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Ciência e meio ambiente inspiram o CD “Quantum”

Encontro do piano de Daniel Grajew com pandeiro de Túlio Araújo vai do microcosmo da física quântica aos rios voadores da Amazônia

Roger Marzochi, do entresons.com.br – projeto eLab#Sons / Crédito Fotos: Flávio Charchar

Cientistas têm criado arte no Brasil, em um movimento que vem crescendo desde a década de 1960, refletindo um processo que ocorre em todo o mundo. Eles usam modelos matemáticos, microscópios, sensores, biossensores e algoritmos para fazer da técnica uma expressão lúdica e abstrata. A arte em si, no entanto, também é uma ciência, cujos métodos são muito diversos daqueles empregados pelo modelo cartesiano, que ainda exige prova em laboratório. A ciência da música é a capacidade de sentir e fazer sentir por meio de sons. A música não é matemática, não é física, apesar de as notas musicais e os instrumentos, na maioria das vezes, respeitarem leis dessas áreas do saber.

capa quantum

CD “Quantum” foi encomendado pelo Savassi Festival, de Belo Horizonte. A imagem da capa foi clicada pelo fotógrafo Márcio Rodrigues.

“Em um primeiro momento, você conta o compasso. E, então, para de contar, pois você o internalizou. Você para de contar porque sente o número”, explica o pianista paulistano Daniel Grajew, que buscou inspiração na física quântica e no meio ambiente em “Quantum”, seu novo CD em parceria com o percussionista Túlio Araújo. Há participações especiais em várias composições, como Carlos Malta, Dani Gurgel, Jorge Continentino e Lea Freire. O disco foi feito sob encomenda do Savassi Festival, de Belo Horizonte, evento no qual os músicos realizaram o primeiro show do trabalho, em agosto deste ano. “Eu acho que a arte é uma ciência, as duas se convergem. E a música e o ritmo bebem muito na matemática. Tudo que usamos no disco têm fundamentos matemáticos”, diz Araújo, que estudou e trabalhou na área de ciência da computação até se tornar também música.

Grajew sempre foi um músico transcendental. Em “Manga”, o seu primeiro CD autoral, o compositor bebeu nas fontes do budismo, como conta reportagem do entresons, de 2014. Curioso sobre a origem do Universo, Grajew tem seguido podcasts de ciência e livros, que o levaram à canção que dá nome ao novo trabalho. Antes de contar sobre essa inspiração, é bom fazer um breve resumo sobre a gênese dessa palavra, que se refere a fenômenos que ocorrem nas partículas elementares da matéria.

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“Essa música tem uns saltos porque eu pensei na coisa do salto quântico. Você não enxerga os saltos”, diz Grajew sobre a música “Quantum”.

Incerteza como regra – De acordo com Stephen Hawking em seu livro “Uma breve história do tempo”, o sucesso da lei da gravitação de Isaac Newton acabou por inspirar em pesquisadores uma ideia de previsibilidade total no universo. O francês Marques Laplace, no início do século 19, era um desses obstinados, que extrapolava o determinismo não apenas para o cosmo, mas pesava que essas leis também seriam aplicadas aos humanos. Na contramão, outros cientistas buscavam outras explicações, até que os britânicos lord Rayleigh e Sir James Jeans criaram cálculos matemáticos segundo os quais uma estrela emitiria energia a uma taxa infinita.

“A fim de evitar esse resultado obviamente absurdo, o cientista alemão Max Planck sugeriu, em 1900, que a luz, os raios X e outras ondas não poderiam ser emitidos a uma taxa arbitrária, mas apenas em certos pacotes, que ele chamou de quanta”, explica Hawking. Em 1926, mais uma teoria sepultaria o determinismo: Werner Heisenberg, cientista alemão, formulou o “princípio da incerteza”, segundo o qual é impossível saber a velocidade ou a posição de uma partícula. Ao se aplicar um “quantum” de energia sobre a partícula ela mudará ou sua velocidade ou posição. Um elétron de hidrogênio, o único que circunda o núcleo desse átomo, pode mudar de posição ou velocidade, sendo impossível determinar esse salto quântico.

Essa sutiliza primordial mudou completamente a física, em cujos cálculos buscam explicar de buracos negros a viagens no tempo. E, que em sua mais radical metáfora artística, está vinculada ao free-jazz, levou Grajew a criar uma música num ritmo incomum de 13/16. “Essa música tem uns saltos porque eu pensei na coisa do salto quântico. Você não enxerga os saltos. Quando uma partícula muda de órbita, você não vê a trajetória que ela fez, partiu desse conceito. Essa música foi uma levada que o Túlio me mandou e eu fiz a melodia em cima”, explica o artista, que chamou a multi-instrumentista e cantora Dani Gurgel para representar esse exemplo do princípio da incerteza.

