Tchella

Fora da prateleira

Tchella comemora em São Paulo um ano de “Transmutante” com gravação de DVD ao vivo em versão acústica desse seu primeiro disco livre de qualquer rótulo

Roger Marzochi, do entresons (Instagram @entresons.com.br) / Crédito das Fotos – Adriano Carmona 

Há nove anos, uma cantora independente chamada Glaucia Nasser me disse uma coisa muito importante. Ela explicou que, apesar de ser independente de gravadoras, ela era “dependente” de muita gente: todos os ídolos da música e da arte; sua família, amigos e músicos; e, principalmente, seu público. A multi-talentosa e multi-instrumentista Marcela Brito tem essa mesma visão. Apresentando-se como Tchella, nome artístico que ganhou de seu pai quando se formou em artes cênicas, ela gravou em 2018 o disco “Transmutante”. Em julho, o trabalho completa um ano e será comemorado no dia 13, um sábado, com show acústico com o compositor e multi-instrumentista Antonio Dantas.

O evento será gravado, eternizado em DVD, que será batizado de “Acústico Transmutante Ao Vivo”. “Eu preciso de vocês nesse DVD, a participação do público é muito importante, preciso muito que vocês estejam aqui”, diz Tchella em vídeo divulgado nas redes sociais, conclamando seu público, que já a apoiara há 12 meses numa campanha de financiamento coletivo que possibilitou o lançamento do trabalho. “Fizemos esse show no Rio, em maio. E gostei tanto do resultado versão voz e violão e vou trazer esse show para comemorar em São Paulo”, explica a artista em entrevista ao entresons.com.br.

As 10 músicas de “Transmutante” são profundas, algumas são resultado de um período no qual a artista passou por uma profunda depressão. Assim como diz a letra de “Psicologia”, a arte lhe permitiu expressar a sua tristeza. Mas Tchella explica que depressão é coisa muito séria. A música lhe ajudou a evitar que a dor a consumisse, mas o que possibilitou realmente a sua recuperação foi o acompanhamento com psicólogo.

“Depressão é uma doença grave e é banalizada demais por aí. E me chegaram vários casos de pessoas que se suicidaram. Algumas tinham preconceito (em fazer análise) e não procuraram ajuda”, explica a artista, que chega algumas vezes a discutir no palco questões relativas a esses momentos. “Eu me descobri compositora na fase de depressão, ajudou como válvula de escape, eu só me expressei. Mas o que fez com que eu aprendesse a lidar e conseguisse me superar foi fazer terapia e uma série de mudanças na minha vida”, afirma.

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“Eu me descobri compositora na fase de depressão, ajudou como válvula de escape, eu só me expressei. Mas o que fez com que eu aprendesse a lidar e conseguisse me superar foi fazer terapia e uma série de mudanças na minha vida”

Sua atitude e voz são poderosas. E, como não somos “independentes”, o mais difícil seria encontrar um padrinho para Tchella. Na música e nas letras, quem sabe Rita Lee poderia colaborar como madrinha! Por que não? Ou, quem sabe, a atriz Fernanda Torres. O fato é que todos temos histórias mais complexas que as biografias autorizadas. Tchella começou no teatro aos 12 anos, estudando já com o palco e o público em mente. Aos 17, ela trabalhou como profissional e teve diversas experiências no teatro, no teatro de rua, no circo e até no cinema. E, aos poucos, entendeu que faltava dar asas à sua veia sonora.

Em um musical em homenagem a Patativa do Assaré, que circulou por Portugal e Holanda, Tchella teve a certeza de voar nesse sentido. “Fui convidada pelo Núcleo Caboclinhas para substituir duas atrizes, duas funções, uma atriz e uma musicista. E como tenho essas habilidades consegui fazer essa substituição. Eu fazia o próprio Patativa do Assaré e tocava todos os instrumentos e guiava as canções. Apresentamos para diversos públicos, até para quem não entendia a língua portuguesa. Mas com a força do nosso baião o público se emocionou. Muitas pessoas que não entendiam o que falávamos entenderam a estética da peça e se emocionaram por nossa expressão. Foi uma experiência muito importante na minha carreira e possibilitou gravar meu disco.”

Mas, no senso comum, que vez ou outra nos sopram aos ouvidos, “atriz não canta bem”. “Esse tipo de visão me fez sofrer por muito tempo. Porque sempre me entendi como artista plural e achava natural, dentro do teatro. Para ser uma boa atriz seria bom fazer aula de dança, tocar um instrumento, cantar… quanto mais plural mais enriquecedor é. Porque o ator vive do trabalho do corpo, emoções e do coletivo. Ser atriz exige que esteja atenta a muitas coisas que as pessoas não se ligam: precisa sentir a luz, contracenar com o parceiro, cenário, olhar o público. Na formação do trabalho do ator quão plural mais enriquecedor ficamos. Mas o mundo real quer nos colocar um rótulo, te carimbar e colocar na prateleira dos cantores, dos atores e dos jornalistas. Isso porque fica mais fácil manipular as situações e as pessoas. E nós somos muitos, somos uma infinidade de personas.”

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“Clamo para ir, sempre em frente sem resistir, ao que há de vir. Devo ultrapassar todas dimensões, expandir o meu coração.”

Ela avalia que isso vem da forma como tem sido criado várias gerações, com projeções sobre profissões que podem ser seguidas pelas crianças, projeções sobre os sonhos dos pais que não foram realizados. “Olhar para isso é passar a se refletir e a se reconhecer. E isso te faz questionar algumas coisas e não aceitar outras, algumas até banais como não comprar a calça da moda, porque não tem a ver comigo. Chega a um grau de reflexão que você muda seus hábitos diários. E não é interessante para o capitalismo que as pessoas reflitam sofre como são. E tem gente como eu que tem a força de ser plural, muitos têm e não conseguem e sofrem. E há quem pense que eu era arrogante por querer ser várias coisas. Ter várias habilidades me possibilitou sobreviver melhor como artista, e vamos se equilibrando como pode. O meu show tem curva dramática bem intensa porque mostra várias facetas de mim, da alegria à profunda tristeza.”

Ser uma artista de múltiplos talentos coloca Tchella – e muitos de nós que somos plurais – fora da prateleira da sociedade de consumo da forma como tem sido desenvolvido desde a Revolução Industrial, mas alça artistas independentes como ela para uma gama de possibilidades dentro da interdependência dos afetos e da experiência emocional que transcendem ao entretenimento. “Vou encontrar o lugar onde quero estar, sem me afobar. Rezo e peço para seguir, minha direção. Sempre digo não ao que eu não quero mais”, canta Tchella em “Lugar”. “Clamo para ir, sempre em frente sem resistir, ao que há de vir. Devo ultrapassar todas dimensões, expandir o meu coração.”

Acústico Transmutante Ao Vivo

Dia 13/07, às 21h

Ingresso no Sympla

Local: Teatro de Utopias

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