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Bruna Moraes despe a humanidade em “Nua”

Cantora, compositora, violonista e poetisa ousa no romantismo ao estilo voz e violão, buscando pela empatia despertar o amor no ser humano

Roger Marzochi, do entresons.com.br – projeto eLab#Sons / Créditos das Fotos: Instagram

É impossível sair ileso após ouvir “Nua”, o segundo CD da violonista, compositora e cantora paulistana Bruna Moraes, lançado em abril de 2019 nas plataformas digitais. A densidade de sua voz, a gravidade de suas palavras, desencobrem a grossa camada de resistência à alteridade, poeira que a contemporaneidade tem depositado nos relacionamentos nas mais diversas camadas. A capa, criada pelo artista plástico Roberto de Carvalho, faz uma metáfora do mundo a partir do olhar da cantora, convidando o ouvinte à sua perspectiva. E Bruna Moraes revela em suas canções o amor que mora na essência do ser humano, num mergulho perpendicular, o mesmo no qual o poeta Manuel Bandeira se jogou em “Nu”: para dentro do olhar líquido da amada, com o seu corpo reluzente como estrela, no qual “baixo até o mais fundo de teu ser, lá onde me sorri tu’alma, nua, nua, nua…”

Com 24 anos de idade, Bruna Moraes comprova nesse novo disco que entrou definitivamente para a história da Música Popular Brasileira (MPB). O trabalho conta com a participação dos violonistas Romero Lubambo e André Fernandes. Cinco anos após o seu primeiro disco “Olho de Dentro”, ela retorna ousada, no estilo voz e violão, desafiando a indústria do entretenimento, pois seu show deixa marcas profundas. “Acho que quem tem coragem é meio doido. Mas a coragem não é ausência de medo. Eu cheguei a pensar que as pessoas não iriam gostar desse disco. Mas a felicidade de continuar cantando e compondo foi uma realização profunda”, explica Bruna. O amor, cantado em suas mais diversas expressões, no entanto, não chega a ser “sofrência”, pura dor de cotovelo. Com apenas dez anos de estrada, ela aprendeu a sensibilizar o seu canto sentindo a dor do outro. Mas isso, no entanto, sem se colocar exatamente na pele da pessoa que sofre, para que a sua interpretação poderosa não a deixasse dilacerada a cada música.

“Esse disco fala sobre a simplicidade dessa ideia da empatia, da existência do ser humano que se machuca, que se empolga, deseja e desiste. É um foco na nudez do ser humano, sem mascarar ou esconder nada. O maior talento da minha vida é a empatia, e só. Existem outros. Mas é o que eu sei fazer da minha vida: é sentir o que os outros sentem. A minha arte existe porque eu não sei não pensar no outro. Eu acho que ser artista tem a ver com humanidade”, explica. “E pode ser um defeito meu, mas quando eu vejo as piores pessoas do mundo, penso que alguma coisa de muito errado aconteceu com elas. Isso porque eu acredito que a natureza humana é empática.”

Bruna Moraes

“Esse disco fala sobre a simplicidade dessa ideia da empatia, da existência do ser humano que se machuca, que se empolga, deseja e desiste”, explica Bruna Moares.

Das 11 músicas, quatro são apenas de Bruna, mas que também faz parceria com outros compositores e músicos. Romero Lubambo participa no início e no fim do disco, em “Acalanto” (Bruna Moraes) e Quem Ama (Marcus Marinho e Achiles). Suas letras e interpretações são tão profundas, explica Bruna, porque a poesia chegou em sua vida antes das primeiras aulas de violão: a sua mãe, professora, deu-lhe livros de poetas como Vinícius de Moraes, Mário Quintana, Ferreira Gullar e Carlos Drummond de Andrade.

“Sem a poesia eu não conseguiria fazer metade do que faço hoje, sem dar esse valor que eu dou à palavra. Eu sou apaixonada pela palavra, por isso que a música funciona tão bem”, afirma Bruna, que também é poetisa. “Permita-me, Poesia / que o silêncio seja teu; / que seja em tua mão / meu deleite e sossego. / Ajuda-me, amada minha, / que calar o amor é mortífero / e devastador. / Seja meu braço, meu ombro duro. / Refaça meu corpo em tua força”, escreve a artista em “Oro”, publicada em seu blog Abissal.