Segundo Araújo, a musicalidade que o conectou a Grajew. Mas, como ambos adoram matemática, e as conversas musicais desembocavam em questões filosóficas sobre quem somos no Universo e física quântica, a fusão desse duo foi irresistível. “Compomos Quantum que é um 13 por 16, mas que soa parecido com quatro por quatro. É um andamento diferente que os brasileiros costumam fazer. É uma espécie de algo que tem similaridade com dimensões paralelas. E o conceito veio natural, porque era o que nos movia.”

“A analogia musical e visual para o salto quântico é perfeita”, diz o físico Mauro Pontes, professor de física e de oficinas do Colégio Equipe e da Arco Escola Cooperativa, em São Paulo. “Em primeiro lugar, o Daniel é muito sensível, toca muito; e segundo, quando ele faz os comentários, as suas associações têm o máximo de respeito ao quanto ele sabe e não sabe, isso é muito legal. Algumas pessoas falam muitas bobagens em suas inspirações quânticas, mas ele faz isso com o respeito pelo mistério.”

De acordo com Grajew, a arte é importante para o aprendizado científico nas escolas. “Quando você fala que a Terra gira em torno do Sol, é preciso um nível de abstração. E é preciso entrar nesse universo abstrato para que as pessoas possam entender, especialmente na física quântica. E o ouvinte precisa ter um nível de abstração também. A arte desenvolve na criança e nas pessoas o pensamento abstrato, a imaginação, que é uma necessidade para a ciência”, afirma.

No calor do debate – A maioria das composições, aliás, foi feita em 2019, no extremo calor de um governo de extrema-direita em plena ação contra a cultura, a educação e, principalmente, a ciência. “O artista absorve um clima do contexto geral”, diz o músico. Um documentário do pesquisador Antonio Donato Nobre, que em 2014, no estudo “O Futuro Climático da Amazônia”, explica como o vapor de água das árvores transmitem umidade, Grajew compôs “Rios Voadores”. Essa humidade forma um verdadeiro rio voador que, segundo Nobre, em entrevista à revista Pesquisa Fapesp, transporta 20 bilhões de toneladas de água em um dia, mais que os 17 bilhões de toneladas de água do Rio Amazonas.

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“Eu acho que a arte é uma ciência, as duas se convergem. E a música e o ritmo bebem muito na matemática”, diz Túlio Araújo.

Essas nuvens carregadas levam chuva para o centro-oeste, sul e sudeste do País, além de banhar também as terras de Bolívia, Paraguai e Argentina. É devido à essa amplitude que Grajew pensou em misturar ritmos. A música começa com um maracatu, depois vira uma salsa, “como se geograficamente tivesse rios voadores que levassem os ritmos”. “É uma coisa meio sonhadora, um ambiente onírico. Um ritmo que evapora aqui e começa alí”, diz o músico. E para soprar essa umidade, Grajew convidou o parceiro Carlos Malta, reconhecido como o “escultor dos ventos”. Malta pode ser brisa, mas também, é a própria tempestade. A entrevista com Grajew, por incrível que pareça, aconteceu justamente na segunda-feira dia 19 de agosto, quando São Paulo anoiteceu em razão da nuvem de fumaça das queimadas da Amazônia, o completo oposto dos rios voadores.

O CD conta ainda com a participação de Lea Freire, a Velha Maluca, em “Winter Flower”, uma composição que tem ares de música da Idade Média; Jorge Continentino faz participação especial em “Jack Cem”, tocando pífano numa música em homenagem a Jackson do Pandeiro, cujo centenário de nascimento é comemorado neste ano. Das nove músicas de “Quantun”, apenas duas são releituras de composições presentes em “Manga”: “Sete vidas”, que ganha um pulsar de coração no pandeiro; e “Choro Vermelho”, que faz muito lembrar o maxixe “Corta-Jaca”, de Chiquinha Gonzaga. Em “Óleo Branco” Grajew divide-se entre o baião e o jazz bebop e, em “Giramundo”, mergulha em sintetizadores. Os físicos podem torcer o nariz para a popularização de conceitos complexos da ciência, mas não há como não pensar que em “Quantum” o piano e o pandeiro agem no mais completo “emaranhamento quântico”.

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