Rio Tocantins Estreito Maranhão Crédito Roger Marzochi

Núcleo Contemporâneo responde com arte à “destruição do País”

Em momento de “uma certa barbárie”, Benjamim Taubkin traz música e afetos, apresentando a sua melhor face

Roger Marzochi, do entreson.com.br, texto e fotos. Legenda: imagem do Rio Tocantins na cidade de Estreito, no Maranhão

(Facebook: www.facebook.com/Entresons – Instagram: @entresons.com.br)

 

É possível pegar um ônibus de uma cidade a outra viajando com a cortina fechada e não ver paisagem alguma. Ouvir o pianista Benjamim Taubkin é como viajar levitando por entre todas as paisagens do mundo. Há 22 anos, a produtora e gravadora Núcleo Contemporâneo, criada pelo músico, segue impulsionando a música instrumental brasileira e, até hoje, lançando CDs, em plena era da música líquida dos streamings.

E acabam de sair novidades desse fogo criador: o CD “Encontros”, no qual Taubkin toca com o violeiro Ivan Vilela, trabalho que será lançado em show no Sesc 24 de Maio, no dia 7 de agosto; e “O Piano que Conversa”, CD e DVD com o filme de Marcelo Machado, que acompanhou o pianista em dois países e músicos de cinco nacionalidades, vencedor do Prêmio do Público no Festival in Edit de 2017. Leia as matérias que o entresons.com.br já publicou sobre o Núcleo Contemporâneo (a Casa do Núcleo, no entanto, não existe mais) e o DVD.

O primeiro trabalho nasceu do projeto Série Encontros Musicais, promovido pelo Sesc Pompeia, em 2014, que unia artistas que nunca haviam se encontrado no palco. A experiência da fusão do piano de Taubkin e da viola de Vilela foi tão satisfatória que os músicos fizeram outros cinco concertos até decidirem pela gravação desse emaranhado de fios que está na capa do CD, a arte e fotos de Teresa Maita.

Esses sons ampliam muito os horizontes. É como sobrevoar por rios, florestas e, também, monoculturas – enquanto não estiverem aplicando agrotóxicos, resta ainda uma beleza em se ver a vastidão do tapete verde a se perder de vista. “Acho que foi o desejo de fazer algo aberto, um pouco da amplitude que o País tem. O Ivan tem essa abertura muito grande como músico, fica fácil com ele”, diz Taubkin.

Pastagem em Goiás Crédito Roger Marzochi

“Acho que foi o desejo de fazer algo aberto, um pouco da amplitude que o País tem. O Ivan tem essa abertura muito grande como músico, fica fácil com ele”, diz Taubkin. Legenda da foto: pastagem de gado em Goiás

Nesse registro estão três composições de Vilela, três de Taubkin e outras três de Milton Nascimento, como as inesquecíveis “A Lua Girou”, “Cravo e Canela” (Bituca e Ronaldo Bastos) e “Milagre dos Peixes” (Bituca e Fernando Brant). Uma das composições do pianista de sobrancelhas densas é “Encontro”, talhada na medida para esse duo. “A Força do Boi”, de Ivan Vilela, lança um olhar para além das carroças puxadas por boi, pela sua força bruta. Mas atenta para a curiosidade mansa desse animal, que quando te olha do outro lado da cerca chega a virar a cabeça de lado, como se estivesse fazendo uma triste saudação.

E o som não para. Recentemente, Taubkin foi o entrevistado do guitarrista Nelson Faria, do programa “Um café lá em casa”, gravando um EP com composições de Bituca e Tom Jobim, que tem um resultado incrível. Na semana passada, o EP foi tocado em uma rádio de jazz em Israel por três dias, conta Taubkin. O duo ainda foi convidado para o festival de música de São João da Boa Vista.

Taubkin explica, em carta endereçada aos jornalistas, a profissão de fé que abraçou, a defesa do ritmo de produção da música até virar um CD, mesmo em tempos de compartilhamento de música pelo web, para mostrar que este é como um ritual. “Em tempos de uma certa barbárie, o cuidado, a atenção, o respeito ao tempo e aos seus processos nos parecem ainda mais importantes”, escreve.

Em entrevista por telefone, o músico se aprofunda em sua reflexão sobre barbárie. “São momentos muitos difíceis. Há um projeto de destruição do País. Quem tem afeto pelo País, pela humanidade, pelas artes, pela filosofia e pelo desenvolvimento do ser humano se preocupa. E um mínimo de compaixão das pessoas que tem poucos recursos, porque este é um projeto de destruição, o País está sendo conduzido por pessoas que não pensam. Mas, ao mesmo tempo, acho que temos que responder com o que temos de melhor, com a arte, a convivência, os afetos e o que a gente puder.”

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