As Cangaceiras Crédito Karim Kahn

Uma semente de esperança no sertão

Indicado a dois prêmios, o dramaturgo Newton Moreno faz da luta pela liberdade em “As cangaceiras” um hino de resistência em tempos de brutalidade

Roger Marzochi, do entresons.com.br; crédito da foto Karim Kahn

(Facebook: www.facebook.com/entresons – Instagram: @entresons.com.br)

Serena queria apenas encontrar o seu menino, retirado à força ao nascer e já com sentença de morte determinada pelo cangaceiro Taturano. E, em sua fuga, transforma a sua busca em uma verdadeira guerra no musical “As Cangaceiras Guerreiras do Serão”, do dramaturgo Newton Moreno, que recebeu na semana passada indicações na disputa de melhor dramaturgia nos prêmios Shell de Teatro e da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). A peça, que começou a ser apresentada em abril, encerra sua temporada no dia 4 de agosto no Teatro Sesi, no Centro Cultural Paulista, em São Paulo. O musical penetra fundo na alma em poesia, luz, som e movimentos.

Mas não era a guerra que Serena queria em sua busca, tão somente sonhada enquanto puro amor desesperado de mãe. Interpretada magistralmente pela atriz e cantora Amanda Acosta, a personagem reverbera o grito de liberdade das mulheres no tempo do cangaço, ora aprisionadas aos padrões de comportamento da sociedade patriarcal, ora sufocadas pelo machismo e pela violência da vida rude dos bandos que vagavam pelo sertão. A luz do espetáculo é deslumbrante, o cenário, prático, simples e direto. E a banda ao vivo, separada do palco por um fino tecido translúcido, é incrível.

A sonoplastia e as músicas com ritmos nordestinos, com direção musical de Fernanda Maia, são muito envolventes. Ressaltam as linhas de contrabaixo do músico Pedro Macedo, que apresentava no último domingo, mas o instrumento também era revezado com Clara Bastos. Eles foram acompanhados por Daniel Warschauer ou Dicinho Areias (acordeon), Leandro Nonato (violão), Abner Paul (violoncelo) e Roberto Regina ou Felipe Parisi (violoncelo). Erica Rodrigues foi responsável pela coreografia, impecável. Todos os atores cantam maravilhosamente bem.

Na apresentação do último domingo, dia 21 de julho, apenas no início da peça, era difícil entender o que dizia o ator Marco França, que interpreta Taturano, em meio ao grave de sua voz e o sotaque arretado. Tirando esse início um tanto embolado, o desenvolvimento da peça foi fantástico, com muito movimento e pouquíssimo tempo para a monotonia. Apesar da tensão, havia muita cena engraçada.

Carol Badra, que deu vida à Zaroia, provocava gargalhadas nervosas com sua personagem.  Milton Filho, o Promessinha, era outro ator que conseguiu extrair o máximo de sua interpretação, outro personagem também muito hilário. Sem contar Pedro Arrais, o Volante, de olho nas recompensas para caçar o bando de Taturano e nas reportagens dos jornais da época.

Rebeca Jamir, que atuou como “Mocinha”, ao contracenar com Jessé Scarpellini, o Namorado, provocou muitas risadas em comentários sobre um amor aparentemente impossível entre uma cangaceira fora da lei e um volante que caça malfeitores, trazendo o texto mais uma vez para o cenário atual, no qual a dicotomia entre o “bem” e o “mal” não tem limites claros no Brasil.

As Cangaceiras Zaroia Crédito As Cangaceiras

“Ser livre e ser mulher no cangaço, podia? Com esta pergunta, entrego-me a um passado que ainda é presente da incrível e imprescindível fábula de Newton Moreno. E assim; ‘a cada passo que dou seu sou outra'”, escreve a atriz Carol Badra, que interpreta Zaroia. Crédito da Foto As Cangaceiras no Instagram.

Ao fim de cada ato, vez ou outra, era possível ouvir alguém da plateia gritar: “Resistência!” Sem dúvida, o dramaturgo conseguiu fazer da luta das mulheres no Nordeste, ambientada no fim do século 19, a um grito difuso de liberdade, em um momento dos mais complexos da humanidade, assim como Milton Nascimento fez de “Missa dos Quilombos” uma expansão da busca de liberdade do povo negro a todos os escravos da humanidade. Com certeza, o feminismo continua como uma forte bandeira, e deverá continuar por muito tempo em discussão, especialmente agora em que a violência contra a mulher só cresce.

Mas a liberdade está sendo sufocada dia a dia, por uma série de atores: por líderes que se dizem religiosos, que estimulam uma fé cega sem a devida interpretação das escrituras; por uma classe média que, com razão, quer se ver livre da corrupção, mas que opta pelo linchamento moral e físico de seus adversários; por um presidente ardiloso, violento e absurdamente vulgar, que joga no lixo não apenas conquistas históricas dos trabalhadores, mas a frágil liberdade de imprensa (mais livre para os donos dos veículos de comunicação que para os jornalistas), a independência entre os poderes e as garantias constitucionais; a liberdade está sendo sufocada pelos empresários, que querem enriquecer na companhia de grileiros, madeireiros e produtores rurais inescrupulosos.

“Quando é que o povo pensará como povo?” Se não me engano, é mais ou menos essa frase que os atores cantam ao fim da peça. E quanto mais tempo teremos para não fazer de escravo nossos semelhantes, sejam eles negros, índios, homens, mulheres e homossexuais? O povo quer ter seu espaço, ir ao médico, ajudar sua família, realizar seus sonhos, ter o seu trabalho. O povo é movido pelo mesmo amor de Serena. E, assim como ela, enfrenta uma batalha para seguir o seu caminho de coração, sem ter que gerar uma guerra que cria novos monstros.

Como plantar uma semente de paz frente a uma adversidade que parece ser imensurável, instransponível? Resta o consolo da máxima popular que afirma que não há mal que dure para sempre. E uma peça como a de Newton Moreno é uma dessas sementes.

 

As Cangaceiras Guerreiras do Sertão

Local: Centro Cultural FIESP (Teatro do SESI-SP): Av. Paulista, 1313 – São Paulo (SP) (em frente à estação TRIANON-MASP do Metrô.

quinta a sábado, às 20h / domingo, às 19h

Duração do espetáculo: 120 minutos

Classificação indicativa: 12 anos

Ingressos

Reservas antecipadas de ingressos online serão liberadas sempre às segundas-feiras, às 8h, para as apresentações da semana no https://www.sesisp.org.br/meu-sesi

Ingressos remanescentes e cota para público espontâneo são distribuídos 15 minutos antes, na bilheteria do teatro;

Para agendamento de grupos, os interessados devem enviar um e-mail para ccfagendamentos@sesisp.org.br com até 5 dias úteis da apresentação.

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