiro. É fazer o bem sem interesse.”

A ideia de ágape também inspirou o padre Marcelo Rossi, que chegou a escrever um livro homônimo (Editora Globo), embora haja um processo judicial relativo aos direitos autorais da obra. O ímpeto de ajudar os necessitados nasceu aos 20 anos na irmã Maria, minha tia-avó. Ela entrou para o convento para ajudar como enfermeira em Santas Casas no interior de São Paulo, em cidades como Casa Branca, Diamantina e São João da Boa Vista.

Hoje, aos 90 anos, ela não se arrepende de ter deixado o convívio com a família para ajudar os enfermos. “Me deu vontade. Mas foi difícil sair de casa, tinha a mãe e o pai em casa, foi difícil minha mãe deixar. Não é fácil sair assim, mas graças a Deus tive força. Foi um caminho bom, não me arrependi não”, conta ela, por telefone.

Assimetria nos Ares (Roger Marzochi)

“A caridade é frequentemente descrita como um meio de harmonizar as ofensas”

O jornalista Moacir Rodrigues da Cunha, especializado em agribusiness, também transformou sua vida ao iniciar um projeto de visitas a presos em Goiânia, onde vive. Ouvir o relato dos que estão no cárcere o fez perceber quão carentes essas pessoas foram no passado, com grande ausência de atenção familiar.

Um abraço profundo, como um pai ou uma mãe dá a um filho, é a lição que Cunha aprendeu nessa experiência: levar um abraço, um contato físico de carinho, a um detento para mostrar o quão especial ele é. O jornalista, que é luterano e também membro da Assembleia de Deus, afirma que com essa iniciativa deixou de sentir o que é solidão e depressão.

A caridade é também uma forma de apaziguar relações, como defende o islamismo. “As principais características da sociedade contemplada pelo Corão são a compaixão e a bondade, a honestidade e a Justiça”, escreve a professora de religião e humanidades Tamara Sonn, do College of William and Mary (EUA), no livro “Uma breve história do Islã” (José Olympio Editora).

“A caridade também é extremamente importante do ponto de vista alcorânico. ‘Certamente Deus recompensa o caridoso’ nos é dito quando a história de José é narrada (12:88). As pessoas são orientadas a perdoar seus devedores, como ato de caridade. A caridade é frequentemente descrita como um meio de harmonizar as ofensas.”

Católicos, protestantes, espíritas, umbandistas, membros de todas as religiões defendem e praticam a caridade. E a ágape não seria diferente entre os agnósticos. O físico brasileiro Marcelo Gleiser, professor de física e astronomia do Dartmouth College, nos Estados Unidos, ganhou em março o prêmio Templeton de 2019, conhecido como o “Nobel da Espiritualidade”, comenda obtida por nomes como Madre Teresa de Calcutá e Dalai Lama.

O fato de ser agnóstico não torna Gleiser arrogante, uma vez que ele respeita a dimensão religiosa da sociedade e entende que a ciência não é capaz de responder a todas as questões sobre a vida. Isso, no entanto, não significa que ele deixe de ser um crítico com relação ao fundamentalismo. Ele alerta a sociedade sobre os reflexos negativos sobre a crença em um único Deus, que tem influenciado a maioria dos cientistas na busca da Teoria de Tudo, uma equação matemática perfeita que provaria a essência divina da criação.

“Dadas as descobertas das últimas décadas, basta abrir os olhos para ver que estamos avançando numa nova direção, criando uma nova visão de mundo, em que a ênfase deixa de ser o cosmo e passa a ser em nós, humanos: o mistério não é que um Universo especial gerou criaturas mundanas, e sim que um Universo mundano gerou criaturas especiais”, escreve Gleiser em “Criação Imperfeita” (Editora Record), argumentando que são as assimetrias e imperfeições que tornaram possível a nossa existência. A palavra “mundano” está em itálico no livro porque, a priori, é uma metáfora para a imperfeição da natureza cósmica.

Assimetria nas Flores (Roger Marzochi)

“o mistério não é que um Universo especial gerou criaturas mundanas, e sim que um Universo mundano gerou criaturas especiais”

A espiritualidade de Gleiser, que independente de religião, também tem sido promovida por meio do programa no YouTube “Caminho do Bem Viver”, no qual ele entrelaça cosmologia e a arte de viver, numa expressão áudiovisual muito próxima à beleza de suas palavras no livro “A Simples Beleza do Inesperado” (Editora Record).

As assimetrias e as forças imperfeitas que fazem do Universo um grande mistério também estão presentes em nossas mentes. Há quem diz praticar caridade, mas desconhece ágape pelo simples fato de defender governantes que apoiam e enaltecem a tortura e a pena de morte, promovem desinformação, incentivam a violência contra mulheres e homossexuais, incitam a intolerância religiosa e ameaçam a liberdade de expressão.

Desde aquela manhã de um fevereiro de ruas molhadas, a busca pelo significado da caridade me levou até uma associação que é uma verdadeira máquina “do bem”, com ramificações internacionais. Uma de suas representantes, no entanto, deixou escapar que para ela as frases lastimáveis do atual Presidente da República são apenas marketing, ele não é o que diz. Desde então, houve a defesa do Golpe de 1964, ofensa aos palestinos, violências em vários aspectos.

E, mesmo se fosse “marketing”, que tipo de sociedade vivemos para que o discurso de ódio seja inspiração de nação? Não vem ao caso revelar nomes, liberdade de expressão é também saber respeitar nossos limites, visto que muito do que vivemos hoje é reflexo de um denuncismo histérico. Não é por acaso que encontrei Gutemberg, que talvez tenha esse nome em homenagem a Johannes Gutenberg, que no século 15 criou os tipos móveis de impressão que revolucionaram a imprensa.

Assimetria na Música (Roger Marzochi)

“A caridade é um impulso de amor que faz você ver o outro como um templo divino. O povo confunde com filantropia, que sempre diferencia o ajudado de quem ajuda”

O senhor que recicla latas precisa de um emprego, precisa ressignificar sua existência nessa nova era; as crianças precisam de um plano de educação e não de uma cartilha “contrarevolucionária” de um ideólogo da Idade Média; é preciso promover a arte, a ciência e a tecnologia.

É preciso de muita “ágape” em tempos como em que vivemos, de ódio e de guerra, seja semântica ou física. A caridade só tem sentido se praticada. Que possamos ter a consciência mais ampla que cada um de nós somos agentes desse amor incondicional que é a humanidade. Ela pode estar em falta em algum lugar distante na África? Pode. Mas, como diz uma querida amiga, a caridade também está na forma como nos relacionamentos em casa e com as pessoas ao nosso redor.

 

Comentários
3 Respostas para “Caridade em tempos de crise”
  1. Joana Peressinotto disse:

    Parabéns, meu filho! Você é um gigante! Beijos!

  2. Rosinha disse:

    Como você escreve com clareza um assunto tão profundo.Gostei muito.Deus te ilumine e que venha mais lindos textos como este. Obrigada.

  3. Sidemberg Rodrigues disse:

    Matéria irretocável, oportuna e iluminada em tempo de muita escuridão. Parabéns, Róger.

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