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Um antídoto contra a violência

Em novo disco, pianista americano Chick Corea defende que a arte pode curar a sociedade; o músico ainda faz mistério ao revisitar “Desafinado”, clássico da bossa nova criado por Tom Jobim e Newton Mendonça e agora interpretado por uma amiga da família Corea

Roger Marzochi, do entresons / Imagens do YouTube

(Instagram: @entresons.com.br / Facebook: www.facebook.com/Entresons)]

Faça amor, não faça a guerra. E o amor pode se expressar de diversas maneiras. O pianista americano Chick Corea compartilha com o mundo a sua contribuição com essa máxima pacifista por meio de sua música, desde dos anos 1960. E, em 28 de junho, o músico com ascendência italiana, mas de coração latino, lançou o álbum “Chick Corea and The Spanish Heart Band: Antidote”, com músicas dos álbuns “My Spanish Heart” (1976) e “Touchstone” (1982). Revisitar grandes clássicos que traduzem o amor de Corea pelo universo latino-americano contou com grandes músicos de diversas partes do mundo, como Cuba, Espanha e Venezuela. E, no jazz, especialmente para artistas que transpiram música como Corea, a música gravada nunca será exatamente a mesma daquela apresentada no palco, tornando uma das expressões musicais mais inovadoras do mundo.

Há, obviamente, ainda mais novidades no álbum. A primeira é “Antidote”, nova música composta por Corea para esse trabalho, interpretada pelo advogado, cantor e ator panamenho Rubén Blades. “A mensagem da música é simples: nós, os músicos e artistas, somos o antídoto para as doenças do mundo. Nós somos os únicos capazes de acabar com a guerra e a crueldade porque fazemos as pessoas cantarem e dançarem, nós as trazemos de volta ao seu estado nativo, seu espírito nativo”, explica Corea em comunicado enviado pela assessoria de imprensa do artista.

O tema é extremamente sério nos tempos atuais, com a ascensão da extrema-direita em todo mundo, o avanço do fundamentalismo religioso, o recrudescimento da tensão no Oriente Médio e a proliferação de armas atômicas. E a arte, sem dúvida, tem um papel importante nesse processo. Um dos principais desafios da sociedade contemporânea é conseguir unificar o conhecimento intelectual à experiência. Não no sentido usual da expressão, de se aplicar o conhecimento na prática, mas sim em valorizar a experiência e reconhecer que o corpo é fonte de sabedoria. Ao estudar a música e a dança em expressões religiosas afro-americanas em Cuba, Haiti e Bahia, a antropóloga Yvonne Daniel explica, em seu livro “Dancing Wisdom”, que por muito tempo o conhecimento intelectual foi visto como superior à experiência.

Mas, para a autora, a força do poder da experiência estética, emocional e espiritual não pode ser separada do conhecimento teórico. De acordo com ela, gerações foram incentivadas a pensar que o conhecimento teórico seria superior ao conhecimento empírico, causando uma dicotomia do saber. Ambas as experiências, teórica e estética – levando em consideração a intuição e a sinestesia – deveriam caminhar juntas para formar o que a cientista chama de “conhecimento incorporado”.

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“Nós, os músicos e artistas, somos o antídoto para as doenças do mundo. Nós somos os únicos capazes de acabar com a guerra e a crueldade porque fazemos as pessoas cantarem e dançarem, nós as trazemos de volta ao seu estado nativo, seu espírito nativo”

“A performace, as artes, a espiritualidade operam no sentido de corrigir e ajustar o ‘conhecimento desincorporado’ (aquele que privilegia o conhecimento intelectual). Através dos tempos e de um esforço extraordinário, performace, artes, e espiritualidade talvez transformem um ‘conhecimento desincorporado’ em ‘conhecimento incorporado’. A performace oferece benefícios tanto pessoais quanto sociais. O intelecto, considerado como o único conhecimento válido, tem suas deficiências, que se expressam em limitadas e inflexíveis perspectivas. Nós podemos encontrá-las em comportamentos sociais destrutivos e estados debilitantes de autoestima”, afirma.

