Ebonit

Ebonit, Ébonita!

Após lançar disco em homenagem a Debussy, quarteto holandês de saxofone Ebonit se prepara gravar peças contemporâneas escritas para saxofone pelos ingleses Kevin Malone e Richard Whalley

 

Roger Marzochi, do @entresons.com.br; legenda da foto de divulgação: da esquerda para a direita, Alberto Tárraga Alcañiz, Paulina Marta Kulesza, Mateusz Pusiewicz e Dineke Nauta

 

O saxofone paira sobre o inconsciente coletivo como um instrumento do jazz, mas sua amplitude é gigantesca, passando por grandes nomes do choro e do samba como Abel Ferreira, Pixinguinha e Paulo Moura, ao mundo da música erudita. Pelo fato de ter sido criado em 1840 na Bélgica, grandes compositores eruditos não chegaram a conhecer esse instrumento, que teve impulso no início do século 20 por personagens importantes como Claude Debussy. Mas se depender de um quarteto de saxofones formado na Holanda em 2011, a influência desse instrumento na música clássica será cada vez maior.

O Ebonit Saxophone Quartet, que lançou no ano passado o CD “Arabesque”, em homenagem a Debussy, acredita que é uma questão de tempo para que o instrumento cresça no mundo da música clássica contemporânea. “Muitos dos grandes compositores eruditos não tiveram a chance de ‘ser apresentado’ a um saxofone. No entanto, os pais do saxofone clássico Marcel Mule e Sigurd Rascher fizeram um grande trabalho aproximando e convencendo muitos compositores de seu tempo a escreverem para esse instrumento”, diz a saxofonista polonesa Paulina Marta Kulesza, integrante do Ebonit, em entrevista por e-mail ao entresons.com.br.

“E não podemos nos esquecer que existem muitos compositores hoje que já escreveram e estão dispostos a continuar escrevendo para o nosso instrumento. Deverá ser muito interessante olhar para essa questão daqui a 200 anos para ver o que mudará.”

Em novembro, o quarteto entrará em estúdio para registrar o terceiro CD. “Vamos gravar quatro novas composições de dois fantásticos compositores e professores da Universidade de Manchester, no Reino Unido: Kevin Malone e Richard Whalley. Ambos exploram o saxofone até o seu limite”, explica Paulina. O Ebonit tem se apresentado nos principais festivais do mundo, vencido diversos prêmios, e espera um dia se apresentar no Brasil. Leia abaixo a entrevista com a musicista para conhecer um pouco mais sobre esse quarteto fantástico, cuja música “Ébonita” demais.

entresons.com.br - O quarteto Ebonit nasceu em 2011. Como vocês quatro decidiram iniciar a banda, onde nasceram e iniciaram seus estudos?

Paulina Marta Kulesza – Todos nós estudamos nas aulas de saxofone de Arno Bornkamp, foi assim que nos conhecemos. Em um primeiro momento, o quarteto foi criado como tema de música de câmara do Conservatório de Amsterdã, mas rapidamente se tornou um assunto sério. Eu nasci na Polônia, em Ostrow Mazowiecka, comecei a tocar aos 14 anos, e no quarteto toco sax barítono. Alberto Tárraga Alcañiz nasceu em Xilxes, na Espanha, em 1998. E começou a tocar saxofone aos seis e hoje no quarteto ele toca sax soprano. Dineke Nauta, que toca saxofone alto, nasceu em 1992 em Leeuwarden, na Holanda, começou a tocar aos nove anos. E Mateusz Pusiewicz, nosso sax tenor, nasceu em 1994 em Parczew, na Polônia, iniciou seus estudos aos 14 anos.

entresons.com.br – O saxofone é um instrumento que, na maioria das vezes, está relacionado ao jazz, à música pop e à world music. Como é a experiência de levá-lo para o mundo da música clássica, em uma orquestra de câmara?

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“Infelizmente, o saxofone é, com regularidade, subestimado. Por exemplo, continuam muitas orquestras sinfônicas chamando clarinetistas para tocar as partituras escritas para saxofone. Isso é algo que nós não gostamos muito”

Paulina Marta Kulesza – Isso é verdade. Na maioria das vezes em que as pessoas escutam que a gente toca música clássica no saxofone, eles arregalam os olhos e realmente não sabem que isso existe. Saxofone clássico tem vantagens e desvantagens no mundo da música erudita. Às vezes, os programadores musicais dos festivais dos quais nos aproximamos ficam um tanto quanto céticos, muitas vezes associando o instrumento com o jazz ou eles veem isso como um “animal estranho”. Mas sempre que eles assumem o risco de nos convidar para suas séries de concertos eles ficam positivamente surpresos. E o público sempre ama o nosso som clássico.

Infelizmente, o saxofone é, com regularidade, subestimado. Por exemplo, continuam muitas orquestras sinfônicas chamando clarinetistas para tocar as partituras escritas para saxofone. Isso é algo que nós não gostamos muito. O saxofone é um instrumento por si só, que é incrível, possui uma grande flexibilidade sonora, grande variedade de dinâmicas e cores.

entresons.com.br – Algumas vezes você não sente o desejo de tocar uma “blue note”?

