Anais Karenin Exposição no Japão 1 Crédito Divulgação

Com o barateamento de equipamentos e a facilidade de construir laboratórios particulares, artistas ressignificam as ciências biológicas discutindo conceitos como cura, memória e metodologia científica

Roger Marzochi, do entresons.com.br / Legenda da foto de divulgação: instalação “Invisible Immaterial”, da artista-cientista Anais Karenin, exposta em janeiro no Japão, resultado de seus estudos sobre o kampo, a fitoterapia japonesa, e o xintoísmo, antiga religião japonesa que ensina o “animismo”

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O artista plástico Roberto Burle Marx, reconhecido como um dos maiores paisagistas do mundo, usava plantas para fazer arte em seus jardins. Mas a busca pela natureza no fazer artístico extrapola o paisagismo. Jovens cientistas-artistas, empoderados com novas técnicas laboratoriais possibilitadas pelo avanço da tecnologia, vêm usando de plantas medicinais a bactérias para ressignificar conceitos como cura, memória e metodologia científica. Este é um ramo da bioarte, que lança um olhar lúdico para o mundo da biologia.

A “aura” de uma obra de arte, expressão definida pelo filósofo alemão Walter Benjamin para identificar sua autenticidade, cuja emanação é possível na relação direta entre a obra e o observador no exato momento da fruição estética, é capaz de se transformar num verdadeiro “remédio social” ao se embrenhar nas intersecções da vida pessoal do expectador aos símbolos de sua cultura. Benjamin argumentava que, no momento que uma expressão artística é reproduzida pela técnica, como a fotografia, a sua aura desaparece. O tema, debatido avidamente na academia, especialmente num momento no qual a reprodutibilidade técnica alcançou seu ápice com a internet, chega à tona na bioarte.

Anais Karenin Exposição no Japão 2 Crédito Divulgação

“A estética da arte e da biologia é também um tipo de remédio”, diz Anais Karenin. Na foto, planta medicinal que a artista usou para fazer arte em exposição no Japão em janeiro de 2019. Crédito da Foto: Divulgação

“A estética da arte e da biologia é também um tipo de remédio. Mesmo um cientista parte de um campo bastante imaginativo para formular suas hipóteses. Há um método para extrair a verdade, mas antes há um campo de suposição. Eu acho que os artistas estão nesse lugar quando trabalham com a biologia”, diz a artista Anais Karenin, que desenvolve obras com plantas medicinais e saberes ancestrais, área que começou a pesquisar aos 14 anos. Ela estuda medicina chinesa, plantas que curam e o conhecimento das mulheres que, no interior do país, manipulam essas espécies vegetais.

Como estudante de artes visuais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Karenin realizou instalações com tecidos. E, em 2015, ela decidiu acrescentar a essas obras as plantas que estudou. “Juntei tudo isso pensando na relação cotidiana do corpo com as plantas, na relação que deixamos de ter. Buscando entender quão orgânico são elementos que estão próximo, porque o tecido em algum momento também foi planta. E fiz experimentos de tecido com plantas medicinais, não só você as tomando, mas vestindo, imerso no universo de plantas. A ideia de estar dentro de uma floresta, que é o que não vivemos no cotidiano. É entender uma distância da natureza e dos conhecimentos acerca da natureza no ambiente urbano, da percepção da temperatura da terra, da vida de uma planta”, explica.

Em janeiro de 2019, Karenin apresentou a obra “Invisible Immaterial” no Japão, resultado de seus estudos sobre o kampo, a fitoterapia japonesa, e o xintoísmo, antiga religião japonesa que ensina o “animismo”, um conceito que defende que todos os elementos têm vida pulsante e que o mundo espiritual está na natureza. “Tem árvores que eles fazem amarração de cordas que indica que alí vive um Deus e que a árvore nunca pode ser cortada. E comecei a pesquisar essa percepção da natureza, e meu trabalho foi nesse lugar de investigação. E fui para lá duas vezes com pesquisa e, na última vez, uma exposição do trabalho, que tem plantas medicinais que conheci lá. E fiz a obra com as plantas do lugar. A exposição foi em Tóquio e a pesquisa foi em Saitama, no interior, e no norte, na região de Akita.”

Oásis do agito - Em parceria com o fotógrafo e artista Alexandre Forcolin, Karenin produziu a obra “Dual Unit”, exposta em junho em São Paulo, em uma festa no Shopping Light, no centro da cidade. A instalação discute os universos macro e microscópicos, ampliando a imagem de cloroplastos da elódea, planta muito usada em aquários. Essa espécie não é comumente aplicada na medicina popular, mas por ser fina ao ponto de ser possível captar o movimento dos cloroplastos em direção à luz sem a necessidade de uma incisão, levou a artista a fazer uma instalação que ainda contava com uma foto de uma árvore centenária na África e um som ambiente criado pelo músico japonês Tatsuro Murakami.