A arte é, portanto, muito mais que uma forma de entretenimento, mas também uma “medicina social” caso seja integrada à vida em um sentido mais amplo, não restrito ao conceito de “sucesso” do praticamente, seja pela sua valoração estética quanto mercadológica. Para isso, a arte precisaria ir além de ser uma atividade extracurricular em escolas, para ter papel idêntico às outras disciplinas. É em decorrência dos vários benefícios da arte na saúde, não apenas do corpo mas da mente – uma vez que a mente é muito mais que apenas o cérebro – que governos de extrema-direita promovem campanhas contra os artistas, especialmente no Brasil. Não há dúvida que Chick Corea talvez não consiga levar essa mensagem àqueles que detêm o poder, mas “Antidote” chega em boa hora para revigorar o papel da arte e dar impulso ao desafio dos artistas na busca de mudanças sociais.

Em texto divulgado pela assessoria, Corea explica que muito dessa visão libertária da arte passa pela cultura latino-americana, mas sem antes lembrar que essas expressões são também resultado de fusões das culturas europeia, africana e do Oriente Médio. Um exemplo magnífico dessa confluência de tradições está em “Zyryab”, clássico do violonista de flamenco Paco de Lucía, em homenagem ao poeta, músico e astrônomo persa do século 9, que levou para a Espanha a influência do alaúde e da cultura africana e oriental que temperou a música flamenca. Dois dos músicos da Spanish Heart Band, aliás, que fizeram parte da banda de Lucía, participam do disco: o violonista Niño Josele e o flautista e saxofonista Jorge Pardo, ambos espanhóis.

Com forte influência da música latino-americana e do jazz norte-americano, o trabalho também apresenta uma nova versão para “Desafinado”, canção de Tom Jobim e Newton Mendonça, que na voz de João Gilberto deve ser talvez uma das melhores interpretações do planeta Terra (para um brasileiro). Mas é preciso, portanto, avançar. E sempre se arriscar na arte. E na versão de Chick Corea essa bossa nova ganha um suave, bem suave, tempero caribenho na percussão e na voz de Maria Bianca, amiga da família Corea.

Especialistas em música consultados pelo entresons.com.br desconhecem essa cantora, sobre a qual nem mesmo a assessoria de imprensa de Corea, a The Kurland Agency, quis dar detalhes. Tudo que foi informado é que Maria Bianca é amiga de Chick Corea e de sua esposa Gayle Moran Corea, que neste trabalho faz um coral vocal em “The Spanish Heart”, com letra recente defendida por Rubén Blades. Em pesquisa na web, há quem diga que Maria Bianca é uma cantora brasileira. Se realmente nasceu no País, deve ter vivido muito tempo no exterior pelo belíssimo sotaque. E, de qualquer forma, Jobim e Mendonça estão muito bem representados.

“’Desafinado’ é uma das minhas músicas favoritas do grande compositor brasileiro Antônio Carlos Jobim que, junto com João Gilberto e outros, inventou a música bossa nova, que realmente influenciou o jazz em os anos sessenta. De fato, quando eu estava com Stan Getz, tive o prazer de trabalhar com João Gilberto, que cantou as melodias de Jobim de maneira tão bela. Eu tenho tocado piano solo de ‘Desafinado’ já há algum tempo, mas para este projeto, já que a música tem letras especialmente legais, eu queria usar um vocalista. Na verdade, existem dois conjuntos de letras – letras em português de Newton Ferreira de Mendonça e letras em inglês do grande Jon Hendricks. As letras de Mendonça são únicas – elas são realmente uma espécie de defesa da bossa nova. Eu organizei para a banda e pedi a minha velha amiga e talentosa vocalista Maria Bianca para cantar. O novo arranjo começa com uma seção que eu compus como um disfarce. Você verá o que quero dizer quando ouvir isso”, explica Corea, em comunicado aos jornalistas. Experimenta você também esse “remédio social” nas melhores plataformas de streaming de música.

 

*Como músico e jornalista tenho também o meu lado “farmacêutico/terapeuta” ao escrever sobre arte. E, assim como a grande imprensa, preciso da ajuda de meus pacientes leitores para continuar existindo. Colabore com o que for possível no crowdfunding do entresons no www.benfeitora.com/entresons.

 

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