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Com máquinas pintando quadros, compondo música e dando diagnósticos estarão artistas e cientistas ameaçados de extinção?

Roger Marzochi, do @entresons.com.br (Instagram); foto de visitante observando a obra “Deep Meditations: A brief history of almost everything in 60 minutes”, de Memo Akten, no Itaú Cultural, crédito Roger Marzochi

Quando Eduardo Reck Miranda ganhou um rádio, na década de 1970, ele não gostava apenas de ouvir música. Ao mexer no dial, ele ficava fascinado com os ruídos entre as estações. “Lembro-me de passar horas ouvindo rádio fora de sintonia, imaginando que os ruídos eram vozes e músicas de outros planetas”, diz Miranda, professor de música computacional e coordenador do Centro Interdisciplinar de Música Computacional da Plymouth University, do Reino Unido.

Como o seu pai era técnico em eletrônica da Aeronáutica, Miranda realizou diversos experimentos sonoros construindo seus próprios equipamentos. Acabou se formando em informática no Rio Grande do Sul. Insatisfeito, cursou música no Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre. Mas não terminou o curso, pois estava interessado em música clássica, e passava a maior parte do tempo na biblioteca, onde aprendeu o básico sobre inteligência artificial e construiu sua primeira placa MIDI para computador e teclado.

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“Os sistemas geram ideias que eu uso nas composições. A IA é para ajudar minha criatividade e não substitui-la”, diz o músico Eduardo Miranda. Foto de Divulgação.

De suas experiências no início da década de 1980 até hoje, o salto foi gigantesco. No ano passado, Miranda lançou o CD “Mind Pieces, Sound to Sea – Computer-Aided Symphonic Works”, no qual o músico utilizou inteligência artificial (IA) para compor as partituras que são executadas pela Ten Tors Orchestra, com a participação da mezzosoprano Juliette Pochin. Os movimentos “Rewind” e “Automata” foram compostos pelos programas de computador usados pelo artista, capturando padrões musicais em obras de Johann Sebastian Bach, Heitor Villa Lobos, Maurice Ravel, entre outros. Nas outras seis faixas, o músico também cria, mas ainda busca inspiração no algoritmo. “Os sistemas geram ideias que eu uso nas composições. A IA é para ajudar minha criatividade e não substitui-la.”

Para quem pensava em ouvir música de outro planeta como Miranda, o uso da IA na arte causa profundas reflexões até em quem acredita em alienígenas. Avi Loeb, chefe do Departamento de Astronomia de Harvard, está no olho do furacão em decorrência da sua tese de que o Oumuamua, o primeiro objeto interestelar a visitar o Sistema Solar em 2017, possa ser uma nave espacial alienígena.

Apesar dos possíveis impactos que possa ocorrer no encontro de humanos com extraterrestres, Loeb também se preocupa com outro tipo de inteligência: a artificial. Em artigo publicado em março em seu blog na Scientific American, Loeb questiona até que ponto a IA poderá ser usada para criar arte ou realizar novas descobertas científicas. Para ele, é mandatório a participação de artistas e pesquisadores das ciências humanas no desenvolvimento dessa tecnologia. Para ele, é preciso investir nas disciplinas das ciências humanas, mais que propriamente nas ciências exatas nesse novo universo que está surgindo.

Até na pintura a IA está avançando. Em outubro do ano passado, artistas do coletivo francês Obvius usaram aprendizado de máquina na obra “Portrait of Edmund de Belamy”, que foi a leilão na britânica Christie’s. Em sete minutos, a obra foi vendida por US$ 432,5 mil, na primeira oferta de um quadro feito com ajuda da máquina. Na quarta-feira 12 de junho, o robô humanoide Ai-Da fará a sua primeira exposição de arte no Reino Unido. De acordo com a Reuters, é a primeira robô humanoide ultrarrealista criada pelo britânico Aidan Meller, capaz de pintar, fazer esculturas e criar vídeos. Os oito desenhos, 20 pinturas, quatro esculturas e dois vídeos que serão expostos já foram vendidos pelo valor de R$ 4,9 milhões.