Anais Karenin Dual Unit Crédito Divulgação

“Por um lado, havia uma festa; e do outro, uma instalação com plantas e um som delicado, que levava as pessoas para outro universo”, diz Anais sobre a instalação Dual Unit (foto). Crédito da Foto: Divulgação

A exposição era como um oásis do agito, no qual o público tinha espaço para um lado muito mais lúdico. “Por um lado, havia uma festa; e do outro, uma instalação com plantas e um som delicado, que levava as pessoas para outro universo. As pessoas nem queriam voltar para a festa. Elas visitavam a instalação para se recompor e se reconectar”, diz ela, que está cursando doutorado na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) debatendo o conceito de simbiose da arte a partir do estudo de artistas japoneses do pós-guerra pertencentes a um grupo chamado Mono-ra:  para eles, o artista não é o criador, mas o intermediário entre a matéria e a cultura.

Karenin explica que a arte e a ciência trazem outros campos de imaginação de pensamento em relação à natureza, que talvez a própria ciência não tenha tempo ou interesse. “São campos que envolvem a natureza e a cultura. A arte está voltada a esse pensamento sobre como a cultura se relaciona com as coisas. Como pensamos e sentimos o mundo ao nosso redor. Nesse sentido, a arte traz esses remédios e cápsulas de outras possibilidades de pensar ou sentir que não haviam sido instauradas ou estavam em campos de pouco interesse. A arte é capaz de transformar em algo real algumas coisas que são intangíveis. São remédios, são curas.”

Arte visceral – O artista Eduardo Padilha, que está no terceiro ano do curso de farmácia bioquímica da USP, explica que a bioarte veio para desconstruir a crença do Ocidente de que apenas o discurso científico é confiável. O método que tem sido empregado na busca de medicamentos é o de isolar um elemento específico de uma planta para combater uma doença, ignorando os saberes relacionados ao uso das ervas, nos quais estão envolvidos rituais religiosos e compostos de chás e de ervas sem distinção de substâncias. “Hoje tem uma mudança, um pensamento de que só isolar não resolve. E que tem moléculas que servem, porque não é só aquela molécula, tem outras substâncias das plantas que, juntas, resultam num chá. O efeito é regulado por mais uma substância. Isolar e ignorar os outros saberes porque não eram discursos científicos, mostrou que não estava dando certo”, afirma.

Padilha sempre esteve ligado à arte. Na adolescência, estudou violino. E, aos 13 anos, começou a trabalhar como aprendiz no Instituto de Ciências Biomédicas da USP, onde atua até hoje. O seu despertar para a bioarte ocorreu quando estava no cursinho e conheceu a Biohacking Academy, da instituição holandesa Waag Society. Ao aprender métodos de construção de seus próprios equipamentos científicos, proporcionados pela evolução de plataformas tecnológicas, Padilha tem feito obras com bactérias Escherichia Coli, presentes no sistema gastrointestinal. O gosto pela filosofia e da crítica ao método científico impulsionaram seu propósito estético formado por seres vivos. A alteração de cores de bactérias, em laboratório, geralmente é realizada para separar algum composto, indicar alguma reação. Mas Padilha usa esses elementos como arte, algo impensável aos companheiros de bancada.

“É óbvio que o conhecimento científico e seu método nos fez avançar, mas temos cada vez problemas mais complexos, que o modelo reducionista do método científico não dá conta, método de fragmentar para entender. Funciona, mas tem cada vez mais exemplos que em fenômenos inter-relacionais não há resposta pensando apenas em fragmentar. Esses tipos de questionamentos não são o tipo de coisa de quem está na bancada do laboratório. Há exceções, mas os próprios fundamentos não passam pela média pelas pessoas. E a arte vem de encontro porque permite questionamentos e especulações, uma vez que posso usar de substrato para questionar a própria ciência.”

Irmã da ciência – Para a jornalista e fotógrafa Tuane Eggers, a música de Gilberto Gil “Quanta” é capaz de explicar essa relação entre arte e ciência. “Eu sempre me senti distante da ciência pensando em um sentido mais restrito da palavra, como aquilo que envolve muita pesquisa e a busca por uma exatidão nas respostas. No entanto, a ciência trata-se também de uma maneira de fabular o mundo. As hipóteses de uma busca científica sempre surgem da imaginação, assim como muito do que compõe o fazer artístico. Lembrei da música ‘Quanta’, de Gilberto Gil, que diz: ‘Sei que a arte é irmã da ciência / Ambas filhas de um deus fugaz / Que faz num momento e no mesmo momento desfaz / Esse vago deus por trás do mundo / Por detrás do detrás’.”