O amor à palavra levou a moça a ingressar na Faculdade de Letras da FMU, em São Paulo, curso que durou apenas um semestre, pois Bruna participou, no Rio de Janeiro, do musical “Gonzaguinha – O Eterno Aprendiz”, em 2018. Suas viagens para o Rio eram realizadas às sextas, exatamente no dia da aula de Literatura Brasileira. Sem essa aula, o curso não poderia continuar. “Não vou fazer um show pensando que não estaria nessas aulas”, explica. Mas, no entanto, um professor desse curso a inspirou ainda mais nas letras e na música.

A canção “Aérea” nasceu de um poema do professor Rogério Duarte, que ela musicou. Bruna tem, inclusive, promovido várias incursões na criação de melodias: foi assim com a incrível canção “Mínimo Volume”, com letra de Bruno Kohl. “Essa música quase virou o nome do disco”, diz o parceiro André Fernandes, que dobra o violão com Bruna nessa música. “Essa coisa da voz e violão, do canto mais sussurrado, é um canto um pouco distante do sentido técnico e vigoroso do canto aberto da Bruna, que tem característica das grandes cantoras da Era do Rádio. E nessa música, ela foi mais para esse lugar de Rosa Passos. Porque ela canta e se sobressai dentro de uma orquestra, ela enche uma sala, um teatro gigantesco. Foi um presente fazer esse disco.”

Bruna Moraes CD NUA

A capa do CD “Nua”, criada pelo artista plástico Roberto de Carvalho, faz uma metáfora do mundo a partir do olhar da cantora, convidando o ouvinte à sua perspectiva da busca do amor nas profundezas do ser.

Há quem ouça em Bruna ecos de cantoras inesquecíveis, como Elis Regina. Há quem a defenda de possíveis injustiças que possa ter sofrido ao longo de sua breve e intensa carreira até o presente. O fato é que, enquanto poetisa, Bruna vive o agora de maneira visceral, sem precisar de comparações. E ela entende, mais do que ninguém, as palavras de Manoel de Barros, poeta que transformou a forma pela qual a artista se relaciona com o mundo. Em “Autorretrato Falado”, o pecuarista e poeta faz um balanço de sua vida, que quem sabe pode servir para todos os artistas brasileiros. “Me procurei a vida inteira e não me achei – pelo que fui salvo”, escreve ele, que nasceu em Cuiabá entre “garimpos e ruelas entortadas”. “Descobri que todos os caminhos levam à ignorância.”

Ou vai, ou vai – Bruna Moraes nasceu em 14 de março de 1995, em São Paulo, no início da popularização da internet no País. Pisciana convicta, ela acredita que a vida sem amor não tem sentido. Com 10 anos, ela começou a estudar violão como atividade extracurricular do Colégio São Paulo, na Mooca. Incentivada pelo pai, entrou na então ULM, hoje Emesp Tom Jobim, aos 12 anos, para estudar violão. E, rapidamente, chamou a atenção dos professores pelas suas interpretações vigorosas inspiradas na cantora Ana Carolina. Bruna caiu no gosto do cantor Zé Luiz Mazziotti, que se tornou seu primeiro padrinho musical.

Foi com o apoio de Mazziotti que, aos 14 anos, Bruna Moraes subiu pela primeira vez em um palco, para cantar “Chega de Saudade”, música de João Gilberto, acompanhada nada menos pela Orquestra Jovem Tom Jobim, no Memorial da América Latina. “Essa é a minha única oportunidade. Ou você vai ou vai. Ou dá certo ou desiste”, pensou à época Bruna. “Minutos antes pensei em ir embora. Quando eu coloquei o pé no palco eu me senti em casa.”

Em 2015, foi desclassificada do programa The Voice Brasil, mas saiu vitoriosa de diversos festivais de música. É poetisa, tem profundo amor às letras, compõe usando a internet, conectando-se a amigos “reais” e “virtuais”. E, nas horas vagas, ama beber café e jogar videogame. Entre erros e acertos, ela desenvolveu a mesma maturidade que há na essência das músicas que canta desde muito jovem.

Músicas do CD “Nua”

01 Acalanto – Bruna Moraes

02 Maná – Luis Dillah

03 Desenho – Bruna Moraes

04 Espreita – Paulo Monarco e Vinícius Castro

05 Para me Curar – André Fernandes e Bruna Moraes

06 Mínimo Volume – Bruna Moraes e Bruno Kohl

07 Cor de Rosa – Lencker e André Fernandes

08 Como Teu Coração – Bruna Moraes

09 Visão – Bruna Moraes

10 Aérea – Bruna Moraes e Rogério Duarte

11 Quem Ama – Marcus Marinho e Achiles

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