João Taubkin Quarteto

Um exercício saudável da melancolia

Compositor e contrabaixista João Taubkin lança “Kândra”, CD que sintetiza suas paixões musicais, por vezes, obnubiladas pelas sombras da memória

Roger Marzochi, do entresons; Créditos da Foto de Pipo Gialluisi

A essência da música é a sensação que ela provoca em quem toca e quem ouve. É praticamente como ser levado à infância ao sentir o cheiro de terra molhada após uma chuva, ou o sabor de um pavê que você compra num restaurante à quilo e que te faz sentir saudades de uma tia querida. O compositor e contrabaixista João Taubkin explora também as percepções que lhe marcaram a sua vida na música em “Kândra”, novo CD que terá show de lançamento amanhã, dia 7 de agosto, no JazzB. A avó paterna de João era cantora lírica e o pai, Benjamin Taubkin, um pianista extraordinário. “Ela é a semente de tudo isso”, disse-me João, em entrevista em 2017, em um café na Vila Madalena.

“O que pegou prá mim de ser músico não foi nem muito uma escolha, foi naturalmente acontecendo. Meu pai me levava desde moleque em shows. Eu lembro com oito anos meu pai ensaiando com a Savana”, explicou o músico, em trechos de entrevistas que não foram aproveitadas à época. O texto daquele tempo pode ser lido na reportagem “Um xamã fusion”. “Eu lembro muito de ir no Sanja, no Blue Note. Uma memória muito forte prá mim é meu pai tocando piano quando chegava à noite. Eu ficava ouvindo do quarto, era quase que uma música de ninar. Meu pai nunca cobrou nada. Eu fui fazendo meu caminho.”

E a decisão de entrar definitivamente para a música vieram de dois discos importantes para a vida do compositor: “Houses of the Holy” (1973), de Led Zeppelin, e “Milton” (1970), de Milton Nascimento. Este, influenciou o músico fazer incríveis vocalizes e a mergulhar na cultura brasileira, num swingue que não existe no mundo; aquele, levou o músico para o universo do rock progressivo, da transgressão. “O caminho para o rock nem é muito racional… Naturalmente foi para esse lugar. A minha base musical tem o rock num lugar bem especial. Principalmente as bandas da década de 70”, explica João, em entrevista pela internet.

João Taubkin Kandra CDE o CD “Kândra” segue nesse caminho. As duas primeiras composições do trabalho, aliás, têm raízes bem roqueiras, mas para um Soft Metal do que um Heavy Metal. “Miragem” e “X” exploram bem essas raízes, ora puxando para próximo de bandas como Pink Floyd, especialmente no timbre da guitarra de Rodrigo Bragança, artista sobre o qual escrevi também em 2017 no artigo “Perspectivas da Solidão”; e, em algumas progressões, chego a viajar para a década de 1980, sentindo sabores do disco “Somewhere in Time”, do Iron Maiden (1986), algo que sinto mais presente na música “X”. Mas é só uma miragem, porque Steve Harris, o contrabaixista da banda estrangeira, tem muito a aprender com o João.

O rock é especialmente doloroso e melancólico, deixa um amargo sabor, embora seja saudável. Lembro-me da energia que esse ritmo me trouxe na adolescência, extraindo de mim a revolta e diversas depressões. Demorei mais de um mês para criar coragem e pedir a um tio roqueiro uma cópia da fita cassete com bandas como Saxon, Iron Maiden, Scorpions, Twisted Sister, Accept, entre outras preciosidades ensurdecedoras. E, depois, Pink Floyd, Emerson Lake and Palmer, Simon and Garfunkel, Hüsker Dü, Pixies e todo o rock nacional.

E o que Steve Harris nunca imaginou fazer, João “put the feet in the jaca”. O CD “Tribo”, de 2013, é uma obra-prima incandescente. Esse trabalhou foi que levou o “xamã fusion” a reunir Bragança e os músicos Sérgio Reze (bateria e gongos) e Ze Godoy (piano) a se unirem. E, a partir de “Kândra”, a terceira música do disco, o negócio vai ficando muito mais profundo. A começar pelos vocalizes de João, que retomam a sua experiência em “Tribo” e de sua parceria incrível com a cantora moçambicana Lenna Bahule, que resultou no disco “Taubkin & Bahule” gravado no ano passado, e sua participação no grupo Clareira.

A partir dessa terceira música não é mais possível rotular o que acontece na mente desses músicos, não é mais rock. E essa indefinição é, aliás, retratada na própria escolha do nome do disco. “Esse nome me veio na cabeça… Ainda não descobri o seu significado… Procurei na internet, mas não achei nada… Tem uma banda de defmetal da Bielorrússia que tem esse nome..rsrs Tem uma cidade na Índia que também tem esse nome…rsrs”, explica o músico, que traz esse componente essencial da intuição para as palavras. Kândra é mais uma onomatopeia, é mais um vocalize do que necessariamente um lugar. É uma utopia, um não-lugar. Há na música sons de pessoas conversando, é um lance bem profundo, de grande esperança que transpassa as outras três canções, limpando a mente dos ressentimentos, fazendo remédio da melancolia.

 

 

João Taubkin Grupo – Kândra

 

Ficha técnica:

 

João Taubkin : composição, baixo e voz

Rodrigo Bragança : guitarra

Sérgio Reze : bateria e gongos

Ze Godoy : piano

Arte do disco realizada por Aline Alegria

Créditos da Foto de Pipo Gialluisi

Gravado por Zé Godoy

Mixado por Hugo Silva

Masterizado por Zé Victor Torelli

Produzido por João Taubkin

Distribuído digitalmente pela Tratore

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