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“Uma referência para minhas pesquisas é a antropóloga Anna Tsing, que diz que a separação que o ser humano concebe como natureza ou meio ambiente é uma separação artificial, pois a natureza humana é uma relação entre espécies, tanto do ponto de vista biológico quanto natural”, diz Tuane Eggers. Crédito da Foto da Foto: Divulgação

A artista, que trabalhou na produção de imagens do “O Filme da Minha Vida” (2017), de Selton Mello, começou a fotografar fungos. E resolveu fazer arte não apenas com as lentes de sua câmera, com seu olhar onírico para com esses seres, mas desenvolvê-los no próprio papel fotográfico. “Penso que temos uma ideia equivocada de que tudo aquilo que está do lado de fora do nosso corpo físico é algo separado de nós. Uma referência para minhas pesquisas é a antropóloga Anna Tsing, que diz que a separação que o ser humano concebe como natureza ou meio ambiente é uma separação artificial, pois a natureza humana é uma relação entre espécies, tanto do ponto de vista biológico quanto natural. Por isso, é curioso o fato de sempre citarmos a natureza como algo à parte. Se a arte fala sobre tudo aquilo que permeia a vida, como não falar sobre os próprios fluxos em que a vida está inserida? Foi muito nesse sentido que surgiu meu interesse pelos fungos: sempre tive uma curiosidade pela beleza da transformação das coisas, a beleza que pode existir nas ruínas”, explica a artista gaúcha.

Com a ação dos fungos no papel fotográfico a artista questiona a “própria fotografia como algo que promete ser um registro intacto de uma ‘verdade’”. Além dessas obras de arte, que ainda não foram expostas, a artista cursa o programa de pós-graduação em Artes Visuais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) na linha de Poéticas Visuais, focada no processo do desenvolvimento de seu trabalho artístico. “O título temporário de minha dissertação é ‘A poética dos fungos: estudos sobre o sublime e a impermanência na fotografia’. Como diz o título, a minha pesquisa envolve propor uma relação entre o conceito de sublime com a impermanência da natureza, pensando que o sublime não deve necessariamente estar ligado somente a paisagens grandiosas, mas pode também ser representado por aquilo que é ínfimo (e ao mesmo tempo, imenso) como é o caso dos fungos e sua capacidade de transformar a matéria.”

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“A minha pesquisa envolve propor uma relação entre o conceito de sublime com a impermanência da natureza, pensando que o sublime não deve necessariamente estar ligado somente a paisagens grandiosas, mas pode também ser representado por aquilo que é ínfimo”, diz Tuane Eggers.

Eggers nasceu em Lajeado, no Rio Grande do Sul, e sempre se interessou pela natureza. E o seu despertar para essa temática foi um mergulho nos segredos da floresta. “As experiências que mais me proporcionaram epifanias em relação a esse pertencimento foram estimuladas por algumas substâncias enteógenas. Talvez já houvesse alguma sensibilidade maior nesse sentido pelo fato de eu ter crescido em uma cidade do interior, por morar em uma casa com um jardim e por utilizar a fotografia como uma forma de descobrir as miudezas ao meu redor. Mas, penso que é importante ter a consciência de que algumas substâncias são realmente capazes de ampliar nossa percepção, de aumentar nossa sensibilidade e de permitir que façamos novas conexões sobre o mundo.”

À flor da pele – A bioarte está em franca expansão, com o empoderamento dos artistas acerca dos aparelhos que podem ser construídos para se fazer um laboratório particular. E chega até a extremos. Janaina Dernowsek é uma bióloga geneticista brasileira, especialista na biofabricação e bioimpressão de células. Atualmente, ela trabalha em uma pesquisa sobre a reprodução de camadas da córnea. Em suas palestras, cientistas discutem a evolução da impressão de artérias e órgãos inteiros, com a finalidade de conseguir salvar milhares de vidas que sofrem nas imensas filas de transplantes de coração, rins e pulmão.

Em um desses eventos, Janaina achou bem estranho uma pergunta que veio da plateia: “é possível imprimir a minha própria pele para fazer uma bolsa?”, questionou a artista visual Lina Lopes. “Hoje ainda não dá para imprimir a pele. Há pesquisas nesse sentido na área de cosméticos, para substituir testes com animais. Mas a parte sensitiva da pele, a vascularização e as camadas complexas da pele ainda não são possíveis de serem reproduzidas”, explica a cientista, que acredita que há ainda um longo caminho para se imprimir um coração, por exemplo.

Ela, no entanto, não faz cara feia em perguntas como a de Lopes. Por ser uma área nova e instigante, é importante despertar a atenção de artistas, que podem sonhar novas possibilidades às quais a ciência ainda nem imaginou. “Com certeza a bioarte estimula e impulsiona áreas da ciência, da tecnologia e, com certeza, da bioimpressão, pois nos baseamos também na natureza e em estruturas biológicas humanas para projetar tecidos.”

 

* jornalismo cultural também é um dos meio de cura das feridas sociais, penso eu, que sou praticamente um acupunturista das letras e dos sons. Ajude o entresons.com.br a manter o seu acervo de reportagens e incentivar novas matérias contribuindo com uma assinatura mensal desse serviço de notícias culturais no site https://benfeitoria.com/entresons

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