Héloa em Agô _ Frame 2

Héloa e índios da Aldeia Kariri-Xocó entoam canto em defesa do Velho Chico

“Agô” abre caminhos para o próximo disco da artista, pede licença, reverencia as forças ancestrais e, ao lado do Cacique/Pajé Pawanã Kariri-Xocó, expõe toda a tristeza daqueles que dependem do Rio como sua maior fonte de sobrevivência

Yasmim Bianco

“Eu sou Pawanã Kariri-Xocó, sou chefe da minha aldeia. Bom dia!! Eu convido os irmãos a lutarem pelo nosso Rio Opará! O Rio Opará está indo embora, está morrendo, ele não tem mais peixe para a gente caçar! Nós vivemos dele, ele é nossa vida, nosso ancestral! Meus irmãos brancos de bom coração, vamos lutar pelo Rio Opará?  Vamos? Vamos!” É com essa força, de denúncia e chamado, que Héloa apresenta “Agô”, primeiro single de seu próximo registro de estúdio.

Acompanhada de videoclipe que mistura ficção com documentário, a música traz a união de duas poderosas energias ancestrais que guiam a vida da artista iniciada no candomblé e consagrada nas tradições indígenas da família Sabuká Kariri-Xocó. Em uma espécie de pedido de desculpas e um lamento pela morte do Rio Opará, amplamente conhecido como Rio São Francisco, a cantora lança um olhar para este que, há anos, vem sofrendo tragédias e mutilamentos.

A capa da faixa é assinada pela própria cantora que, no retrato, aparece segurando uma cabaça como símbolo de resistência, força e gestação, pedindo licença, agradecendo e se despindo como quem se coloca a serviço do sagrado através do som. Essa figura mitológica também é representada por ela na versão audiovisual de “Agô”. Dirigida por Raphael Borges, com fotografia de Edu Freire e roteiro de Héloa, as imagens foram gravadas às margens do Rio Opará. Colocando o dedo na ferida, de um lado, nos limites de Sergipe, deslumbra-se um Rio grandioso e frondoso, ponto turístico cobiçado; do outro, em Alagoas, na cidade Porto Real do Colégio, onde fica localizada a Aldeia Kariri-Xocó, uma realidade oposta.

Héloa em Agô _ Frame

“Fui escolhida e acolhida como filha da aldeia. Recebendo ensinamentos e a missão de ser porta-voz e guardiã das forças ancestrais das águas através da música”

“Quando decidi fazer um disco todo dedicado à força das águas fui ao encontro do Velho Chico (Rio Opará) e retornei à aldeia Kariri-Xocó, a qual tenho relação de mais de 15 anos. Nesse novo contato, e durante todos esses anos, vi o Rio Opará morrendo, toda uma aldeia mudando seu modo de viver, se alimentar, se banhar, toda uma tradição sofrendo junto ao Rio. Entendi que era um chamado. Assim o foi. O Cacique/Pajé Pawanã tem sido um grande mentor nessa caminhada, me convidou, para além de um disco, a mergulhar ainda mais nessa tradição. Fui escolhida e acolhida como filha da aldeia. Recebendo ensinamentos e a missão de ser porta-voz e guardiã das forças ancestrais das águas através da música”, explica.

Nesse contexto, cena a cena, Héloa surge com figurinos e personagens idealizados por ela e Amanda Paulovic, passeando por carrancas, cabaças, espadas, estandartes, caatinga e lavadeiras. São homenageados os ancestrais, orixás, voduns, as forças da natureza e da mulher sertaneja, o cangaço, os retirantes, as estradas, os folguedos de matriz africana e indígena presentes no folclore sergipano como o grupo Parafusos, São Gonçalo, Lambe Sujo e Caboclinhos, além de um dos maiores artistas plásticos brasileiros, o Sergipano Arthur Bispo do Rosário.

Assumindo o papel de documentário, o material capta, dentro do que a tradição deixa ser captado, os rituais, as palavras de ordem, os cantos, as vestes sagradas e todo o acolhimento de um chamado ancestral. Musicalmente, Zé Nigro assume a produção e a co-produção de Maurício Badé sob a direção artística de Héloa.

Nas escolhas rítmicas, de timbres e instrumentos que marcam a base desse single, atabaques, baixos, violão de 7 cordas, viola, guitarra, sons sintéticos e programações que deixam a sonoridade ainda mais quente. Tudo isso com as participações especiais de Webster Santos, Maurício Fleury e Edy Trombone. Disponível em todas as plataformas digitais, “Agô” tem letra da sergipana Patrícia Polayne e inserção de um “Rojão”, canto de lamento Kariri-Xocó.

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