Paulina Marta Kulesza – Gostamos de ouvir jazz e muitos outros gêneros diferentes. Mas eu diria que a música é um meio de comunicação no qual a música clássica e o jazz possuem linguagem e dialetos diferentes. A música jazzística pede também um material diferente daquele que usamos, como boquilhas de metal… Ebonit é um quarteto de músicos eruditos. E como um quarteto, fazemos o programa de música de câmara no Conservatório de Amsterdam e, simultaneamente, a Nederlands String Quartet Academy (NSKA), na qual nós trabalhamos especificamente com muitos renomados instrumentistas de música de câmara que eram, principalmente, músicos de cordas.

entresons.com.br – A primeira vez em que ouvi o saxofone no mundo da música erudita foi com o quarteto Blind Men, em uma gravação com músicas de Bach, e foi fantástico. Vocês receberam influências desse quarteto? Quais são suas influências nessa área?

Paulina Marta Kulesza – Eu acho que nossa maior influência foi primeiramente nossos professores e saxofonistas clássicos que são heróis que admiramos muito, especialmente no início de nossa jornada musical. Com o tempo, nossa educação e a exploração de mundos musicais estivemos diante de músicos fabulosos, artistas e criativos que nos inspiram. Para citar alguns nomes: Danel Quatour, Quatour Ebene, Emerson String Quartet, Artemis String Quartet, Belcea String Quartet, Stefan Metz, Eberhard Feltz, Luc-Marie Aguera, Heime Muller, Sven Arne Tepl… No fim das contas, essa lista não tem fim… :)

entresons.com.br – Eu também tive a grande felicidade em ouvir “Concertino para Saxofone”, do maestro brasileiro Radamés Gnatalli, em um vídeo no YouTube com apresentação do saxofonista brasileiro Léo Gandelman. Você já ouviu essa música? E porque parece que o saxofone é desprezado pelos compositores eruditos?

Paulina Marta Kulesza – Nós nunca escutamos essa música. É uma peça bem melódica, bela e fácil. E sobre sua outra pergunta, é uma boa questão, é algo que causa um certo incômodo. Em primeiro lugar, o saxofone é um instrumento muito jovem. Muitos dos grandes compositores eruditos não tiveram a chance de “ser apresentado” a um saxofone. No entanto, os pais do saxofone clássico Marcel Mule e Sigurd Rascher fizeram um grande trabalho aproximando e convencendo muitos compositores de seu tempo a escreverem para esse instrumento. E não podemos nos esquecer que existem muitos compositores hoje que já escreveram e estão dispostos a continuar escrevendo para o nosso instrumento. Deverá ser muito interessante olhar para essa questão daqui a 200 anos para ver o que mudará :)

entresons.com.br – “Arabesque”, o segundo CD do Ebonit, faz um tributo a Debussy. O que levou o quarteto a homenagear um compositor como ele, tão importante para a música moderna? E quão difícil é transformar peças musicais tocadas por grandes orquestras para um quarteto de saxofones? Especialmente, com a transposição de cordas para sopros, que vocês realizam em músicas de Bach a Mozart.

Paulina Marta Kulesza – Em 2018 houve a comemoração do centésimo aniversário da morte de Debussy, este foi o ponto inicial para se fazer esse trabalho. Debussy é também um dos compositores eruditos mais conhecidos que realmente escreveu para saxofone. Uma coisa única no Ebonit é que nós fazemos muitas de nossas próprias transcrições e arranjos para a nossa formação. É claro que, com o tempo, ficamos cada vez melhores em fazer isso. Mas nem sempre é fácil e, definitivamente, é um processo. Para descrevê-lo de uma forma breve, nós temos o costume de trocar nossos desejos musicais, escolhendo as peças que desejamos tocar. Checamos na partitura original o que pode ser arranjado e o que não é. O que é muito importante é o alcance (sonoro) do instrumento, a quantidade de vozes da partitura ou articulações e técnicas específicas. Então, fazemos o primeiro arranjo e testamos no primeiro ensaio, o que pode exigir algumas mudanças. É muito interessante e também educativo e divertido esse processo.

entresons.com.br –  Vocês pensam em compor suas próprias músicas?

Ebonit2Paulina Marta Kulesza – Talvez eu esteja errada, mas eu acho que nenhum de nós tem habilidade necessária para compor. Nós nunca tentamos compor para nós mesmos. Entretanto, fazer arranjos pode ser algo muito próximo do que se entende por compor. Muitas vezes em nossos arranjos precisamos ser muito criativos e “compor” um pouco para que ele funcione para o nosso quarteto. E tentamos trabalhar o máximo que podemos com compositores e nos sentimos responsáveis por ampliar o repertório do saxofone. E temos mais um interessante projeto em vista. Neste ano, em novembro, vamos gravar quatro novas composições de dois fantásticos compositores e professores da Universidade de Manchester, no Reino Unido: Kevin Malone e Richard Whalley. Ambos exploram o saxofone até o seu limite, é altamente recomendado acompanhar o trabalho deles!

entresons.com.br – Vocês têm planos de tocar um dia no Brasil?

Paulina Marta Kulesza – Infelizmente nunca tocamos no Brasil. Nós iríamos amar em visitar este país surpreendente, encontrar nossos amigos saxofonistas e explorar a música brasileira. Esperamos aparecer por aí um dia.

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