“Eu te digo: qual artista que a qualquer época da história do homem não esteve ligado à tecnologia do seu tempo?”, pergunta a arquiteta e artista-cientista Tânia Fraga, que cria mundos virtuais no computador que interagem com o público e desenvolve atualmente um chat com IA baseado no programa Elisa, criado na década de 1960, no MIT. “Se pensar num carvão na parede, é uma tecnologia. A câmara escura virou a máquina fotográfica depois. É o paradigma. Eu acho que, prá mim, o computador é a tecnologia do meu tempo. E eu acho que, na mão de artistas, vai haver um desenvolvimento sensível; na mão de engenheiros, soluções de engenharia. Engenheiro quer controle. Eu tenho horror ao controle, quero liberdade. Se quiser um mundo melhor, os artistas têm que mergulhar nesse mundo.”

Fraga argumenta que a IA nunca terá a capacidade que o ser humano tem de sonhar, que é uma forma lúdica de acessar uma sabedoria universal capaz de inspirar a criação. Ela dá como exemplo a descoberta do Anel de Benzeno, peça fundamental da química orgânica. Friedrich August Kekulé Von Stradonitz (1829-1896) conseguiu resolver o enigma que faltava para se entender a estrutura do benzeno, um dos principais desafios do século 19, uma vez que os químicos da época não conseguiam explicar a estrutura dessa substância por estarem restritos à ideia de uma cadeia química aberta.

Kekulé teve um sonho onde os átomos dançavam como cobras. E, de repente, uma cobra mordeu o seu próprio rabo. Ao acordar, percebeu que para haver uma estrutura tão forte era necessário que houvesse uma cadeia fechada, formando um sistema hexagonal. “Isso é o lado humano, não tem como a máquina fazer isso. É uma sabedoria cósmica que a gente acessa”, afirma Fraga. “Será que a máquina não pode sonhar também, mas de uma forma diferente?”, questiona o gerente do Núcleo de Inovação do Itaú Cultural, Marcos Cuzziol. Em meados de maio, a instituição finalizou a exposição “Consciência Cibernética [?] Horizonte Quântico”, com a ideia de dar a sensação estética do salto tecnológico que representará o universo da computação quântica na sociedade.

2Marcos Cuzziol explica obra Co(AI)xistence

Cuzziol apresenta a obra “Co(AI)xistence”, vídeo da francesa Justine Emard que mostra o robô Alter aprendendo a dançar com o dançarino japonês Mirai Moriyama. Crédito: Roger Marzochi

“Borgy & Bes”, uma das nove obras que ficaram em exposição, vai do sonho ao pesadelo. A obra é do austríaco Thomas Feuerstein, que faz uma “incisão cirúrgica” na sociedade a partir de dois robôs montados em dois refletores usados em mesas de cirurgia. Os equipamentos, da década de 1950, possuem autofalantes e travam um diálogo em russo do século 19, uma vez que Bes é um dos personagens de “Os Demônios”, de Dostoiévski. Uma máquina lê posts publicados em sites e redes sociais russas, adapta a linguagem àquela usada no século 19, enquanto a outra máquina ouve e responde. Cuzziol conta que, em março, visitou o local antes da abertura para o público e ficou chocado. Uma das máquinas leu um post sobre a queda do segundo avião 737 Max, na Etiópia. E a outra máquina disse: “Mais outro”. “Que tipo de consciência virá de um algoritmo quântico? Está além do que a nossa capacidade permite”, diz Cuzziol.

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“Borgy & Bes”, obras do austríaco Thomas Feuerstein,, vai do sonho ao pesadelo. Crédito Roger Marzochi

Comentários
Uma resposta para “Criatividade artificial”
  1. É uma tendencia natural…a consciência ganhar consciência, limite? acho que não existe é infinito o problema começa quando intentamos deter a sua corrida e um de seus inimigos é o Ego muito a pesar de te-lo criado. A IA é uma criação do Ego tanto quanto a “verdade” sob o qual este se apoia; quando fundamentamos a redundância para justificar a verdade não fazíamos nada mais do que começar o jogo dos espelhos refletindo a nossa imagem, porém esquecemos o” tempo” que também queria participar e foi ai que o jogo fico cada vez mais sofisticado.
    Mas de que consciência estamos falando? certamente da consciência mecânica aquela que adotamos nos primórdios da civilização…agora depois de muito tempo a maquina reclama a sua paternidade e nós como criadores malfadados desta maquina ficamos no ar achando que a IA é nossa. A virtude do conceito IA é que nos coloca frente ao vazio que nunca curtimos: nossa “natureza biológica” tudo isto é um assunto longo de ser comentado e passa por conceitos de “espaço tempo” e finaliza com a compreensão de “consciência mecânica” que é o que tentamos contrapor a nossa “consciência biológica” por meios puramente mecânicos.

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